Angústias de Kota

Lembram-se de Winston Smith? Lembram-se do pobre funcionário público que leva uma vida austera, regada a Gin Vitória, apertado num T1 sobre os escombros de uma Londres arruinada? Lembram-se do zeloso empregado do Ministério da Verdade (Minivero em novilíngua) que fazia do revisionismo histórico o seu ganha pão, a sua arte e a sua forma de vida? Lembram-se do cidadão oprimido, esmagado, politicamente diminuído e permanentemente humilhado pela vigilância permanente do telecrã? Pois, por mais extraordinário que pareça, neste verdadeiro século de todas as luzes, dir-se-ia que tropeço em Winston Smiths por todo o lado. São de todas as idades, géneros e categorias sociais. São adolescentes imberbes, “famosos” (essa novel categoria socioprofissional que é simultaneamente adjectivo e substantivo), governantes sisudos, estudantes revoltados, balzaquianas voluptuosas, profissionais do engate, entusiastas da bisbilhotice, agitadores sem causa  e mais um sem número de aves raras (entre as quais, e para que conste, “moi même”). Mas ao contrario do orwelliano Smith, a generalidade destes novos cidadãos da Oceânia não procuram um lugar esconso dos seus T1, um reduto minúsculo fora do ângulo de visão do telecrã, para escrever afanosamente os seus diários. Paradoxalmente é no próprio telecrã que registam angústias, terrores, piadolas tontas, explosões de fúria, pensamentos zen, desencontros e reencontros de amor. É no telecrã que expõem, com uma candura que faria corar os dedicados espiões do Minivero, cada detalhe da sua vida, cada passo da sua existência, cada insignificância da sua biografia. É no telecrã que despejam fotografias de casamentos e de baptizados, de filhos, de namorados e de amigos, com ou contra a vontade de uns e de outros. E isto para  não falar desse clássico do género que é o clip porno realizado com ou sem a anuência da ex-namorada ou do noivo entretanto desavindo.

Dir-me-ão que é um problema de cada um. Ou, num registo mais prosaico, que cada qual faz a cama em que se deita. E não sou eu que vou desmenti-lo. O fenómeno, mais ou menos ridículo, mais ou menos grotesco, é do domínio da liberdade individual e não me passa pela cabeça sugerir limitações nesta matéria.

Mas dito isto, nada me obriga a embarcar na dominante glorificação acrítica das redes sociais. Nada me impede de tentar pensar mais longe e de reflectir sobre as dimensões e consequências sociológicas mais amplas do dito fenómeno. Tanto mais que aquilo de que estamos a falar é afinal, só e mais nada, de uma mudança muito profunda, porventura radical, do conceito de privacidade na nossa sociedade. Vou mesmo mais longe: aquilo a que estamos a assistir é, de certa forma, à abolição do próprio conceito do privado no mundo em rede em que vivemos. E isso, do meu ponto de vista, justifica um conjunto de perplexidades muito sérias. A começar, na linha do que faz Mário Vargas Llosa no seu magnifico “A Civilização do Espectáculo”, pela questão de avaliar os efeitos sobre a cultura e a civilização ocidentais, da sagração do frívolo e da bisbilhotice. E a acabar na questão, porventura politicamente mais dramática, de saber se pode existir verdadeira liberdade sem o culto social de uma efectiva privacidade.

Desconfio que os meus filhos me dirão que tudo isto são angústias de “cota”. Se o fizerem, talvez lhe sugira que procurem na wikipédia o significado de “kota” em quimbundo. Nem tudo, concedo, são defeitos.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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8 respostas a Angústias de Kota

  1. Komé meu kota, welcome to the circus! Outro problema é que o circo é mauzote, mas lembro-me que também noutros tempos, e na fechada comunidade do bairro, se sabia tudo, se contava tudo. Sobre nós, sobre as miúdas, o diabo a quatro. Era outra a dimensaão. E a narrativa, acalorada pela proximidade física, era mais empolgante, por vezes não menos aldrabada, talvez mais cândida…

  2. rita vaz pinto diz:

    Querido Pedro

    Ser Kota tem esse previlégio. Leva-nos a pensar mais longe.
    Os filhos…vão percebendo que estamos certos!

  3. A ucronia deveria ser uma boa prática dos Estados mais civilizados, (já é, mas poderia melhorar), o povo merece que lhe acertem a História.

    Dava-lhes felicidade para dançar:

  4. Panurgo diz:

    Está bem, sim senhor. Mas quem é que lhes enche a cabeça de entulho? Quem é que os comanda a partilhar e a gostar, quem é que os convida a visitar a página do programa, do produto, da empresa…? E ucronias é de manhã à noite, na televisão, só que em vez de reescrita a História é berrada, por papagaios totalmente profissionais, totalmente analfabetos… quem os tira da gaiola? Grande Orwell, grande Orwell…

    Quanto a mim, o facebook foi-me desgostoso; disseram-me que aquilo era uma coisa de engate, e eu, amador na arte, fui lá cheirar a coisa; só comi água. Uma tristeza. Nunca mais.

  5. nanovp diz:

    Tenho em ideia de que a dissolução da linha entre público e privado, que muitas vezes se apresenta como a violenta invasão (consentida ou não) da privacidade de cada um, pode significar o desaparecimento das relações entre seres humanos…coisa pequena…

  6. Pedro Bidarra diz:

    Deves ter mais que ler mas mesmo assim aconselho o livro que aqui referi há atrasado. Super Sad True Love Story. É sobre este mundo daqui a uns anos. É para rir com a tristeza.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Os ‘kotas’ têm cotas orçamentais menores a cada abanar da cauda «troikiana». Quanto às redes socais que os deuses as protejam – de outro modo como viveriam a solidão múltiplas gentes? E depois, estabelecer limites entre o público e o privado a cada um pertence.

  8. Henrique Monteiro diz:

    As democratizações têm destas coisas… E não se pode viver numa aldeia global sem os defeitos da aldeia, o pior dos quais é toda a gente meter o nariz onde não é chamado… De resto, sempre se soube tudo, mas a hipocrisia, o tributo que o vício paga à virtude, impedia os cultos e bem nascidos de o comentar em público. Com o alargamento do espaço público aos bárbaros, acabou esse código de honra de reserva, em que as coisas se diziam não se dizendo. O mundo não piora à medida que vamos para kotas. Apenas o compreendemos melhor.

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