Das damas ao valet

 

Manet – “A varanda”

Corria, para lá de meado, o século XIX. Famílias de burguesia dourada ascendiam, por mérito, a privilégios que à nobreza escasseavam. Com dinheiros arrebanhados em frutuosos negócios, algumas da classe emergente compravam títulos nobres. Não a aparente família que afirmava o seu poder sem necessidade de brasões, orgulhosa do caminho pela postura na varanda.

Na rua, dândis em seu passeio à cata de sortes embaladas em frufrus tendo ao lado damas de companhia. Apelidos femininos sonantes logravam preferência se acompanhados por igualmente sonantes moedas e posses de raiz. Alguns dos caçadores erguiam olhares para os balcões se a dote impressivo somavam exigência de recato. Engano ledo – raras aparências compõem harmonias com o real.

Cavalheiro passante ergueu o nariz. Deparou-se com a moldura esplêndida de par de damas convenientemente escoltadas. Não lhe escapou o valet discreto como exigiam as funções de cuidador das roupas, das contas, viagens e banhos do patrão. Artigo de luxo bem pago. Detalhe significativo para quem o observava e há muito vazara os bolsos prezando conciliar valores palpáveis e romantismo. A sobrecasaca coçada era prova.

Gostou do que viu.

Trejeito apreciador que a família marcasse.

Continuou.

Na varanda, as mulheres entreolharam-se com o modo sábio de quem esconde o pensado. Menosprezaram a argúcia do homem por detrás a quem pouco escapava. Nada mais, nada menos do que o pintor Antonin Guillemet. Sentadas, a pintora Berthe Morisot e a violoncelista Fanny Claus. Visitas de circunstância ao artista dono da habitação. Interior vetusto, sóbrio, abrigo de pintor viajante com o qual haviam entabulado amizade.

No tempo em que eram, ignoravam a escrita dos românticos portugueses Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco. Igualmente o realismo futuro de Eça de Queiroz, de Ramalho Ortigão e de Antero de Quental. A pintura de Columbano Bordalo Pinheiro e de Silva Porto. A escultura de Soares dos Reis. Menos ainda os esquifes que das damas e dos homens ocupariam o lugar na varanda pintada por René Magritte.

Vida trocada pela morte.

Visão antropomórfica.

René Magritte

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade.
No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria.
Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.

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10 respostas a Das damas ao valet

  1. Maria, o que é que uma varanda diz à outra, o que é?!

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    A de Manet:
    _ Olha para mim tão bem «esgalhada»! A de Goya, “Majas al Balcone”, foi inspiração, mas nesta tive a coragem de pôr o homem de frente.
    A de Magritte não se contém:
    _ E que culpa tenho das Majas estarem mortas e enterradas quando nasci para a pintura? Muito bem conservados estão os caixões!…

    • Talvez, talvez, mas acho que uma delas, sei lá bem qual, a seguir responde: “a tua geometria ardente põe-me o ferro forjado em brasa.”

      • Maria do Céu Brojo diz:

        E responde a outra:
        _ Sendo um ferro braseiro, melhor é banho frio na tina. Apronte-a ‘valet’, ou quem arde sou eu.

  3. nanovp diz:

    Esta vista das varandas, Manet e Magritte, terá forçosamente de ser de outra varanda, por isso haverá três varandas a falarem…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      A faltosa no diálogo é a de Goya. Por pudor ficou em silêncio ou não aferventasse ainda mais o diálogo que o Manuel continuou.

  4. curioso (magriço) diz:

    a outra, tristemente, muito só, só escreveu

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Noutros lugares, publiquei vídeos sobre Goya. Bem melhor, este.

  6. Teresa Conceição diz:

    Maria do Céu,
    tão rápida se avarandou a sua história que ainda nem tinha tido tempo de vir à varanda admirá-la. Logo eu que, vizinha cusca, estava à coca para ver se sabia o que ali se passava. Fiquei a arder com tanto cochicho aqui nas esquinas, a adorar cada bocado 🙂

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Como afirmei no comentário feito à sua bela escolha para “As curtas”, fiquei em pulgas, salvo seja. Vai daí não me contive. E se retirei prazer de perorar sobre a imagem…

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