Bravos do pelotão

Frida Kahlo (Frida e Diego)

Os bravos do pelotão. Não é lembrado Platoon do benquisto Oliver Stone. Nem Chris Taylor (Charlie Sheen), jovem e ingénuo americano, ao compreender que no Vietname a luta era com o crescendo do medo, exaustão física e raiva. Antes são trazidos à colação homens e mulheres comuns que avançam de peito feito, sem temeridade insana, conscientes de que fuga ao passo em frente só a mando de cobardia. Recusar o desafio, o risco, negar atitude com receio de ferida ou morte dolorosa, não é com eles. E ao sinal de chamada avançam, gritando em silêncio: _ Seja o que a vida quiser.”

Num tempo em que amar alguém num mundo tão precário como este, significa ansiedades e temores, por medo alguns restringem afetos ao efémero. Como bivalves, higienizam o espaço contendo abertura ao ambiente exterior. Fecham-se ao pressentirem toque que ambicione atingir mais do que a pele. Partilhar o corpo, o riso, a fruição da dádiva que de outros advém, sim, não recusam – abrem-se como pétalas no pico da floração. Mas, quando a roda engrena marcha atrás, eles, de mansinho, como quem nada viu ou sabe, recuam pela cobardice que os amarra à concha protetora. Ou egoísmo. Ou opção, dizem.

No Discurso sobre a Felicidade, afirma Madame du Châtelet “A sabedoria deve ter sempre os trunfos à mão: pois quem diz sábio, diz feliz, pelo menos no meu dicionário; há que ter paixões para ser feliz; mas há que colocá-las ao serviço da nossa felicidade e existem algumas às quais devemos proibir qualquer acesso à nossa alma.

Que me desculpe a Madame, mas sábio quer dizer feliz apenas para eremita. E depois, por via da sapiência alcançar mestrado, doutoramento e demais graus académicos na arte de bem usar as paixões é conversa da treta que qualquer Maria reproduz. A paixão mobiliza, inteiros, corpo e espírito. Usa quem domina. Impensável enformá-la no molde da razão. Até um dia.

Árduo e sábio é não desistir quando o íntimo arrepia e gela. Arrebanhar lenha e caruma que mantenha acesa, por modesta que seja, a faúlha, talvez berço de lume duradouro. Havendo vontade e combustível, a doçura dos afetos ressurge. Ou não. Sapientes os que resistem à simplicidade da fuga. Nem sempre felizes, mas os bravos do pelotão.

 

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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8 respostas a Bravos do pelotão

  1. Ivone Costa diz:

    É opção, é sempre opção o fechar da concha, Maria. Digo eu mas, claro, pouco sei.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Opção menor, não acha? Especialmente quando os outros aí estão à espera de um gesto afetuoso.

  2. Vamos em frente, Maria. Aqui ninguém desiste.

  3. curioso (con fiante) diz:

    às vezes haverá só vontade depois de acabar o com bustível. mas não vejo sapiência na resistência. talvez persistência/resiliência?

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Talvez. O vídeo que me trouxe e adoro, dá-lhe razão.

  5. “é melhor amar e perder do que nunca ter amado”, é o que dizem. Mas amar e perder dói, por vezes dói muito e, a meu ver, é o tentar escudar essa dor que tem transformado tanto(a) bravo(a) do pelotão em doutorado do uso de paixões.

    E escudar a dor porquê? Para quê? Apenas para termos uma vida sem música, onde tudo é ruído branco, pintalgado aqui e acolá por breves notas que, em face da sinfonia que é a paixão e o amor, só se podem definir como sons amorfos.

    Racionalizamos tudo para podermos dizer que não sofremos. Teimamos em lembrar a nossa vida pela ausência de dor entre os infortúnios que ela implacavelmente nos atira -e sempre atirará!- em vez de a lembrarmos pelos momentos de extrema felicidade e paixão que temos… no intervalo da dor e marasmo.

    Fazem falta heroínas e heróis da paixão!

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