Três dinheiros

Visitemos por momentos alguns cenários exóticos, com rios de crocodilos e mares de tubarões, territórios sem dó nem piedade à boa maneira de um Joseph Conrad no seu Coração das Trevas.
Estes perigosos animais que aqui vivem parecem-se imenso com pessoas: comem, dormem, uns têm cabelo, outros serão carecas,  guiam automóvel, falam ao telefone, riem-se, e, pasme-se, até choram e amam (ouvi dizer algures).
A grande diferença está na sua alimentação, que se resume a quantidades ciclópicas de dinheiro.
Mas o que é afinal o dinheiro, o moderno dinheiro?…
Bem, será melhor começar por dizer que existem três tipos diferentes de dinheiro: o dinheiro factual, que é aquele que recebemos ou pagamos em troca de um bem ou serviço; depois existe o dinheiro virtual – fundamentalmente um imenso oceano de dívidas mundiais (todos os países têm dívida, e daí não vem mal ao mundo, pelo menos até certo ponto), que circula como matéria transaccionável nos bancos e entidades financeiras, e que, como tal, se encontra contabilizado nos balanços de quem as detém como activo (não existe realmente, não tem contrapeso fiduciário em moeda física, mas é um valor activo); finalmente, surge um dinheiro que também existe de facto mas que é tratado oficialmente como se não existisse – o chamado dinheiro sujo, proveniente de todos os tráficos e crimes mais ou menos abjectos deste nosso planeta.
Isto é o dinheiro moderno.
Eis agora o que os crocodilos e demais feras exóticas fazem com estas três espécies de dinheiro.
Com a crescente liberdade que foi entregue aos auto-denominados mercados (muito por culpa do lavagante-tigre Ronald Reagan e da sua amiga-da-onça Margaret Tatcher, nos idos de Setenta), foram criadas miríades de satélites financeiros que se regem por normas quase nulas: as sociedades off-shore, onde toda e qualquer operação é possível sem ser taxada ou sequer supervisionada.
Uma das operações mais interessantes destas sociedades off-shore resume-se a uma coisa bem simples: através da venda de participações financeiras em sociedades de investimento que trabalham fundamentalmente com títulos de dívida pública ou privada, captam muito do dinheiro desclassificado que lhes é entregue pelos mais perigosos animais deste mundo –   as hienas dos cartéis de droga, do tráfico de armas e de tudo o que é crime organizado.
Assim, estas sociedades – que em muitos casos pertencem a bancos e entidades financeiras de renome mundial (ou nem por isso, como era o caso do «nosso» bacoríssimo BPN…) – dedicam-se fundamentalmente a transportar fortunas feitas no submundo do crime para a superfície oficial das dívidas soberanas e dos títulos de participação no capital de empresas em todo o mundo.
Nada mais limpo – digamos.
Quero com isto dizer que a banca mundial está infectada, que os banqueiros e demais operadores financeiros sabem disto muito bem e nada fazem para o impedir, tornando-se por discreta omissão em inevitáveis parceiros do crime organizado?
Sim, é isso mesmo que eu quero dizer, e ainda acrescento que também muitos políticos estão neste rol de apanhados, embora na posição mais habitual de eunucos executantes regiamente pagos.
Uma das mais perigosas desculpas do pensamento liberal (leia-se da selvajaria neo-liberal, não do Liberalismo) baseia-se numa imagem clara que certamente já nos ocorreu a todos alguma vez na vida, ainda que por certo em circunstâncias muito menos gravosas: «Se eu não o fizer, qualquer outro o irá fazer na minha vez…».
E esta premissa dá direito a tudo.
Porque quando um banco oferece um determinado produto financeiro a um qualquer cliente, este só muito dificilmente conseguirá saber em que é que o seu dinheiro vai ser efectivamente aplicado. O que permite concluir que até o mais pequeno e modesto investidor pode ser cúmplice (ainda que completamente anestesiado) da maior máfia de droga sul-americana ou do mais torcionário dos «bokassasas» dos diamantes de sangue, tudo isto através do banco onde mensalmente deposita o seu ordenado ou pensão!
É terrível, esta verdade sumária.
Ora bem: é com este tipo de sangue podre que a economia mundial está a ser sobre-alimentada há mais de três décadas.
Perguntar-me-ão, talvez, o que tem este descontrolo das autoridades financeiras a ver com os excessos absurdos das dívidas soberanas dos chamados países do Sul, onde a de Portugal se insere.
Arrisco dizer que tem tudo a ver.
E a razão parece-me igualmente simples: a verdade é que o chamado dinheiro sujo paga no seu processo de oficialização uma elevada franquia à banca mundial em regime off-shore; tal liquidez extra tem, por sua vez, de entrar no circuito legal para a sua oficialização ficar consumada – e aí atingimos os anos de ouro em que todo este processo de transfega encharcou os mercados financeiros mundiais com dinheiro a juros tão baixos que seria quase um crime desperdiçar semelhante oportunidade.
Então, apoiados nos financiamentos da banca ao preço da uva mijona e na conhecida solidariedade comparticipativa da União Europeia e dos seus vários organismos, as cigarras do dos tais Países do Sul – fartas da sua vidinha de sempre – desataram a gastar, a pôr as formigas a construir auto-estradas e pontes, e estádios, e empreendimentos, e mais auto-estradas , e novos aumentos de ordenados para as cigarras (temos em Portugal o mais caro banco central do mundo em termos de ordenados de topo)…
As cigarras do Sul desataram a gastar o que realmente não era delas, sublinhe-se – mas sim dos seus estados soberanos e respectivos povos. E só por isso as cigarras merecem ser punidas.
Por fim, certo dia, o próprio sistema financeiro descobriu que estava viciado e não controlava nada nem ninguém. Lançou alertas e desconfianças, como o nosso pobre emir de Boliqueime no tempo dos gatos e das lebres. E o processo de ascensão abrandou, parou, e começou a recuar – exibindo então os grandes castelos de areia e as caves cheias de pipas de ar e nada.
E a pirâmide, claro, ruiu.
A moral desta falsa fábula fica ao critério de cada um.
Sei apenas que existem todas as possibilidades de haver uma qualquer moral – por muito má que ela seja.
E certo é que nesta altura do campeonato não há um único ser humano que possa dizer o que vai acontecer a qualquer uma das milhentas variáveis de que é composta esta crise doentia e medonha.
Por fim, conte-se também com os que muito têm ainda, e que tudo farão para continuar a ter: nestas quantidades o dinheiro é uma droga exponencialmente viciante, e as feras são, como todos bem sabemos, bichos de muito sustento.

