O Exorcista Que Não Comia Carne de Porco

Val Lewton, talvez o melhor produtor de sempre de filmes de terror, dizia que “o segredo do medo é a escuridão, porque nela podemos inscrever tudo”. Jacques Tourneur, o mais talentoso dos cineastas ao serviço da modesta linha de montagem de Lewton nos estúdios RKO, compreendeu a mensagem, e com “Cat People”, “I Walked With a Zombie” e “The Leopard Man” revolucionou o cinema de horror nos anos 40, acrescentando-lhe sexo, instintos primitivos e um ambiente enfermo que transportará cinco anos mais tarde para o “film noir”. Se (re)virem esses filmes, perceberão que a chave do horror é, como o medo, ilusoriamente simples: o que não se vê é mais importante do que aquilo que é visto. Ora, “A Possuída” hesita entre a via mais fácil – o explícito, como os dedos ou os insectos que nascem na garganta de Em, a miudinha demonizada (Natasha Calis) – e a mais difícil – o implícito, no “chiaroscuro” da casa recém-adquirida pelo seu pai (Jeffrey Dean Morgan) ou na morgue do hospital, imagem de marca do director dinamarquês Ole Bornedal. Através da história de uma menina que compra uma caixa com inscrições em hebraico numa venda caseira, acabando subjugada ao espírito dybbuk que vive no seu interior, “A Possuída” não resulta em nenhum dos registos e tem a única curiosidade de ser uma espécie de “O Exorcista” iídiche, com o Talmude a substituir a Bíblia.

“A Possuída”, de Ole Bornedal

Mas a iconografia cristã tem uma força visual que a tradição judaica não consegue (e não pode…) transmitir, e há uma irredutível diferença de intensidade entre o Padre Merrin (Max von Sydow) do clássico de 1973 e o Tzadok (Matisyahu, o cantor iídiche de reggae e hip-hop) deste filme, um filho de rabino com kipá e longos peiot que tentará exorcizar a rapariga em transe. Mais vale dizer “Mazal Tov” e passar à frente.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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4 respostas a O Exorcista Que Não Comia Carne de Porco

  1. abrir esta imagem depois de jantar é fechar a luz
    não vejo filmes de terror por ‘mais melhor bons que sejam’
    mesmo que o teu texto me seduza a vê-los todos

  2. curioso (no go) diz:

    tem com panhia 🙁

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Para terror basta-me o lado trágico dos dias. Mas confio no que li, creia.

  4. nanovp diz:

    Pois não me parece que irei ver, agora lembro-me vagamente de ” Leopard Man”…e de sentir medo…

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