Esta casa não tem lá fora, a casa não tem lá dentro

renda de bilros

 

 

Esta versão de “Aguapé” é produzida com o despojamento e a autenticidade de algo registrado ao vivo. De água-viva boiando à flor d’água. Embora, a rigor, não seja; pois há várias sobreposições e duplicações de voz (especialmente a de Fagner, que fazia muito uso desse recurso). De todo modo, ela traz as redondilhas, os motivos, inflexões e o modo de cantar dos cantadores e vaqueiros do semi-árido. O timbre de taquara rachada de ambos é muito rente ao timbre dos vaqueiros. Uma certa plangência de aboios e repentes que preferimos aos blues, porque ainda os entendemos por dentro, tendo-os ouvido de perto em feiras, são joões ou cirandas de fazenda, quando crianças. Era costume até mais ou menos a década de 70, pois a televisão mal tinha chegado uns anos antes, e as manhãs ainda corriam sem ela, cuja programação começava em torno do meio-dia e findava às onze da noite. Canções assim, embora fazendo uso de uma instrumentação moderna (e não menos por isso), nos raptam para um universo mágico, que ocasionalmente presenciávamos nas férias ou em temporadas no interior. Como se fosse possível reviver esses aboios e os tradicionais motivos de casas abandonadas, por conta das secas, vazadas ou violadas por outros migrantes – e que, por isso, não têm dentro e fora; ou de enterros sob belas árvores rituais – pau d’arcos, figueiras; e o que há de senhas em bilros de renda se chocando, ramos de alecrim, flores de aguapé, bordas de canoa, e o nascer do dia. As delicadas alegorias que vão por trás disso. Junte isso tudo e se tem imagens suficientes para canções de amigo, amor, escárnio e mais. Só que ao estilo do sertão. No caso desta “Aguapé”, no entanto, a coisa é mais perspicaz, porque de dentro dessa linguagem rural, aparentemente tosca e arcaica, da fronteira extrema, brota uma mordaz sátira também àqueles que ao, digamos, “estudá-la” e “exaltá-la” por meio da norma “culta” – da mentalidade normativa e imobilista do bacharel – terminam embalsamando-a. Daí as palavras fortes sobre os mortos – que valem para qualquer época. Mas que ganham um peso excepcional quando pronunciadas num contexto de silêncio imposto pelos anos de ditadura e imobilismo do momento em que a canção foi gravada (1979). E ainda hoje emociona a resolução e o acerto com que Raimundo Fagner ataca sua primeira estrofe “Esta casa não tem lá fora,/A casa não tem lá dentro (…)” após o bem abalizado introito de Belchior. Há na sua voz a urgência e o desespero duma sorte de “cante” andaluz ou ibérico que radicou de alguma forma no Sertão, acolheu sugestões e rispidezes locais. O canto de quem tudo perdeu, não menos o lugar de origem. E que é reapropriado de um modo sublime – embora sóbrio e racional – na poesia de João Cabral de Melo Neto (que é também uma aula de elocução e estética):

Até que, tantos livres o amedrontando,

renegou dar a viver no claro e aberto.

Onde vãos de abrir, ele foi amurando

opacos de fechar; onde vidro, concreto;

até refechar o homem: na capela útero,

com confortos de matriz, outra vez feto.

A tenção é a de um ‘cante’ essencial, que punge, a palo seco. Desataviado, mineral, feito de pedra e sol. “Uma educação pela pedra”, “uma escola de facas” ou “uma faca só lâmina”, na expressão de Cabral. Ou no dizer do poeta Décio Pignatari em frase que ainda remonta aos anos 60: “na geleia geral brasileira alguém tem de fazer o papel de osso e de medula”.

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.

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6 respostas a Esta casa não tem lá fora, a casa não tem lá dentro

  1. Isto é muito bom. Como é que se pode chegar a extremos de dramatismos em cima de tanta escassez? Nada, nada e é tudo.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    medonho de bom seu senso democrático.

    (mas você é também um imigrante. traz consigo essa chispa da passagem, e do transitório)

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Abismou-me. Ética e estética em contas de somar têm o dom de me comover.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    abismou-te?

    hahahaha. soam engraçadíssimas essas formas purtuguesas de pronome. a impressão é que do lado de cá da lagoa a gente ainda fala e está mais próximo de camões. mas, veja, céu, muito coisa cá por este eet também “abisma-me”.

  5. curioso (camon & ano) diz:

    falta provar… 🙂

    qual foi a graça, então?

    abismar
    v. tr.
    1. Precipitar no abismo.
    2. [Figurado] Assombrar.
    v. pron.
    3. Cair no abismo; afundar-se.
    4. Concentrar o pensamento.
    5. Maravilhar-se.

  6. nanovp diz:

    Fiquei rendido…gostei do som, da letra bonita e bem colocada, das vozes, e do baixo…muito bom!

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