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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17 respostas a Três dinheiros

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    António, este é bem o teu Heart of Darkness.

  2. Panurgo diz:

    Há aquele tipo que canta, “toda a gente sabe que os homens…”; lembrou-me: toda a gente sabe que a CIA (Cocaine Import Agency) é o maior traficante de droga no planeta e que mais não tem feito do que inundar a Europa de droga (a mais recente vítima é a Rússia – e nas fronteiras da Rússia aquilo já nem Ásia é – transformaram aquilo na Nova África); ia escrever também de armas, mas creio que as IDF os superam. Toda a gente sabe que o BPN servia para lavar pó branco – até tinham lavandaria em Cabo Verde. A Finança cobra a sua parte – mais a maior fatia vai para a indústria militar. É verdade que a Alemanha mandou o Sul gastar à fartazana, mas quem é que manda na Alemanha? Os homens não podem comprar uma espingarda sem logo vir nos jornais: “Nazismo!”

    O nosso caso é menos grave, porque tudo não passa de uma anedota; a nossa população urbana é completamente imbecil e amaricada; vejam-se estas manifestações dos jovens modernos e indignados – nem um par de mamas em condições arranjam, aquelas alminhas. E estamos mesmo a ver aquela rapaziada que nunca meteu os pés num ginásio e que passa a vida na ganza e na bezana a andar à porrada com a polícia, não estamos? No lado ainda mais efeminado, o ridículo chegou ao ponto de se organizarem aqui conferências de CEOs – é de chorar a rir. Uma pessoa olha para os oradores: o Ministro Badocha do Canadá que em dez anos de esforço académico produziu tanto como um aluno de Doutoramento ao fim do seu segundo ano; os outros nem para uma mercearia de bairro prestavam. Como é que um Alexandre Relvas, um João Bento, ou uma Isabel Vaz (um exemplo de como também há mulheres feias burras) «lideram» (?) merda alguma? Lá está: toda a gente sabe. De vez em quando ainda têm o descaramento de puxar pelo percurso académico – cujo nível de dificuldade nunca ultrapassou o da escola primária – todo ele comprado, mas como foi comprado nos Estados Unidos ninguém diz nada. E depois os jovens protestam, claro – também têm direito à mama, caramba.

    Eu acho piada a isto, sinceramente, à vida portuguesa. Que comédia.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Lucidez sem precisar de água-benta.

  4. recomendo que este post seja incluído no plano nacional de leitura

    «O Plano Nacional de Leitura tem como objectivo central elevar os níveis de literacia dos portugueses e colocar o país a par dos nossos parceiros europeus.»

  5. Carauças, Rita, eu sou praticamente inimputável!…
    (obrigado, o seu comentário animou-me)

  6. nanovp diz:

    Será possivel parar tudo e recomeçar de novo? Não é, mas apetecia, para poupar algumas tristezas e misérias…o problema maior é que já se tentou antes…

  7. Minhona diz:

    Se soubesse que a realidade era tão esmagadora, teria calçado o airbag. Saber, sabia, mas andava a varrê-la para debaixo do tapete, não fosse tropeçar nela e ser obrigada a ver. Agora, de uma penada, aliás, de uma cacetada, o António esclareceu tudo, explicou cirurgicamente e sem anestesia. Este autor não pode continuar assim resguardado do público. Não deve. Não é só o Plano Nacional de Leitura que precisa dele. Precisamos todos de um AEQ que sabe como ninguém dizer O Rei Vai Nu e nós gostamos. Então? Deputado ou Embaixador? Ministrices é que não, é bom demais para isso.. (Obrigada pelo fundo cor-de-rosa, sempre atenuou)..

  8. Boa António. Vai mandando mais algumas cá para fora. Para já, não deve servir para muito, mas vai ajudando a despertar consciencias. Malha, até que a mão te doa.

  9. Carlos de Sousa Giraldez diz:

    António, obrigado por sucintamente ter chamado os bois pelos nomes com a “evolução” toda datada.

  10. Zé-António Pimenta de França diz:

    Tal e qual, Kiki, sem tirar nem pôr…

  11. Fernando Vale diz:

    Caro António, que prazer ler um texto que alia a qualidade da informação à virulência da forma. Estas suas palavras são o retrato bem escrito de um anunciado fim de ciclo, suas causas e alguns responsáveis, esses tais seres que parecem ter desaparecido da face da Terra.
    Se Ulisses chegou a Olisipo passando Cila e Caribdis, temos também nós de saber vencer os novos monstros predadores, embora o canal de navegação seja muito estreito e possa obrigar a algum trabalho utilizando material pirotécnico.
    Receio é que o destino seja a Terra do Nunca, mas onde restará apenas o Capitão Gancho, porque a Sininho e os Meninos foram comidos pelo jacaré e o ladino Peter Pan deu de frosques, atraído pelo canto das sereias, que no meio desta história absurda ainda são o que nos vai alimentando a alma.

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