Escrita Triste com mão firme

Na obra de Gracinda Candeias, inocente toma por linguagem gestual, rápida e ligeira, as manchas de cor «perdidas» num espaço de cor ténue. Mas são memórias senhores, saudades das planuras de Angola onde nasceu, doutras que explorou. Na Índia, nos anos setenta, no Brasil, corriam os anos oitenta, na China os noventa, recuperou da estreiteza da Metrópole. Conjugou a amplitude africana natal, as visitadas, com a moderação do território europeu. Aprendeu a ser espaço e não a conquistá-lo.

Gracinda Candeias

Nos suportes onde derrama cor objetiva, Gracinda Candeias transparece o minimalismo da mancha/ser. Contraponto entre Oriente e Ocidente. Entre vasto olhar sobre o mundo e pequenez míope dos tantos que somos.

Gracinda Candeias

Conheci a pintora no seu ateliê dos Coruchéus por via de amigo comum também pintor. Recordo o deslumbre com a mulher e a obra. Viríamos a coincidir em exposições. Nas da Gracinda Candeias, sem desilusão com as nuances cromáticas e o longe (pres)sentido.

“Corpus Meum”, Gracinda Candeias

Escrita Triste com mão firme. Pouco lápis, espaço muito. Gracinda Candeias. Olhai, senhores, a mão.

 

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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8 respostas a Escrita Triste com mão firme

  1. curioso (com teclas tac tac) diz:

    parabéns também pelo novo ‘retrato’ da Tia (falta o editorial?)

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Inspirador o traço e a mão que o firma.

  3. Gosto de ver a Escrever assim, sem maquilhagem, singela e de antiquíssima escrita. Obrigado à Gracinda Candeias. Bela apresentação, Maria.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      E não é que pelo lápis da Cracinda Candeias o “Escrever é Triste” somou talento e beleza?

  4. riVta diz:

    Bela escolha Céu. Obrigada Gracinda.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      A pintura da Gracinda Candeias é encantamento no qual é difícil a escolha. Obrigada Rita.

  5. nanovp diz:

    Belo traço de escrita….fica a Tia com mais uma boa cara, que merece!

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