Cinetelevisão

“A Advogada”, de Tony Goldwyn

Há um preconceito entre os críticos, velho de cinquenta anos,  quanto às produções de televisão. Quando se entende que uma longa-metragem cinematográfica não tem uma dimensão artística digna desse nome, chama-se-lhe “televisão”. É um preconceito tão frequente como desmiolado, o que não o impede de proliferar como vício de estimação de alguma crítica nacional “engagé”: a nenhum nível – fontes de financiamento, modelo de produção, equipa técnica, qualidade de escrita, densidade artística – é hoje possível traçar uma fronteira clara e honesta entre o que é “cinema” e o que é “televisão”. Quem vos disser o contrário, lamento, é ignorante ou está a mentir. Mais: se há hoje uma maturidade criativa no seio da grande produção audiovisual – e não apenas norte-americana, olhe-se para os exemplos britânicos, nórdicos, asiáticos -, ela reside, na maioria dos casos, não no cinema, mas na televisão. Existe mais trágica complexidade num episódio de “The Wire”, e mais incandescência épica numa sequência de “Jogo de Tronos”, do que no grosso dos thrillers produzidos para as salas na última década, ou nos 540 minutos da trilogia de “O Senhor dos Anéis”. Há apenas bom e mau cinema. Boa e má televisão. Os limites que enquadram esse juízo qualitativo não pertencem, obviamente, a uma ciência exacta. Resultado: “A Advogada” não é um filme medíocre por se parecer com má televisão; é um filme medíocre porque é mau cinema, ponto. História verídica de Kenny Waters (Sam Rockwell), condenado a prisão perpétua no Massachusetts de inícios dos anos 80 por um homicídio que não cometeu, e da sua irmã Betty Ann Waters (Hilary Swank), que sacrificará a vida pessoal e familiar para tentar encontrar provas que o ilibem, é um “pedaço de vida” que, nas mãos de Clint Eastwood, Harold Becker ou mesmo Robert Redford, todos exímios no cruzamento entre o “modus operandi” policial e as nuances do melodrama, poderia resultar em grande. Mas tanto a argumentista Pamela Gray como o realizador Tony Goldwyn (cujo melhor trabalho ainda é a sofrível comédia romântica “Alguém Como Tu”) são incapazes de insuflar emoção nesta história de sacrifício fraternal – Betty dedica toda a sua energia a fazer o curso de advocacia para poder ajudar Kenny -, insistindo numa longa e repetitiva sequência em flashback sobre a infância tormentosa do par (“pai ausente + mãe negligente = rapazinho mau”, é a mesma básica equação). Não se trata apenas de perícia narrativa. É, sobretudo, um problema de ausência de olhar sobre o material dramático. E é o olhar – os mais antiquados chamam-lhe “marca de autor” – que distingue a boa e a má televisão. Ou o bom e o mau cinema.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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8 respostas a Cinetelevisão

  1. Ouve lá, mas que é essa coisa de ansares a mater-te com os gajos que têm mais de 50 anos. deves pensar que aind tás no kindergarten…
    Seja como for, já me poupaste mais umj bilhetinho de cinema.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Pedagógico. Para mal instruídos nestes saberes, como eu, um regalo.

  3. Rita V diz:

    Vi um filme estranho que adorei ‘The Letter’ com a Winona Ryder e o James Franco
    Reparei que nenhuma sinopse do filme o resume e que o filme só se percebe nos últimos 5 minutos.
    😀
    Vale a pena!
    http://collider.com/the-letter-movie-trailer/188918/

  4. Mas tu és jovem como a Primavera, caro dottore… Já tenho aprendido com os seus posts, Maria do Céu. Não vi isso, Rita (que saudades da Winona…). Vou tentar ver.

  5. nanovp diz:

    Poupa-se um bilhete, mas ganham-se os minutos que se “gastam” a ler….

  6. Pedro Marta Santos diz:

    Poupas mesmo 6 euros, Bernardo. Sempre dá para comprar um bom DVD em saldo…

  7. Pedro Bidarra diz:

    A televisão é um meio que se proporciona a sagas, a épicos e a escrita sem fim. O reino do argumentista, terminado a meio do seculo passado destrornado pelo realizador, renasceu na TV.
    Quando ao serviço público que prestas só posso estar grato.

  8. És um compincha. E é verdade, o argumentista está na sua hipótese histórica de repor a importância da escrita visual – mas isso é no mundo real, não na tortura portuguesa.

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