Sangue na Arena e Areia na Cabeça

 

O retrato que se faz de Espanha neste péssimo “Sangue e Paixão” é o mesmo que filmarmos Portugal nos anos 40 mostrando apenas casas de fado, xailes negros e estátuas de Nossa Senhora de Fátima. Trata-se de uma biografia de Manuel Rodríguez Sánchez, “Manolete”, o mais mítico e incensado dos toureiros espanhóis, morto aos 30 anos de uma ferida infligida por um touro na praça de Linares a 27 de Agosto de 1947. A figura de Manolete, “el Monstruo de Córdoba”, macho esguio apaixonado pelas sombras da tragédia, poderia dar um filme apaixonante. Menno Meyjes, o argumentista de “A Cor Púrpura” e “Indiana Jones e a Grande Cruzada”, pensou o mesmo, aliando-se ao produtor espanhol Andrés Vicente Gómez. 24 milhões de euros depois, Meyjes e Gómez desentenderam-se, a empresa responsável pela decoração do filme, cansada de esperar pelo dinheiro que lhe deviam, interpôs uma providência cautelar, barrando a estreia – o filme é de 2007 -, oito versões diferentes foram montadas, os problemas legais e financeiros multiplicaram-se e “Sangue e Paixão” estreou-se cinco anos mais tarde com meia-dúzia de cópias e uma reputação desoladora. A aura de “maldita” talvez ajudasse à obra, mas o que resta é uma caricatura de Espanha e da tourada que faria corar de vergonha OrsonWelles, um devoto de ambas. Meyjes fica-se pelo cultura dos guias turísticos, passeando de forma desastrada pelo homoerotismo do toureio, o flirt com a morte na arena, o “salero” andaluz, o sol de Guadalajara e a “fúria” sexual castelhana como se estivéssemos num folhetim engendrado por visitantes do Wyoming que apenas conhecem as canções de Julio Iglesias, as fotos de Lola Flores, os touros negros postados nas auto-estradas, os trajes de flamenco à venda no centro de Sevilha e os cartazes de “fiesta” pelas paredes das “bodegas” – é tão mau como isso. A história começa num flashback do dorido Manolete, concentrando-se na relação verídica do toureiro com a cantora e actriz Lupe Sino (uma Penélope Cruz imersa no catálogo de tiques de “vulcão mediterrânico”). Não há qualquer profundidade no “biopic”, apenas os clichés do macho latino e da mulher fatal com sabor a “paella” – o franquismo é um pano de fundo que nunca perturba o romance de cordel, e a versão inglesa traz-nos o artista de Córdoba com um sotaque cerrado de Brooklyn. Meyjes já antes se espalhara na encenação dos anos de Hitler como artista plástico em “Max”, e mais vale procurarem os mitos psicadélicos do toureio em “Pandora” (1951) de Albert Lewin ou “O Sol Também Brilha” (1957), de Henry King, numa loja digital da vossa conveniência.

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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3 respostas a Sangue na Arena e Areia na Cabeça

  1. Um bocadinho ofendido com o que dizes da Penélope Cruz, mas sem ter visto o filme (que já me pouparei a ver) que remédio tenho senão amouchar…

  2. Maria João Freitas diz:

    Pedro,
    Gostei muito de ler o texto. Vou gostar muito de não ver o filme.

  3. Não podendo comentar o filme, comento o actor: excelente! E que bem está em “Detachment”.

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