De architectura

 

Em nome dos casulos ou das sombras

ergui perto da noite

uma longa casa fechada.

Inventei-lhe desculpas e segredos,

fiz-lhe um passado de jarras e janelas

e esperei que morresse sem dor

alguma flor que persistisse em cada dia.

E é só pelo desenho da rua na parede

que sei da vida e das suas escusas,

nem já o vento se atreve a acordar

os deuses com dedos de romã

que dormem na soleira deste Outono.

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.

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9 respostas a De architectura

  1. Ou de como Platão se deita na cama do poeta

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    A inveja é sentimento menor, sei. Verdade é o meu desgosto em não conseguir alinhar teclas na escrita de poesia.
    Embevecida me declaro.

  3. Ivone Costa diz:

    Ora, ora, Como se a Maria tivesse motivos para invejar alguma coisa a alguém.

  4. curioso (intro vertido) diz:

    será isso in veja? ou ad miração? onde está a menor idade? vontade de crescer é motivador. alguém me diz que o mal é das teclas: – as palavras sentidas só me saem da pena, o teclado emudece-me, aquelas letras mortas baralham-me, da pena brota um fluxo vivo e vivido.

  5. nanovp diz:

    Fui levado, empurrado pelas palavras, numa viajem no tempo…

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