Aspettare

 As estrelas em torno da lua, escondem-se de novo diante da luminosa, enquanto ela, plena, luz sobre a terra. No céu de sua mente, as ideias e as coisas eram também ofuscadas por uma lua assim.

*

Sete e vinte.

Os skatistas não cessavam de saltar do alto dos degraus. Em diferentes níveis. Tão rentes aos passantes que quando um deles levou um tombo mais escabroso, isso satisfez a ele. De alguma forma. E foi um dos poucos instantes em que vazou-se para fora da redoma.

Havia casais ocupando o banco em meia-lua em torno da estátua, erroneamente voltada para o mar, quando deveria ter sido posta para o lado da avenida, assim que se pudesse admirá-la em primeiro plano, de alguma perspectiva, e com o oceano ao fundo.

Ainda que não houvesse muito o que admirar, pensou ele. E inquieto consultou o relógio e o smartphone sucessivamente, ainda uma vez, em meio ao chafurdo incessante dos skatistas. Unhas eram roídas mentalmente, será que mortalhas teciam-se em reverso a partir da mesma abstração?

Um grupo de turistas, sentados nos degraus consultava seus guias como crentes consultam a parábola no Novo Testamento, em brochuras baratas. Um outro grupo de motoristas de furgão, escorados nos parapeitos à altura dos degraus onde se aboletavam os turistas, volta e meia oferecia – a quem achavam com o biotipo e indumentária mais ou menos de turista – parábolas de roteiros para as praias do Leste, distribuindo os folhetos como se distribui santinhos em Fátima, Lourdes, Aparecida, Canindé ou Juazeiro do Norte.

No calçadão, as pessoas passavam. Em geral, pisando os ladrilhos com os seus tênis, sapatilhas e sandálias. Mas também sobre patins, bicicletas, triciclos, skates, patinetes. Andar por ali tornara-se também um exercício de desviar-se. Uma espécie de desviobol. Um novo esporte, em que a velocidade do desvio empatava com a necessidade de olhar nos olhos de quem se desviava, de acordo com a carência de cada um. Ou com a beleza do observado. E, então, olhares topavam-se.

Para logo em seguida destoparem-se. Bruscos. Ou não. E muito não. Como em quase qualquer estranha química nesta vida. Em alguns, sobravam um anjo, uma iara. Em outros, um cifrão. Em outros tantos, um canivete. Em não poucos: a embalagem, os preservativos. Nos mais decididos uma suíte na penumbra com decoração de duvidoso gosto. Mas, enfim.

Ele, como um pássaro preso, circulava entre os diferentes planos do monumento. Quase sempre de pé, mas às vezes sentado por um pouco nos balaustres e observando em torno ou mais ao longe. Num desolamento em que não se previa melhor gávea ou garantia de panorama. Numa toda espécie particular de greve.

Mais acima, junto ao mar, abrigando-se na semi-penumbra, os casais. Sentados no semi-círculo da insuficiente esplanada, idealizada para se contemplar acima do pedestal de granito, a grande índia vergando, não se sabe bem por que, a ponta de um enorme arco que devia ser de uso exclusivo de seu companheiro por aquelas eras imemoriais. Uma mulher loira, metida num jeans um tanto sumário para sua silhueta um pouco excessiva, contorcia-se lubricamente no colo de um sujeito calvo e contente como o Imperador do Sacro Império:

-Cada qual, com seu cada qual – ele pensou.

No plano do meio, os grupos de skatistas – que permanentemente imaginavam que a índia devia ser da tribo dos Apaches – permanentemente desembestava-se em carreiras e saltos até o passeio, lá, abaixo. E, claro, ocupando permanentemente uma suposta rampa para pessoas com necessidades especiais:

-Talvez os skatistas se julguem mais especiais que essas pessoas, então – ele pensou.

Depois, nos degraus rentes ao calçadão, os grupos de turistas, dos motoristas de furgões de turismo. E para lá do meio fio, as vans e trêileres estacionados, e de onde emanava um olor de gordura, salsicha, carne de hambúrguer, atum, maionese e mostarda.

Oito e quarenta.

Então, os casais, os skatistas, os motoristas de furgões de turismo, os turistas, os que trabalhavam nos trêileres de lanches, os garçons, os comensais dos restaurantes fronteiros, os frequentadores dos clubes de ginástica e os passantes sobre seus tênis, sandálias, patins, bicicletas, triciclos, skates, patinetes, carrinhos de bebê, trôleres para catar lixo reciclável disseram em perfeito uníssono, voltando-se para ele:

-Enfim, está ali um homem só.

E ele tomou o smartphone e discou o número.

Ainda uma vez.

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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19 respostas a Aspettare

  1. Curioso (poor tuga) diz:

    Bem aparecido. Já ali estive mas não a spetei. Foi menos tempo com mais calor e muita color. Smart fone já dá pa diz cá? 😉

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    curioso brô, mantive o “discar” pqe tinha certeza e que iam implicar com ele. só não imaginava que ia ser já no primeiro comentário. então, na mouche! 🙂 e, de outra forma, entretanto, supunha que o comentário viria de uma dama. 🙂 mas não se pode acertar todas, né?

