A cena de pancadaria

 

Temos Lisboa. Temos um rapaz, temos Molero, temos Austin e Mister DeLuxe. O livro que conta o eles dizem que Molero diz acerca da vida do rapaz entrou-me pela vida adentro durante a adolescência e foi por lá ficando, pela vida e pela adolescência. ‘O que diz Molero’ faz o favor de ma recuperar inteira de vez em quando.

Seria sempre uma narrativa em destaque na memória mesmo que nunca tivesse conhecido o autor. Antes de saber que a tinham considerado um dos livros-chave do nosso tempo (?) e outros chavões do género. Para mim tornou-se um pouco mais que livro também por ter convivido de perto com Dinis Machado (cuja biografia qualquer wikicoisa resumirá melhor que eu). 

Terá sido antes de 1994, antes da adaptação para teatro feita por Nuno Artur Silva e representada por José Pedro Gomes e António Feio. E continuou depois. O que nenhuma googlopédia contará é que o Dinis estava nas festas do meu feliz grupo de amigos, aparecia e divertia-se nos ensaios, fez connosco uma memorável viagem de comboio ao Porto para ver a peça em palco. A ternura, a doçura, o sentido de humor do Dinis fizeram parte de alguns dos melhores dias.

Mas já muito antes eu me tinha posto em cima de uma mesa numa sala da faculdade, ‘Ouçam só isto!,’ e tinha lido de rajada, perante a turma de riso pronto, as poucas páginas da melhor cena de pancadaria de que há lembrança:

“O Ângelo (…) começou a despachar os camones, enfiou um pela loja de móveis do Ventura, outro foi cair numa das cadeiras da barbearia Hollywood, exactamente em cima do Joaquim Navalhinhas, um terceiro mergulhou no tanque de roupa da Miquelina Fortes, outro ainda foi também remetido para a loja do Ventura, encontrou o primeiro de caminho, vinha de regresso, e estatelaram-se os dois numa cama de casal”

Amputada perderá força e sentido. Ainda assim insisto. Há pouco quis voltar a fazer o teste perante outra audiência, de idade tenra e reduzidas leituras. E fiz rebolar no chão os habitualmente enfadados sobrinhos :

“O Bexigas Doidas, que quase tinha sido atado pelo Ângelo a um camone (…) entrou com ele sem pedir licença pelo Ás de Espadas, Lda., levaram ambos consigo o Rufino, o Aranhiço, o Roque Sacristão e o Vovô Resmungas, que estavam a jogar à sueca, saíram todos um pouco à balda pela porta do fundo, acrescentados do Douglas Fazbancos e do Chico Dominó, que estavam ali a discutir o Sporting-Benfica do domingo anterior, o Pé de Cabra foi de cabeça contra a parede e até fez eco (…)”

E como não há duas sem três, e como “o Ângelo com os pés, com as mãos, com a cabeça, vai disto, os camones enfiavam por tudo quanto era porta, positivamente distribuídos ao domicilio”, não resisto a fazer-me carteira de mais um bocado.

Sem antes fazer notar um jogo que esta prosa permite (afinal a vida actual anda desfalcada de cavalgadas marialvas, já estava capaz de merecer uma cena de estalada épica… e enquanto a narrativa ou performance chega e não chega):

e se trocássemos os nomes às personagens e as baptizássemos com a graça de algumas figuras públicas e políticas da nossa praça, quem tomaria os lugares?

Ora fill in/ change the names:   

“O Ângelo tinha-os juntado a todos num molhinho, enfeitou-os com o Metro e Meio, e vai disto, tudo pelo ar, rumo ao Marocas Papa-Milhas, que tinha uma motocicleta cheia de cromados e a mania das curvas rápidas, (…) foi contemplado com a colecção de camones coroada com o Metro e Meio, despistou-se, (…) virou de pantanas o mostruário do Raul Pechisbeque, (…) embateu na caixa de criação da Mafalda Capoeira e terminou a prova contra o balcão da carvoaria do Galego, lançando o pânico nos elementos do Grupo Excursionista Moscatel, que estavam a beber o seu meio litro da praxe (…) ”

In O que diz Molero (1977), de Dinis Machado (1930-2008)

Está escrito. Cheers!

 (os sublinhados são meus)

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
Esta entrada foi publicada em Está Escrito. ligação permanente.

3 respostas a A cena de pancadaria

  1. Há um dito trivial que nos avisa contra escritores e outros criadores. É melhor conhecer-lhes a obra do que conhecê-los a eles. O Dinis, como a Teresa aqui diz, desmente esse preconceito. O Dinis era um, só mais um, do nosso grupo de Tróia. O Pedro Bandeira Freire, provando que às vezes pai e mãe nascem depois dos filhos, era pai e mãe dele, cuidando-lhe de tudo. E o Dinis aninhava-se nele. Também era muito bonito ver como o Dinis olhava, com uma ternura feminina, para a surdez inocente e angélica do Manuel Cintra Ferreira. A mim, chamava-me “ó Fonseca” e nunca Fonseca me soou tão a sinos e a primos de aldeia como assim dito, bem dito, por ele. Já morreram todos e os que por aqui andamos, andamos por aí, sem nos voltarmos a encontrar, vivos sim, mas de Tróia já só sombras.
    Obrigado Teresa pela lembrança e pela alegre leitura infantil.

  2. nanovp diz:

    Já me tinha esquecido dos nomes: o “bexigas” o “rufino” o “aranhiço” …grande desafio mudar as personagens…a tarefa não é fácil…

  3. Rita V diz:

    Belo post!
    😀

Os comentários estão fechados.