Das entradas ao café

 

Autor que não foi possível identificar – “A la Fenêtre”

Entradas

Dizia Saramago que mesmo o escrever mal as mais das vezes arrebanha ideia, uma boa ideia. Porque arredia nesse tempo, contava meses em que ele não movia dedos no exercício da escrita. Pode dar nisto a obrigação de honrar nome, obra apaixonante e feita, prémios, condecorações e uns tantos bibelôs recebidos, alguns a merecer tranca na arrecadação. Nem a demora de assunto para livro ou galardões lhe davam cuidados.

Não faltando ideias, torço o crivo que as separe por peso, tamanho ou bondade. Atamanco frases, tenho um gozo danado e quem tiver paciência bastante para me ler que se avenha com a (in)digestão do cozinhado. Alternativa simples: passar adiante.

Prato de sustança.

É bem-amado o cheiro a castanhas assadas à mistura com o do Natal. É desmiolado pendurar nas ruas enfeites natalícios quando o metal é curto e as dívidas tentaculares. É atropelo o carrocel de festas que o consumo inventa. Inexistindo, são as promoções lojistas, esmeros da publicidade e sorteios. Melhor só nas feiras d’antanho onde o ‘vendedor da banha da cobra’ tinha léria sem defeito, garganta e pujança ao vozear monólogo como ator consumado. A propósito: quem se lembra do saudoso António Assunção debitando em ritmo demoníaco texto encenado pelo Joaquim Benite da Companhia de Teatro de Almada?

Sobremesa

Sendo que as palavras saltam como castanhas quentes, por pouco não olvidava o que chegou da memória e é maleita comummente impingida às crianças:

_ O que quer a menina ser quando crescida?

Era farta a cabazada de vezes que amigos e conhecidos dos pais mo perguntavam, em particular na visita ritual das Santas Festas. De início, embasbaquei – nunca em tal houvera pensado. Depois, exibi sensatez no projeto de médica como verbalizava a família. A partir daí, borreguei: dizia o que em primeiro ganhava a meta da gana. Até ao dia em que a prima Carminho, hipócrita, «peneirosa» e malvada (isto ouvira dizer na cozinha à Lúcia), caiu na esparrela do mesmo indagar. Nem hesitei:

_ «Flausina» como a prima. Se me dá licença, vou brincar.

Pendulando o cabelo, virei costas.

Café

Não se entretivesse o diabo em enredos, bichanei inquietude à Lúcia:

_ «Flausina» é profissão, não é?

Nota: a estimada Rita deu com o nome da autora da pintura publicada: Maria Zeldis. Grata pela atenção.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

10 respostas a Das entradas ao café

  1. curioso (é da guerra?) diz:

    uma triste con fissão, saindo algo torcido como o crivo, para não usar palavras que não digo, tudo junto: chamo-lhe um figo 😉

    façam favor de ser felizes!

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Sendo apetitosos os figos, agradeço. O vídeo também, já publicado no SPNI.

  3. Rita V diz:

    Boa!
    Ser flausina é do melhor para flanar por aí!
    😀

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Mas estão velhas ou mortas as coitadas…

  5. nanovp diz:

    Ser flausina, das entradas ao café, e mandar os adultos passear…parece-me bem para programa de festas, se as houver…

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Para que conste não era intenção mandar adultos darem volta ao bilhar. Seja como for, inúmeras vezes é ideia que não desprezo. E quanto a festas, venham elas que isto, leia-se o país, já deu o que, por ora, tinha a dar. O povo não – continua com bolsos progressivamente mais rotos.

  7. É assim mesmo, Mary: tenha um gozo danado.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Escrever é Triste mas compatível com o prazer retirado. Não sou «piquena» para tristezas sem gozo a acompanhar.

  8. Ivone Costa diz:

    Ora bem:) Também me lembro de umas resposta do género, dadas em tempos.

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    As crianças têm maior dom da assertividade do que os adultos. A isto é comum os crescidos(?) chamarem-nas mal educadas. Discordo.

Os comentários estão fechados.