Filmes-Orfãos 2: “Nocturne Indien”

“Nocturne Indien”, de Alain Corneau

Se há milhares de filmes-orfãos – e haverá de futuro muitos mais, proscritos da era digital, esquecidos no nitrato, entregues ao apetite de armazéns bolorentos -, “Nocturne Indien” está há mais de duas décadas sem lar que o acolha. Filho bastardo de Alain Corneau, realizador feito no “polar” (o policial francês de “Série Noire”, com outro olvidado, Patrick Dewaere, e de “Le Choix des Armes”, preso ao gatilho de Ivo Livi), este nocturno é melodia para noite espessa, onde os segredos da identidade se espreguiçam como gatos pretos. Um homem, Rossignol, interpretado pelo grande Jean-Hughes Anglade (ao lado dele, Guillaume Canet, Louis Garrel e Romain Duris parecem meninos de coro) procura outro homem, Xavier, na Índia de histórias portuguesas. Rossignol e Xavier talvez sejam um e o mesmo: o fractal identitário é de inspiração pessoana (Corneau adapta um romance de Antonio Tabucchi, fiel obsessivo do poeta português) e o filme está perto do nível do “Monsieur Klein” de Losey quanto ao pêndulo que nele se balança – “doppelganger” é a palavra-chave da hipnose. É uma Índia que foge dos postais ilustrados como Shiva das serpentes, encontrando beleza nos rituais miseráveis do quotidiano – a roupa colorida, em triste sorriso pelas cordas, as fogueiras que atiçam a escuridão, a areia de Goa, o sol.

tristes cítaras

“Nocturne Indien” é um filme de mistérios interiores, sussurrados, inconfessáveis. Yves Angelo, director de fotografia de três dos melhores filmes franceses dos anos 90 – “Un Coeur en Hiver”, de Claude Sautet, delicado como a pele de Emmanuelle Béart, “Germinal”, de Claude Berri, rude como carvão, e “Tous Les Matins du Monde”, também de Corneau, jóia barroca que fará reluzir Jordi Savall – recorre aqui à luz de Van Eyck, devolvendo-nos sombras. As sombras do Id.

Se encontrarem “Nocturne Indien” numa esquina, pelas três da manhã, não tenham medo dele. É um pedinte, mas um pedinte sábio.

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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6 respostas a Filmes-Orfãos 2: “Nocturne Indien”

  1. nanovp diz:

    Vou ficar acordado, à procura…

  2. Obrigas-me a rever e repensar. Nos teus filmes-orfãos franceses (há uma legião de injustiçados) não te esqueças de meter um ou dois, talvez mesmo 5 Melville. De amor à primeira vista, sem saber nada de cóltura, cinefilia e poses da treta, vi no cinema da 7ª esquadra da estrada de catete o “Le Samourai”. Nunca houve um tipo mais sozinho e mais bonito do que esse Alain Delon. Tão bom, talvez melhor do que no Rocco do Visconti.

  3. Pedro Bidarra diz:

    Mas como é que se vê ou encontra?

  4. Dottore, os Melville tiveram cem famílias de acolhimento, desde os anos 70 – o homem influenciou mais cineastas do que o Godard. Estou a falar de orfãos a sério, em choro no asfalto.

  5. Pedro, tens de apelar à amazona virtual: há edições francesas e australianas em DVD da silva.

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Aprendi. Ai a pobreza desta minha informação cinéfila…

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