Sylvia

In memoriam Sylvia Kristel (1952-2012)

Já não lhe chegava a gaveta onde secretamente guardava os recortes de jornal. Lá estavam, em lugar de destaque, a Ornela Muti e a Bo Derek, tão destapadas de todas as suas voluptuosas formas quanto escondidas dos olhares alheios naquela gaveta que só ele abria. Já não lhe chegavam as Playboys que ele visitava regularmente, sem mais ninguém saber lá em casa, ou pelo menos convencido que também isso era um segredo só seu. Já não lhe chegavam os olhares que à sucapa lançava, na banca dos jornais, à boazona da semana do suplemento do Correio da Manhã ao domingo. A ansiedade dos seus treze anos ameaçava explodir a qualquer momento se não se atrevesse a mais. Por isso, arriscara. Arriscara a visita ao clube de vídeo e trazer debaixo do braço a cassete proibida. Só faltava deixar a noite avançar, garantir o sono profundo dos seus pais, esperar pela noite em que a irmã fosse dormir a casa das primas. Quando o silêncio fosse absoluto, levantar-se-ia da cama como se estivesse possuído pelo sonho da mulher da cadeira de verga. E avançaria em direcção à sala para dar à recente televisão a cores (a marca era Salora, ainda hoje se lembra) o mais escandaloso uso a que ela se prestara até então.

E tudo correu como planeado: descalço, pé ante pé, do seu quarto para a sala com a cassete proibida na mão, e um momento em que a escuridão se deixou invadir pelo fogacho de luz vindo da Salora. Minutos depois, já nada mais contava para ele para além da Sylvia na sua cadeira de verga. Para os outros era Emmanuelle, mas ele – porque nunca antes assistira à ficção da sua gaveta secreta transformada realidade – preferia tratá-la pelo seu nome verdadeiro.  

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

11 respostas a Sylvia

  1. Sempre achei que a Kristel tinha uma mamas lindíssimas, certas, sem arrogância, de uma inclinação suave. O erotismo dela é, por certo, perfumado, lavadinho. Mas, neste caso, a ideia do banho é consoladora, estimulante.
    Ainda tens a cassette, Diogo?

    • Manuel, ou muito me engano ou as da Kristel foram as primeiras que vi em filme. E não podia ter começado melhor na minha iniciação na matéria. Há coisas, como as mamas da Kristel, que nunca passam de moda.

  2. Nunca vi o filme. Acho que o vi agora.

    • Ó Rita, és capaz de ter razão: o filme, bem espremidinho, resumia-se às mamas da Sylvia. Mas na altura aquilo foi uma revolução para mim. Uma revolução que deixou marcas: ainda hoje, sempre que vejo uma cadeira de verga, lembro-me das mamocas da Sylvia.

  3. vgrilo diz:

    Nao que te considere previsivel, muito antes pelo contrario. Mas quando soube que esta Senhora tinha morrido, soube ja de antemao que aqui viria ler o que terias para nos contar sobre ela. Muito bom.
    Ps: um grande televisor o Solara.

    • Vasco, ainda bem que te satisfiz o desejo (pena é que o pretexto tenha sido a morte da própria). Quanto à Salora, na altura fiquei na duvida se, com outra televisão, as mamocas não sairiam ainda mais perfeitas.

  4. curioso (fin landês) diz:

    havia Saloras de vários tamanhos, não tão grandes como agora. No fim ficaram pequeninos como Nokias.

  5. curioso (aca dor) diz:

    @Manuel S. Fonseca diz:
    Outubro 20, 2012 ás 19:28
    Sem­pre achei que a Kris­tel tinha uma mamas lin­dís­si­mas

    sempre? gostaria de ter achado… mas não terão sido sempre assim

  6. curioso (en sonado) diz:

    vontade de jantar vs rico pequeno almoço 🙂

Os comentários estão fechados.