A tortura da miséria e do barulho

Eu fugi daí. Fui-me enfiar na selva a ouvir pássaros e macacos e de repente ouvi-me pensar. Nada de extraordinário. Nem no facto de pensar nem tão pouco o que penso que é quase só banalidade e baboseira. Extraordinário foi ouvir-me a pensar, coisa que só a muito custo conseguia fazer enfiado nessa espécie de quarto de paredes de tabique onde a televisão tem o volume no máximo e os bebés choram insones por culpa da gritaria na rua das obras de Sta. Engrácia que é Portugal.

Há muito barulho aí e só nos damos conta dele quando ouvimos de novo o silêncio.

Do silêncio da selva fui parar numa casa à beira mar onde se ouve o vento que é quente e por isso não dá neura. Na casa, com redes estendidas entre coqueiros, há um barquinho à vela a descansar na relva com a proa empinada a olhar o mar. Parece um cão há espera da ordem para se atirar. Enquanto bebo a água de coco penso nos passos todos que tenho que dar para por o barco na água: mastro, adriças, retranca, boom-jack, içar a vela… mas o vento quente trás uma preguiça grande e aí cometo um erro fatal. Pergunto se “Tem internet aqui em casa?” e não é que tem.

Vou ao E é T e dou de caras com os “Brandos costumes” do Norton” e o “Nunca houve futuro” do S. Fonseca. Dou uma vista de olhos no Twitter e é uma cacofonia. Vou ao Dinheiro Vivo e leio, com atraso, que a Lusa vai definhar e que o governo quer repensar, com os credores e com o PS (que turma) as funções do estado. E o vento quente da Bahia passou a soprar como a nortada de Leça.

Portugal é uma tortura. É a tortura da miséria e do barulho. A miséria trará fome, doença, crime e sujidade, o barulho levar-nos-á à loucura. A pergunta que faria sentido no Portugal actual seria: “Com toda a gente a gritar ao mesmo tempo, é possível alguém ouvir-se a si próprio?” em vez da clássica “A árvore que cai na floresta quando não está lá ninguém para ouvir, faz ou não barulho?” O barulho impede de pensar. E se era preciso pensar. Mas com tanto  que se escreve, se diz e se fala – meu Deus quanto se fala – e ao mesmo tempo…

À miséria crescente servida por políticos – que, como toda a gente sabe, nada podem fazer de diferente uma vez que não há outro caminho senão o de pagar os juros devidos a quem devemos – acresce a tortura do barulho e da gritaria servida por jornalistas, comentadores, opinadores e bloggers que também nada podem fazer que não seja gritar e espalhar a confusão. Dois carrascos deitados na mesma cama. Um fode o que pode o outro grita como pode. O resultado desta tortura servida pelo governo e a sua Némesis, a imprensa, sempre pronta a castigar a húbris, a felicidade e o bem estar de quem o tem, é um país todo a dar em doido com tanto contraditório.

Quem fez a quarta classe antiga, ou tem um pouquinho de lógica, da matemática ou da outra, sabe que uma coisa mais o contrário dessa coisa dá zero que é o que se tira de qualquer jornal ou telejornal. E zero não vale nada porque nada se pode fazer com ele. Talvez fosse melhor o silêncio.

E se os media fizessem greve? O definhar da Lusa seria uma desculpa perfeita. Toda a gente sabe que políticos sem palco definham e morrem. E que não há medidas sem o anúncio delas – se uma medida é anunciada e não está lá ninguém para a ouvir, a medida existe ou não? Silêncio absoluto de todas as TV’s e rádios. Nem um carácter impresso nos jornais e nos sites. Só branco por tempo indeterminado. Só silêncio. Para nos ouvirmos pensar. Dir-me-á o amigo jornalista que “Eles” aproveitariam o silêncio para, pela surra, fazer todo o género de malfeitorias sem haver quem as denunciasse. E o que foi que fizeram estes anos todos convosco sempre ao gritos? perguntaria eu.

Volto à selva e ao silêncio. E calo-me. Afinal este texto só acrescenta decibéis.

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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12 respostas a A tortura da miséria e do barulho

  1. Bidarra, Bidarra, o meu reino por um minuto desse silêncio…

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Clap, clap, clap.

  3. Panurgo diz:

    Compartilho de tudo, mas há dúvidas e anseios que não consigo calar. Quem é que vai ganhar o Miss BumBum 2012? Visto daí, há outra clareza, por cima da confusão.

    • Pedro Bidarra diz:

      Se queremos os silêncio dos media teremos que abdicar também das coisas boas que nos trazem. Mas também acredito que se for mesmo, mesmo importante (Miss Bumbum) a coisa acaba por vir parar ao nosso colo (por assim dizer).

  4. Rita V diz:

    Clap, clap, clap

    (Oops, desculpa perturbar o teu silêncio, devia talvez ter dito simplesmente: Muito Bom!)
    😀

  5. Ana Rita Seabra diz:

    Pedro, aproveita esse ar quente e bebe água de coco por mim.
    Não há alternativa, mas para curtir o meu silêncio já não leio jornais, não vejo televisão e tudo fica mais leve.
    O mundo foi sempre injusto e sempre será, para isso pagam os justos pelos pecadores
    Já fiz muito barulho…vou tentar voltar para a minha selva

  6. nanovp diz:

    Já experimentaste de certeza o fabuloso botão do “mute”, que deixa os fantoches a gesticular sem proferirem essas tão amaldiçoadas berrarias histéricas.
    Para quem não tem selva para fugir…

    • Pedro Bidarra diz:

      Eu é mais o zap. Nunca gostei de fantoches nem de robertos, nem mesmo de palhaços. São creepy

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