Arte poética. Que vício.

 

Os poemas

fazem-se às vezes

dos sons e das sobras

do que os dias desdenham

e deixam para trás.

 

É nessa fermentação imprecisa

que sobem à tona

algumas palavras, ou sílabas ainda,

sons sem-abrigo, interpostas figuras

de esquivos sentidos.

 

Os poemas

fazem-se às vezes

do olhar faminto das raízes

que crescem da página

à procura de mãos

ou de uma morada certa.

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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10 respostas a Arte poética. Que vício.

  1. sons e sobras, o que gosto de uma boa aliteração

  2. GRocha diz:

    Lindo!
    Os poemas aquecem-nos em dias tão tristes!!!

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    os poemas, acham-se, cheios de sons, timbres, aliterações, a partir desses sobejos dos dias, e com os quais nos brinda: são achados (parece) também por composição, conhecimento que avizinham intuir

    certamente, com seus sons – aparentemente desabrigados, breves – brotam de um abrigo, de uma fonte, nem de todo insuspeitados

    e por mais, mais, dessa “fermentação imprecisa”, que nos fixa, olho no olho. (olho no ouvido). com tamanha precisão.

    (aqui não há vício. nem consolo. mas serenidade – e, mesmo no título, a sobriedade de despistar exclamação)

  4. Ivone Costa diz:

    Esperemos, Ruy, que os poemas se continuem a achar. Se se enrolam em silêncio é que nunca mais os ouvimos.

  5. Ana Vidal diz:

    “(…) A poesia é feita de romãs, de tudo o que é eterno e de tudo o que apodrece” (Neide Archanjo)

    O teu poema encheu-me a alma. De sobras, quem sabe, mas eu nada tenho contra sobras. São afinal o que há de melhor, se os poemas as fermentam e as aproveitam assim.

  6. Pedro Bidarra diz:

    Palavras e sílabas serem sons sem abrigo também é muito bom. Obrigado

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