The Basement Cinematheque: a Menina Dança?

 

“Sonatine”, de Takeshi Kitano

Takeshi Kitano e o “Mr. And Mrs. Smith” de Doug Liman. Salvo as enormes distâncias de estilo, engenho, equilíbrio e substância, têm mais pontos em comum do que parece. Ambos valorizam o cinema como tradução pelo movimento duma mensagem interior. Ambos assimilam a velha máxima “action is character” – é a acção que define as personagens, não os diálogos ou uma qualquer instância simbólica. “Mr and Mrs. Smith” fá-lo com punhais (ou kalashnikovs) como palavras – Angelina Jolie e Brad Pitt não discutem, baleiam-se, e a alternativa é dançar.

Kitano, sobretudo em “Hana-Bi” e “Sonatine”, usa a violência como forma suprema de comunicação, mas as suas lutas são também coreografias de sangue gelado, a eclodir todas as frustrações.

Os bailados de violência são uma tradição no cinema. Há-os operáticos (Sam Peckinpah), irónicos (Tarantino), nihilistas (John Woo) ou melancólicos, sinais colectivos de um tempo perdido (Jacques Demy, o Stanley Donen de “It’s Always Fair Weather”). Sem entrarmos na genealogia dos musicais, a dança como reprodução cinética de ideias e sentimentos tem uma tradição ainda maior: o baile de “The Magnificent Ambersons” (1942) de Orson Welles, Henry Fonda e Cathy Downs sob o sol abrasador do Oeste em “My Darling Clementine” (1946) de John Ford, o bailarico sobre a piscina de “It´s a Wonderful Life” (1946) de Frank Capra, o diabólico solo em seda de Rita Hayworth no “Gilda” (1946) de Charles Vidor, o “paso-doble” de John Wayne a agarrar Maurren O’Hara na tempestade nupcial de “The Quiet Man” (1952, Ford outra vez), a festa enlutada de “A Noite” (1961) de Michelangelo Antonioni, o (absurdo) ballet infligido por Malcolm McDowell em “Laranja Mecânica” (1971) de Stanley Kubrick – as décadas continuam, e o impulso de dançar também. Poucos realizadores contemporâneos conseguiram compreender a síntese entre música, movimento, emoção, violência e ânsia de comunicar como Michael Mann – o francês Olivier Assayas chama-lhe “o grande estilista”.

Consumado obsessivo, Michael Mann jura pelo “action is character” como um náufrago com terra à vista, usando a profundidade de campo para colocar as personagens num dos cantos do enquadramento, isoladas na sua obstinação, entregues ao deserto que as aprisiona. Mann anda sempre a fazer o mesmo filme, misturando as referências e sinais do cinema de género – o “western”, o “thriller”, o “caper movie” – para criar um universo marcado pela solidão, onde os prédios substituem os canyons, a lei é inútil para esbater as diferenças entre “bons” e “maus” e a esperança só existe em forma de sonho impossível. Nas suas fitas, os protagonistas não conseguem adaptar-se ao mundo onde vivem, às regras e à claustrofobia desse mundo. Inventam então o seu próprio universo, com regras pessoais de acesso e de sobrevivência. São ladrões, criminosos, polícias, assassinos, taxistas, que estão sozinhos porque escolheram estar sozinhos – é essa a massa de que são feitos. São desenraizados, individualistas, com códigos de honra muito próprios, invertendo a ordem “normal” de valores: Neal McCauley (Robert DeNiro) tem um ethos superior ao de Vincent Hannah (Al Pacino), o polícia que o persegue em “Heat” (1995); Frank (James Caan), o ladrão de bancos em “Thief” (1981), é mais honesto do que os agentes que o perseguem e os mafiosos que o tentam armadilhar; e Hawkeye (Daniel Day-Lewis, o melhor actor vivo?), branco adoptado por índios em “O Último dos Moicanos (1992), demonstra um espírito mais nobre do que os aristocratas que comandam os dois exércitos de colonizadores em choque na Pensilvânia de 1757. Para todos eles, a fuga e a paz são apenas miragens, ilusões. Em “Thief”, Caan guarda as fotografias das praias tropicais onde sabe que nunca chegará. Em “Heat”, DeNiro pensa reformar-se nas ilhas Fiji, mas morre antes de apanhar o derradeiro avião. No final de  “O Último dos Moicanos”, Hawkeye e o pai adoptivo Chingachgook observam a paisagem imensa de um mundo que já morreu, o mundo da pureza original, antes da “civilização” que tudo asfixia.

“O Último dos Moicanos” é, para este vosso serviçal, o melhor filme de aventuras dos anos 90, como “Gunga Din” é o melhor filme de aventuras dos anos 30 e “O Homem Que Queria Ser Rei” dos anos 70. Trata da América do Norte anterior à fundação dos E.U.A, o século XVIII da guerra entre dois impérios, o inglês e o francês, pelo domínio do terrítório, deixando entrever o destino dos desgraçados autóctones que, um século depois, quase terão desaparecido da face da Terra. Hawkeye está na encruzilhada destes universos, e a sua paixão por Cora Munro (Madeleine Stowe), a filha do coronel britânico, não ajudará ao inevitável.

I Will Find You

O cinema de “O Último dos Moicanos” é um cinema elegante mas, em simultâneo, visceral. As árvores são tão importantes como a folhagem do penúltimo grande Godard, “Nouvelle Vague” (o último é “Éloge de L’Amour”, de 2001). Sente-se a força do vento, o desespero de uma corrida, o cheiro cavernoso da floresta, o peso das cinzas, a humidade da vegetação, a frescura sexual das águas, o calor quase insuportável das chamas. Na última sequência antes do epílogo, Magua (Wes Studi), um índio que devora o coração das vítimas, fica com Alice Munro (Jodhi May), a irmã de Cora, como derradeiro saldo de uma jogada política que lhe correu mal. Uncas, o filho genuíno de Chingachgook, o último dos moicanos, não aceita esse destino, e segue o séquito de Magua por uma encosta escarpada. Chingachcook, temendo pelo filho, vai atrás, e Hawkeye, que todos protege, corre no seu encalce. São quinze minutos de ajuste de contas, onde a tragédia brota da rocha como uma cascata, ritualização de violência mais precária que a própria vida, ao som da música de Randy Edelman , baseada em temas tradicionais. É emoção pura, na mais urgente de todas as danças. A dança da sobrevivência.

 

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a The Basement Cinematheque: a Menina Dança?

  1. curioso (servidor) diz:

    não consigo entender ‘este vosso serviçal’ pois acho que é a si que nós servimos?

    custa a entender como pode haver ‘violência mais precária que a própria vida’?

    é a vida…

  2. Pedro, tão apetecível, coreográfico texto. Grandes aventuras: de me fazer ir ver os filmes outra vez.

  3. Pedro, já tomei nota de tudo. E lá tenho de ver O Último dos Moicanos, a que não liguei pevas quando andou pelas salas de cinema.

  4. Rita V diz:

    ah! eu vi e tenho a banda sonora.
    este texto ‘schlurpp’ de um trago

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Outro, e vão dois, para trabalho de casa. Meninos, tenham dó de tanta ignorância cinéfila da Maria que ainda não está no céu.

    • Curioso (amigo logo) diz:

      Se não tiver nada mais grati fi cante para con ceber, até pode criar um inferno de de pendência 🙁

Os comentários estão fechados.