Escrever é frio

Casa Hemingway em Key West na Florida. Pintura de William Welch

Estou para aqui às voltas com um conto que nunca mais cresce – problemas de fermento – e estou gelado. Tenho frio nas mãos, nos pés e espirro por tudo e por nada. Não estou constipado apenas tenho frio.
A casa até está moderadamente quente. O termómetro diz 21˚ o que, com todas as camisolas e casacos, devia ser mais do que suficiente para estar quente. Mas não estou. Estou frio e a única explicação (já tirei a febre e não tenho) é que escrever é frio. O que de resto decorre do texto do Drummond que nos titula.
Diz ele, resumindo, que escrever é triste porque quem escreve, em boa verdade, nada faz, ou seja, não gasta calorias.
O consumo calórico de um escritor é de 60 calorias por hora o que é muito pouco comparado, por exemplo, com um lenhador que gasta mais de 1000 calorias por hora a podar árvores. A actividade mental, que é o que alguns escritores têm, é responsável por apenas 300 das 2200 calorias que em média consumimos diariamente. Escrever é frio porque o corpo está parado, o sangue circula menos e o metabolismo fica mais lento, mais perto do morto que do vivo. Escrever não dá músculo, não queima energia, não aquece (às vezes nem arrefece) e não dá saúde. Escrever dá frio, o que é triste.
Mas a maior maçada de todas é que o frio, como a dor, a comichão e todos os outros aborrecimentos somáticos, distrai e torna-nos consciente das nossas entranhas. Com frio perdemo-nos em nós mesmos em vez de nos perdermos em outros mundos que é o que é necessário para escrever ficção. Talvez por isso a poesia, esse género absorto e egocêntrico, se dê tão melhor neste clima tipo tropical que temos em Portugal. Nesta terra de paredes porosas e de frestas por onde se esvai o quente, há sempre um arrepio a acompanhar o texto, uma fungadela a cada vírgula e uma pontada por cada ponto. Não admira que sejamos um país de poetas. Não admira que por cá se soltem poemas com fartura e que os romances sejam amargos e cheios de ais. Com este frio húmido e desconfortável não admira.
Eu se pudesse ia para o quente. Para os trópicos que é o melhor sítio para escrever ficção. Porque é onde o vento trás o quente que anestesia o corpo, o quente que nos suspende numa espécie de solução uterina onde só se pensa e não se sente.
Vejam se lá se o Hemingway não tinha casa na Florida e em Cuba; e se o Saramago não se pirou para as Canárias. É que escrever é frio.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

17 respostas a Escrever é frio

  1. Ivone Costa diz:

    🙂 Escrever não aquece nem arrefece. Essa é que é uma grande verdade, Pedro.

    • Pedro Bidarra diz:

      Às vezes aquece, não sei se é bem o escrever que aqueçe. Talvez mais o ler. Curiosamente na tabela de calorias que consultei ainda gasta menos.

  2. Panurgo diz:

    Eu cá gosto do frio. Por isso é que não escrevo nada.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    DIz o Pedro: “A acti­vi­dade men­tal, que é o que alguns escri­to­res têm…” É que nem nos teus melhores sonhos. Nunca tinha visto um tipo com frio a delirar. Estás lindo, estás, Pedro.

    • Pedro Bidarra diz:

      Já estou melhorzinho hoje, graças a Deus nosso Senhor todo poderoso que ouviu as minhas queixas e mandou o sol bater na minha varanda.
      Hoje vou-lhe pedir para me mandar uma ninfeta para me ajudar a acabar o conto.
      Já o delírio tem que ver com a medicação. Os comprimidos estavam todos molhados da humidade e por isso estragados. Hoje fui à farmácia e sem receita e com um sorriso lá resolvi o problema.
      Bem-haja (e já agora, aja) Dottore

  4. Marta Elias diz:

    É que não posso estar mais de acordo. Gostei.

  5. Pedro Lupi Caetano diz:

    Tens que começar a escrever com as duas mão (não com os dois dedos) e muito mais rápido. Assim, irás aquecer num instante e acabarás o teu conto mais depressa do que pensarias. As melhoras.

    • Pedro Bidarra diz:

      Estou antes a pensar comprar uma braseira, daquelas que se punham debaixo das mesas. Para aquecer os pés.

  6. nanovp diz:

    Pergunta : escrever poesia consome mais calorias do que escrever ficção? Pode ser uma das soluções. Outras passam por emborcar uns belos copázios de bourbon ou outro líquido de alto teor alcoólico ( deixe-se de chásinhos e infusões que isso só serve para enganar o corpo);escrever com meias gordas de lã , aquelas das feiras do norte do pais; ou não saír da cama e ditar em voz alta, qual Voltaire, a um qualquer amante de literatura, que passará a limpo.

    • Pedro Bidarra diz:

      Apesar de tudo os trópicos soam melhor. Ou a uma braseira. Alcool também é boa ideia. mas depois não escrvo, só invento.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    E não é que arrefeço os «calcantes» ao escrever?

  8. Cat_Domingues diz:

    Ninguém morre de um coração partido.
    Morre-se de frio.

Os comentários estão fechados.