Fedelho. É o que eu era

Dizem que a nostalgia nos faz andar para trás. A mim, são os caranguejos da minha infância que me fazem andar para a frente.

Morro dos Veados à hora, cedinho, em que se apanham caranguejos

Fedelho. É o que eu era. O meu pai ainda tão novo e a gostar tanto de tripular a moto dele, a BSA inglesa, sempre em direcção ao mar. Nessa lenta manhã de domingo, não eram sequer 6 horas e já estávamos no Morro dos Veados. É a essa hora, cedinho, que se apanham caranguejos. Fácil: um cabo com rede na ponta e podem vir os crustáceos de marcha-atrás, pequeno golpe de pulso a fazê-los entrar na rede que a seguir roda para fazer cair no cesto ou no saco o futuro e picante pitéu.

O meu pai com a adrenalina de ter feito 20 kms de estrada, na mota britânica a velocidade latina, era o homem da rede. Atrás, seguindo-o e a pisar as ainda não 6 horas da manhã, eu era o miúdo do saco.

Era fácil encher um saco de caranguejos nervosos. Os pés nus caminhavam pela beirinha da praia, naquela linha em que areia e água são lábios colados a beijos. O meu pai à frente, em passo fantasma, atrás dele o fedelho a olhar para a luminosa solidão de um mar plácido, para o areal quase deserto, três pescadores africanos ao lado do dongo, encostados à eternidade de um cigarro.

Era fácil, mesmo para um miúdo de oito anos, carregar o que, se viesse a estar cheio, seria um saco de vinte quilos de caranguejos. Um saco branco numa praia de África. Segurava-se pela abertura e arrastava-se pela água. Arquimedes que fizesse o resto. Não se sentia o peso e começou aí o meu pecado capital. A ponta do saco branco na mão, tão leve, o oceano tão pouco atlântico, com ar de que não mexeria nem uma palha, o sol cheio de vagares matinais atrás dos mangais, e, por efeito da física newtoniana e do espontâneo sossego da natureza, eu invadido por um caloroso sentimento de vadiagem. Era o que me tinham dito que a preguiça era, vadiagem, vadiar, longe ainda de descobrir que poderia também vestir-se com a semântica dignidade do ócio.

Vadiei. Deixei os olhos encherem-se de azul, o coração inventar caravelas, naus e gritos de piratas na abordagem. Vadiei em filme de artistas, do rapaz e mocinha, espadas e perna de pau. A automática mão sempre a segurar o saco, cada vez mais leve, já só dois dedos bastavam, os outros a fazer figas para que o filme tivesse um happy-end na minha aventurosa cabeça. Meticuloso, e mais hábil do que o rapaz do filme, o meu pai pescava caranguejos como quem desbarata piratas ingleses. O saco enchia-se – sempre o mesmo peso, o mesmo hidrostático impulso.

Duas horas passadas, era tempo de encerrar a pescaria. Num hercúleo esforço levantei o troféu. Para minha surpresa, e tão grande culpa, o saco ergueu-se no ar e flutuou. Lá dentro, dois caranguejos mais preguiçosos do que eu. Os outros, por onde entraram, saíram. Com dois negligentes dedos tinha vindo a segurar só uma ponta da abertura do saco, a outra na água, num convite irresistível a que os crustáceos dessem aos pereópedes e levassem as carapaças dali para fora. Alguns foram pescados duas e três vezes – duas e três vezes fugiram com a clandestina aliança da minha cabeça vadia e do meu andar lento e mole.

Fedelho, soube nesse dia que a preguiça é a calorosa amante de todos os sonhos e a mãe de uma inevitável desgraça. Pragmático, e incapaz de me fazer passar por uma vergonha, o meu pai comprou aos pescadores uns canónicos quilos de caranguejos, salvando as nossas masculinas faces perante as expectantes mãe e maninha.

Hoje, levantei-me com o gosto doce da preguiça a convidar-me para festim indolente. Pelo canto do olho vi que passavam, lânguidos e irónicos, os caranguejos da minha infância.

BSA, caranguejo da minha infância

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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15 respostas a Fedelho. É o que eu era

  1. curioso (sher lock) diz:

    forçosamente inglesa e muito bem restaurada 😉

    Birmingham Small Arms Company

  2. Se conduzir não beber leite de cato:

  3. fernando canhão diz:

    Caro Don Manuel, não vejo no seu caso qualquer nostalgia. Tenho me apercebido, com todo o possível respeito, que nunca deixou de as fazer. Já discordo da preguiça como mãe da desgraça, desde a leitura do elogio da mesma, escrita pelo genro do outro, considero-a um bem sem rival. Pratiquei na Guiné-Bissau a caça aos caranguejos, e desde essa altura, Polo, alpinismo, asa delta, etc. etc., são para mim coisas para crianças. Um caranguejo azul, a fazer pela vida, está ao nível de uma Green Mamba, se for injustamente atacada, convenhamos, pois por sistema a bicharada evita-nos, por saber que não somos flor que se cheire. Mesmo o que se diz do tubarão, está a meu ver eivado de um enorme exagero.
    Acerca do seu pai, bem me parecia existir real qualidade no seu presépio. A expressão “gostar tanto de tripular”, revela-nos o mais importante, você sentadinho no pillion seat era o tripulante, e quem comanda uma tripulação defende-a seja de quem for, seja mãe ou maninha. Acerca de motocicletas, a cena inicial de Lawrence of Arabia, em que ele limpa umas manchas de gasolina, no depósito da Brough Superior, minutos antes de morrer é das imagens da minha vida.

  4. CC diz:

    Saíram do saco andando devagarinho para trás enquanto você, menino, seguia em frente. O mar entontece e os caranguejos sabem. Que lindo…
    ~CC~

  5. nanovp diz:

    Bela pescaria, não deve haver ocupação mais intelectual do que a pesca! Com a preguiça à mistura.

    • Nada faz melhor ao intelecto do que a preguiça, ainda que, como me dizia o João César Monteiro isto de um gajo não fazer nenhum exige uma trabalheira do caraças. E também um dia me confessou que se um gajo quisesse dominar o cinema português não tinha de fazer nada, mas precisava de se levantar todos os dias à 7 da manhã. Um abraço Bernardo.

  6. João Pessoa diz:

    Ó Manuel, Manuel, como eu me lembro bem desses caranguejos!
    Eles fugiam no morro dos Veados e eu ia apanhá-los, um pouco mais à frente, no Miradouro da Lua, onde eu ficava a namorar até à chegada deles!
    Que tempos, Manuel! Eu também era fedelho e era o sonho e a preguiça, que me comandavam.
    Nunca te chamei para dares os “nomes” às cascas dos caranguejos, porque na altura, julgava-te, em Benguela!
    Mas, sem dúvida, que pescaria!!!
    Um Abraço Manel!

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Em vez de caranguejos lembro amoras dos silvedos a escapulirem-se pelo entrelaçado do cesto de verga. Ainda hoje, persigo amoras. Faço compota. A maioria, enfeitada com pó, saboreio mesmo ali.

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