Por um punhado de romãs

O rapto de Proserpina. Niccolo dell’ Abbate

Para quem não tem presente, eu conto: Proserpina andava a colher flores no campo. Plutão, deus ctónico, ascendeu à superfície para dar uma vista de olhos pelo mundos dos vivos. Subiu por uma fenda da terra (ex hiatu terrae para quem ainda vem do tempo do Latim no liceu, lembram-se?), olhou em volta, viu a donzela e as flores e pensou que não era nada má ideia levá-la lá para baixo, para o meio das sombras gemebundas. Os deuses da mitologia greco-latina são assim um bocadinho para o precipitado. Plutão nem se deu ao trabalho de pensar se a rapariga das flores tinha quem lhe chorasse a ausência. E tinha: era filha da deusa Ceres, a que dava as flores e os frutos aos homens. O resto da história é conhecido. A deusa, inconsolável, percorreu a terra em busca da filha, demanda essa que teve nefastas consequências, pois que Ceres, esquecida das suas atribuições, não fazia germinar as sementes nem crescer as árvores e, sobre a terra, a iminência da fome começava a fazer-se sentir.

Foi Júpiter quem teve de pôr fim àquele descalabro, concertando entre a mãe e o raptor uma solução: Proserpina passaria metade do ano nos Infernos e a outra metade à superfície. A alternância das estações é apenas isso: quando Proserpina está junto de Plutão, as árvores perdem as folhas e a natureza parece chorar; depois, quando ela volta para a mãe, tudo reverdece e são abundantes os frutos e as flores.

Há, todavia, pormenores que não vêm no livro de Latim do liceu. Há sempre pormenores que não vêm nos livros do liceu. Quando Proserpina chegou lá abaixo, primeiro, achou que era um bocadinho escuro e frio e, enfim, um deus dos mortos também não há-de ser uma companhia muito calorosa. Digo eu, que nunca privei com deuses ínferos. Plutão, porém, resolveu mostrar trabalho e rodeou a deusazita de cuidados. Arranjou-lhe um sítio bom para ficar, deu-lhe atenção, conversou com ela e, melhor ainda, trouxe-lhe rutilantes romãs que ia descascando, descascando, sem se cansar, que isto de ser um deus sempre há-de ser uma vantagem. Proserpina comia os bagos doces e sedosos das romãs e esquecia, aos poucos, o mundo dos vivos. As romãs tinham esse poder desmemoriante na antiguidade; hoje em dia, não sei se ainda o possuem. Verdade seja dita, a moça já andava um bocado cansada daquela euforia estival em que a mãe a arrastava de sol a sol. Muita luz, muita festa, muita gente. Não sei se ela terá arranjado, lá no mundo dos mortos, alguma amiga a quem tenha feito confidências do género: “Ah, eu andava muito farta de toda aquela luz, aquela agitação. Aqui, estou como se morasse no antigo blogue do Filipe Nunes Vicente, λάθε βιώσας , estou numa boa, sem confusões.”

Deduzo que se terá aborrecido com a decisão que tomaram sobre a vida dela sem a terem consultado.

Cá para mim, mais algumas romãs teriam feito toda a diferença. Talvez ela tivesse passado daquela ataraxia complacente e tivesse exigido, pelo menos, mais três meses longe do sol e do solo.

Mas isto digo eu, que gosto é do Outono.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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13 respostas a Por um punhado de romãs

  1. Ivone, quem diria que Proserpina fora namorada pela síndrome de Estocolmo?! Não se esqueça, quando doravante os raptores derem bagos de romã aos e às reféns, a culpa será sua, deste seu post e deste blog subversivo.

  2. Ivone Costa diz:

    Está a ver; Manuel, como estas coisas são? 🙂

  3. Maria João Freitas diz:

    Ivone,
    Se o título era irresistível, o texto não lhe ficou atrás. E pensar que é Proserpina que nos leva para o Verão ou nos traz o Outono de volta…

  4. Ivone Costa diz:

    Obrigada, Maria João. Pois, por mim ela poderia ficar muito menos tempo com a mãe … 🙂

  5. MJC diz:

    Romãs -> grenadine. Vou passar a tarde a fazer o licor de romã como a minha mãe me ensinou. O xarope fica para a próxima semana. Ontem trouxe um cesto com 25 romãs. Já dei aos vizinhos fiquei a saber que os putos (dos vizinhos) não gostam. Os pais e os miúdos não têm paciência para encher uma tigela com os grãos que depois de umas colheradas de açúcar amarelo será uma deliciosa sobremesa… bem melhor que uns morangos sem sabor de uma qualquer estufa espanhola…

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Das romãs da vida procuro não perder uma. Como este texto é exemplo.

  7. Ivone Costa diz:

    🙂

  8. curioso (geme bundas) diz:

    gostei muito do geme bundas, que des cu nhecia 😉

  9. curioso (an alfa) diz:

    lá irei… às cata cumbas 😉

  10. Xantipa diz:

    Uma das ligações que a maioria dos mitos não conta é a familiar: a pequena era sobrinha dele, filha da sua irmã e foi o irmão mais novo que resolveu a situação…
    Beijinhos!
    P.S. Andava à procura da continuação do crime na biblioteca e vim aqui dar. Parabéns pelo espaço, que ainda não tinha visitado. Pouca net, pouca net…

    • Ivone Costa diz:

      Pois, Adriana, a ligação familiar é toda uma outra história …
      O crime na biblioteca tem de tomar caminho, o morto e os suspeitos reclamam que se fartam. Mas é como dizes, pouca net. 🙂

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