Uma mulher corajosa

Neste blog, onde os leitores do Escrever matam saudades da Eugénia, escolhe-se aos domingos o post, texto, crónica da bloga de que a Cabeça de Cão mais gostou durante a semana.
Esta semana, foram aqui escolhidos dois. Um deles é um texto meu, este, e eu que sempre lhe agradeceria, ainda mais lhe agradeço por tê-lo a Eugénia juntado a outro, este, que a Inez Dentinho escreveu no Geração de 60.
O texto da Inez fala de Margarida Marante. Li-o e lembrei-me que conheci a Margarida há 20 anos e mantive com ela uma relação cordial, a que a descontracção que sempre aumenta quando se anda em viagem, acrescentou memórias alegres e saborosas. Lembro-me de Cannes e Roma, pelo menos. Depois, em 2001, quando ela saiu da SIC e eu assumi a direcção de programas, a nossa relação ficou tensa e turva.
Confesso que sei resolver mal, ou não sei mesmo, situações destas. Foi por isso com grande surpresa que um dia, cinco anos depois, a Margarida me apareceu ao telefone e, um passo fora do telefone logo a seguir, veio à minha editora e, graças a Deus, em meia hora de conversa pegou fogo com frontalidade aos ressentimentos do passado, limpando um caminho de franca simpatia por onde seguimos nestes últimos anos. Começámos, nessa altura, uma colaboração conjunta, que durou quase um ano, num projecto de televisão que ficou atractivo e inovador no papel, mas que a conjuntura não permitiu que se desenvolvesse. Não tenho pena, bastou-me ter tido a oportunidade de colaborar com uma mulher corajosa, a bater-se pela sua dignidade profissional ao mesmo tempo que lutava duro com os seus demónios.
Devo à Margarida Marante essa lição, a de ser preciso arranjar-se coragem seja lá onde for para ser capaz de dar o primeiro passo que mate o ressentimento. Vi como se faz, mas não sei se algum dia terei metade da coragem dela. Fi-la rir com gosto algumas vezes. Gostava que ela se estivesse a rir agora.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Uma mulher corajosa

  1. Carlos Paulo diz:

    A festinha 20 anos Sic, que se prolongou por 4 horas em directo, foi uma autêntica chacina de figuras que construiram os anos de maior esforço e afirmação do canal, suplantando qualquer retoque fotográfico de memória estalinista. Margarida Marante foi uma das, injustamente, ignoradas.

  2. Caro Carlos Paulo, não gostava de misturar uma coisa com a outra, mas ainda assim, devo dizer tenho boas razões, e digo mesmo certeza, de que as pessoas que dirigem a SIC não têm vontade ou necessidade de rasurar a história. Está a confundir-se uma festa em antena com uma peça de história. E no caso específico da Margarida, ontem a SIC deu-lhe bastnate relevo nas peças que vi.

  3. Rita V diz:

    Belo texto, belo texto MF.

  4. Carla L. diz:

    É muita coragem e total abnegação do orgulho que ainda reste bem lá no intimo do ser .Ultrapassadas estas barreiras o resultado pode ser verdadeiramente libertador.Gosto muito da forma como as relações humanas podem nos surpreender.

  5. Maria João Freitas diz:

    Manuel,
    Belo texto triste. Um daqueles em que as palavras acertam em cheio na alma, por lhe conhecerem o esconderijo.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Acabamos todos por ter as mesmas forças, as mesmas fraquezas. Conhecemos o mundo por nos conhecermos a nós, por mais imperfeitamente que afinal nos conheçamos.

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Dizeres justos ou injustos de alguém merecem cuidado. Muito, porque a fragilidade é inerente a cada um. Triste texto que me encheu a alma.
    Durante escassos anos, conheci a Margarida na faceta mãe. E gostei dela, da atenção e desvelos.

  7. curioso (troca dilho) diz:

    tristeza? não a chamaria 😉 não acha? mas ria 😉

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