Sabe-se da vida o que da vida se lê

Da neve que era uma mancha branca conceptual em fotografias e filmes

A minha infância e adolescência foram tropicais. Quando tive frio era porque as noites eram noites de 17 graus. Quando chovia, dava para tirar a camisa e continuar a andar debaixo do violento e cálido chuveiro. Às vezes o meu pai e os mais velhos da minha rua diziam à minha presunção: “Este miúdo julga que por ler sabe alguma coisa da vida!“
Descobri — só podia — que estavam a falar do Inverno. Falavam, certamente, dos Natais de lareira que eu só tinha visto no papel. Da neve que era uma mancha branca conceptual em fotografias e filmes. Muitos anos depois, um mês passado entre menos 5 a menos 15 graus, em Dezembro de 86, entre Nova Iorque e Montreal, não me reconciliou com a realidade. Esse mês e esse frio foram só um simulacro que mais me convence que toda a certeza é mental.
Há vida para além dos factos. Ainda hoje, o Inverno, para mim, não existe e tudo o que sei, sei por ter lido.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Sabe-se da vida o que da vida se lê

  1. Maria do Céu Brojo diz:

    Eis nova prova da infância condicionar no indivíduo leituras das vivências posteriores. Na diversidade, o ganho.

  2. Panurgo diz:

    A Floresta Negra é muito mais bonita no Inverno, e o Egeu muito mais vivo. A Filosofia (o amor furioso, que é o que ela significa) só é possível nas estações e nas fronteiras da morte.

    Os Trópicos e Nova Iorque que se afundem.

  3. Ler não ensina coisa alguma da vida, o que ensina é a oficina, as mãos na obra:

  4. Carla L. diz:

    Meu contato com a neve foi sempre em locais aonde o silêncio era interrompido somente pelo som dos skis ou então pelo motor da máquina que prepara a pista para o dia seguinte. Algumas vezes uma ou outra criança trocava boladas de neve.Mas no geral , na minha visão pessoal, a neve e o inverno são silenciosos demais, diferente de muito o que li em livros, assisti em filmes ou apreciei em imagens como a acima.

  5. curioso (lu cu brante) diz:

    o mundo seria tristemente muito mais autêntico na postura de cada um se não tivesse sido promovida a fantasia do que alguém escreveu, tipo coscovilhice, mesmo com grande tristeza como aqui se às vezes se consegue.

    será que só o nosso vazio deixa lugar a estas lu cu brações?

  6. Pois claro, olhe que reflexão interessante. Mas postura?

  7. curioso (arre piante) diz:

    quando tive frio… calor… fome… sede… gozo… entusiasmo… sono… cansaço… medo… sonhos… sono… insónia… modo de estar posto ou indisposto… com ou sem encosto… bem ou mal disposto… com bom ou mau rosto… apreciando (ou não) o mosto… acaba em tosco 😉

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