Ramos de fotografias

No witness. Micha. Underskincomma-iv.blogspot.com

– Ramos de fotografias?

– Literalmente, não penses que é imagem.

E afastou-se para empurrar ligeiramente a porta que, entreaberta, desvendava a trama pesada de um reposteiro a aconchegar a luz.

– Conta lá isso, Leonor.

Contou que ele fotografara a casa toda, recantos e ângulos, tecidos e pó, mas nunca os espelhos porque quem tira fotografias a um espelho a si mesmo se vê, na impertinência dos registos que revelam mesmo sem serem convocados.

– Depois de ela ter saído, começou. Meticulosamente: não deixou para trás nem livro aberto nem sapato perdido.

– Não deve ter deixado sapato perdido! Sabemos muito bem que o sapato leva à mulher que se esconde, cinderela ou não.

Riram muito os três. Da vida dos outros sempre se ri ou se lamenta mais do que é devido, nunca na justa medida. Em tragédia alheia não temos palavras que façam cartarse. Pode contar-se, quando muito, mas contar é acrescentar, não é resolver.

Tudo indicava que João Manuel Ferreira teria enlouquecido no dia que a mulher saiu de casa sem revelar rumo. Se era coisa previsível, há quem diga que sim. A saída, digo. A loucura, nada a pressagiava numa ascendência com tão pouca imaginação que nem se dava ao luxo de um primo esquizofrénico. Já do lado dela as coisas eram mais teatrais: um tio-avô, que era notário, a meio da manhã de um dia útil, pegara no chapéu e na pasta e saíra, para nunca mais, antes da escritura marcada para as onze. Das razões, se as houve, não se fez caso. Resguardou-se a esposa lacrimosa, assim legada à comiseração pública, de indiscretas inquirições e esqueceu-se. Poderosa conclusão é o esquecimento que nada acrescenta mas resolve.

João Manuel Ferreira não conhecia essa história e, por isso, ela não lhe veio à memória no dia em que a mulher saiu de casa. No meio da sala, sentiu-se observado por muitas testemunhas de tecido e de madeira, testemunhas hostis que lhe rejeitavam conforto e por quem não queria continuar a ser visto. Então fotografou. Fotografou tudo, a passamanaria pesada, os sofás de orelhas, as insistências dela com a loja que demorava, a luz que mantinha acesa no abât-jour ercarnado e punha reflexos de vinha virgem na parede que escapara às obras, os móveis, as palavras mais onduladas, os jantares de Inverno. Depois, fechou a porta e foi mandar revelar as memórias do amor sem pensar que muitas das melhores memórias do amor são falsas e que tanta imagem lhe levaria a imaginação e, sem ela, nada restaria do passado.

Na outra casa, pouco mais havia do que a ascese branca de dois ou três móveis indispensáveis.

E jarras, muitas jarras com ramos de fotografias. Agarrara em cada uma e fizera uns cones, como os das castanhas assadas. Tinha-os disposto em molhos aleatórios, tão coloridos que a brancura despojada da casa parecia intimidada com aquela caledoscópica exposição. Ramos de fotografias por todo o lado, pedaços do quarto, tapetes vividos, flores agora imperecíveis, a luz do abât-jour encarnado, tudo. Uma casa dentro de outra e ele sem morar em nenhuma delas. Assustador, classificaram em voz baixa os mais íntimos e, na verdade, tudo indicava que João Manuel Ferreira teria enlouquecido no dia que a mulher saiu de casa sem revelar rumo.

– Leonor, tu gostas mesmo da casa assim … com isto tudo?

– Claro que gosto. Gosto … tu sabes que gosto deste tipo de casas. Estes móveis …

O marido encolheu os ombros e sorriu:

– Está a perceber? Ela não está a comprar uma casa, está a comprar uma história.

Leonor protestou com debilidade e acertaram pormenores.

– Vamos a isso, então. Acha que se pode marcar a escritura para a semana?

– Sim … onde é que a Luísa anda? Luísa? Onde é que se meteu?

– Estou aqui, estou aqui. Fui fechar a janela lá de cima.

– A escritura? Para a semana?

– Sim … vou tentar na dra. Ana Isabel.

Voltou com o telemóvel na mão:

– Está marcada: quinta feira, às onze.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a Ramos de fotografias

  1. ah! a impermanência
    o outro tinha razão quando dizia:
    «o Eu não é o dono na sua própria casa»

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    – Isto veio da casa antiga. E isto?
    – Da casa dos meus pais.
    – Jà não me lembrava. Mas o candeeeiro foi do primeiro quarto alugado em que vivemos.
    – Não, não foi. Esse candeeiro ainda veio de Angola… na ponte aérea.
    – Olha, li uma short de uma escritora, Ivone, falava de uma casa dentro doutra e sem que o morador moraase em nenhuma.
    – As coisas que os escritores inventam.

  3. Ivone Costa diz:

    As casas, Manuel, as casas habitam-nos. 🙂

  4. O melhor de entre os Beatles é que fotografava:

Os comentários estão fechados.