  3. Curioso (para bolizado) diz:

    Então seu Ruy, se mulher não pinta, vai no jogo, do bicho que seja. Elas não gostam de aban dono. Esse do smart fone já poderia ter jogado o relógio numa parábola que desse mais sorte naquele, (des) encontro.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    nunca é frutífero estender-se muito sobre o que está escrito. o que está escrito, está. mas vamos lá:

    esse do smartphone (discado), curioso curioso, é, na verdade, muito mais você do que você suspeita.

    poderia ser ainda todo aquele que foi a um encontro, e desencontrou. por uma ou outra razão. algumas delas prosaicíssimas, cômicas, inconfessáveis: quem nunca passou por essa situação um pouco vexatória, viveu?

    (ou de outro modo: parece que os encontros encontrados não dão lá muita ficção, crônica, prosa, quando se escreve sobre eles. ou de como apolíneos são). especialmente se não há risco ou desencontros assim, como episódios de algo que não se encerra só no contado. e, no entanto, se você reparar melhor o centro de tudo é exatamente TUDO menos o abandonado, talvez pelo modo como o entorno está tão determinado, que é você mesmo quem diz: “já ali estive mas não a spetei”(???). “não a espetou?” witz? ato falho? cadê o teu espeto, cara? ora, amigo se você não “a espetou”, o problema não é exatamente meu, percebe. (há quem garanta que já “a espetou”, ou que ela não é mais, digamos, propriamente virgem, se me entende). desculpem-me as damas do blogue, mas às vezes a paciência falta em alguns casos

    ou seja, o centro da narrativa, irmão, é TUDO menos o que você próprio elegeu ser. ou obcecou-se com: quem espera (e, em seu caso, “não (e)speta”).

    estranho caso.

    ou não?

    • Curioso (retórico) diz:

      Bom dia!
      Depois duma boa noite, bem dormida, com lindas estrelas escondidas por trás duma lua brilhante, ideias mais claras já com sol no céu azul, vejamos o desencontro da sua/minha abordagem: o título é Aspettare, o resto é diverso (prosaico) e o final é enfático “Enfim, está ali um homem só”.

      Quanto à/s esperada/s dama/s do blog: foi o que lhe quis dizer…

      O homem do smart fone, se o fosse tão bem, poderia libertar-se do (maldito) relógio 😉

      Eu já não uso: é um acto falhado, caído em desuso 🙂

      • Ruy Vasconcelos diz:

        ah, mas o monge faz o hábito, bom curioso, curioso curió.
        quer dizer se também for tecelão. ou seja, se for membro de uma dessas ordens mais enérgicas, como os beneditinos ou os jesuítas.
        sem os jesuítas não haveria brasil (mas também não haveria james joyce). e nós nem estaríamos conversando aqui, pois não teria havido sequer império português do modo como houve
        quanto aos a(c)tos falhos, cada um com seus, não é mesmo?
        ou como num fecho de wilder: nobody is perfect.

  5. Curioso (parabólico) diz:

    Ou não.
    As damas troco darão… Ou não? Spetadas ou não? Elas dirão… Ou não. TUDO é NADA. O Ruy não terá para bolado a sua própria receita e escreveu triste mente sobre o curto texto de bitado.
    Voltemos ao nada, nadando, na dando, até ao afo gamento final 😉

  6. ccf diz:

    Pô, esse texto tá mesmo lindo 🙂
    Oxalá a dama atenda do outro lado, mas se não atender….escreva, escreva!
    ~CC~

  7. Ruy Vasconcelos diz:

    bom, eu sabia que as damas viriam em tropel em meu auxílio, brandindo as rédeas, expeditas e belas. com os cabelos ao vento. e era só uma questão de tempo.

    e a nossa cc é a pioneira, a vanguarda. (ahá!) outras hão de vir. obrigado, cc.

  8. Outras damas virão, mas eu, Ruy, trago-lhe mais um virílissimo membro. Li-o e pareceu-me um texto irmão de muito Hopper. Cena urbana de meia-lua e estátua com gente cruzando solidões. Consigo, como com Hopper, há um skatista que foi fixado em pleno ar e que ficará, eterno, nesse vôo imóvel.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      bom manuel, bem-vindo, com abraço rijo, virilíssimo membro. (ou seria o contrário, opa). o problema contigo, manuel, é que, além da tia, podes ser qualquer um neste blogue, e ainda hooper, dom isidro parodi, um dos dez mexicanos não contados por billy the kid. e, não duvidaria, numa máscara mais modesta, até o autor di questo testo.

  9. curioso (like it hot) diz:

    @ Ruy Vasconcelos diz:
    Novembro 10, 2012 ás 15:55

    ou como num fecho de wil­der: nobody is perfect.

    sim, desde o curió até ao Joyce e acrescentando o Tosh, todos temos a ver com tudo, but…

    I’m Nobody 😉

  10. Ruy Vasconcelos diz:

    sure,and by the way nobody knows you when you’re down and out.

  11. curioso (in troikado) diz:

    bad bad : Troika loves nobody 🙁

  12. nanovp diz:

    Gostei de estar à espera…e gostava de poder roer as unhas “mentalmente”…

    • Ruy Vasconcelos diz:

      é, bernardo.parece que um dos riscos que valem a pena nesta vida. hehe. e, pelo visto, há uma possibilidade de empatia que não se deve subestimar.

      alguém que lê ou escreve sem essa disponibilidade, faz só metade do percurso. ou seja, esquece de trazer a gesta de volta.

  13. Ana Rita Seabra diz:

    Gostei do “aspettare” e do “discar”

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