Brinde ao Western

“Dos Homens Sem Lei”, de John Hilcoat

“Dos Homens Sem Lei” é um dos melhores filmes da segunda metade de 2012, o que talvez diga mais sobre 2012 do que sobre o filme.

Em plena Grande Depressão, a “lei seca” torna o contrabando de bebidas alcoólicas um negócio próspero. Pelas montanhas do condado de Franklin, na Virgínia de 1931, ninguém domina melhor esse negócio do que os irmãos Bondurant. O cenário muda quando um polícia corrupto, Charles Rakes (Guy Pearce, tresandando a vilania como a graxa que lhe besunta o cabelo) chega para tomar o controlo das actividades locais. Jack (Shia LaBeouf, fora da segurança dos ambientes spielberguianos) é o mais novo dos três irmãos, e o filme seguirá a sua metamorfose de puto ensimesmado em gestor furioso dos fora-da-lei.

Tem valido a pena seguir a carreira de John Hillcoat, um australiano de olhar duro, fascinado pelas zonas de fronteira, físicas e psicológicas, entre a civilização e a barbárie – a prisão ultra-tecnológica de alta segurança em “Ghosts… of the Civil Dead” (1988), o Oeste desértico no notável “Escolha Mortal” (“The Proposition”, 2005) e o mundo pós-apocalíptico no subestimado “A Estrada” (2009). “Dos Homens Sem Lei” é o filme menos conseguido de Hillcoat porque o seu desejo de construir o mito – os irmãos Bondurant são considerados invencíveis, e as acções surgem encenadas como se estivéssemos num western – aproxima-o do “mainstream”. Não há mal nenhum nisso, mas as marcas que tornam Hillcoat interessante diluem-se um pouco nessa busca de espectáculo e nessa ânsia das bilheteiras. Ainda assim, mantêm-se os temas da família,  da sobrevivência e da vingança, tão caros ao realizador, o universo permanece sensitivo, a lama quase nos devora, a humidade das casas invernosas entra-nos pelos ossos, e não há lugar para o glamour “made in” Hollywood. Em mais um guião de Nick Cave (esse mesmo, o poeta maldito e almirante dos Bad Seeds), o filme revela um mundo brutal, de roupas rasgadas, casacos gastos, sombras espessas, feridas em carne viva, onde sobressai Forrest Bondurant (Tom Hardy, já o melhor actor anglo-saxónico da sua geração ao lado de Michael Fassbender), a sequóia que resguarda o clã. Gary Oldman faz duas pequenas aparições de antologia, e Jessica Chastain é a ruiva mais vaporosa das paisagens californianas desde Nicole Kidman (também “made in Australia”, Kidman é uma ruiva que passou a loira insuflável após um desastre de automóvel chamado Tom Cruise). Ainda se aguarda o grande filme áspero e inclemente que John Hillcoat é capaz de fazer. Mas, num ano de má colheita, “Dos Homens Sem Lei” é uma boa pinga de contrabando.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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3 respostas a Brinde ao Western

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    A colheita é má? Então e as Linhas de Wellington?
    bela apresentação: fiquei mais do que curioso.

  2. Ana Rita Seabra diz:

    Também achei uma boa pinga…
    Quanto aos actores achei-os fantásticos – fiquei fã dos 2 irmãos, Forrest e o mais novo surpreendeu-me

  3. nanovp diz:

    Não vi mais nada de Hillcote, mas gostei deste: filmagem cuidada sobre um cenário cuidado e uma forte direcção de actores. Boa música e fotografia também…

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