Há muito doping na literatura

Patrick Besson é um escritor francês. Do mais mestiço que pode haver: filho de um judeu russo e de uma croata monárquica. Comunista, dito não praticante, escreveu crónicas no L’Humanité, depois no Le Figaro, agora no Le Point. Diz ele que a vária ideologia dessas publicações não o desvia da sua linha autoral: escrever com ideias de esquerda e um estilo de direita.

Defendeu a Sérvia, durante a Guerra da Jugoslávia, o que lhe valeu violentos ataques do normativo pensamento francês, arrasou Eva Joly, a franco-norueguesa bandeira da Europe Ecologie Les Verts, usando o incorrectíssimo argumento do seu horrível sotaque e, há poucos meses, chamou bufos a um belo leque de autores franceses entre os quais se incluiam prendas como Le Clézio, à conta de um abaixo assinado contra o perturbante panfleto de Richard Millet “L’Eloge littéraire d’Anders Breivik”.

As crónicas de Besson são intempestivas, imprevisíveis e irresistíveis. A desta semana, inspirada pelo caso Lance Armstrong, propõe que um comité anti-doping investigue a literatura mundial e retire prémios a alguns óbvios suspeitos. Com a devida vénia, um excerto:

“William Faulkner : bourbon. Le grand écrivain américain ayant passé la plus grande partie de sa vie ivre mort, on peut considérer que ses romans ont davantage pour auteur l’alcool que son esprit. Le prix Nobel de littérature, qu’il n’a, au contraire de M. Sartre, pas refusé, doit lui être confisqué et être attribué pour moitié à M. Jack Daniel et pour moitié à M. Four Roses.”

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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21 respostas a Há muito doping na literatura

  1. Ivone Costa diz:

    Uma delícia, Manuel. E esta sintaxe francesa é sempre uma beleza de ler.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    well, virá sempre algum chato de galochas medir os escritores pelo que bebem ou por como se comportam. ou propor um sectarismozinho estreito, redutor diante da liberdade a partir da qual cada um pode trabalhar sua expressão

    pobre villon. deve estar se revirando no túmulo. já quanto a sintaxe francesa, vamos por partes. mas primeiro vamos ao pequeno-almoço

    portugal vai nesse desjejum, não é de hoje. e hoje é a colônia que é, dentro da europa (minto?). o que tem apanhado dos alemães é brincadeira. e, então, que siga adiante nessa trilha à francesa, não espanta. há certa parábola de cegos guiando outros cegos. e frança não deixa de ser um das peças do dominó prestes a desabar pelo seu modelo de preguiça e outsourcing institucionalizado pelo estado. e onde só quem sua de fato são imigrantes. inclusive portugueses

    não deixa de ser interessante ler hoje no público que o governo alemão acaba de PROIBIR a exibição de um filme que aparentemente documenta que o povo português trabalha mais e recebe menos em benefícios e aposentadoria que os alemães. mais humilhações virão. ou como nos folhetins televisivos: cenas dos próximos capítulos (grandes reticências aqui)

    *

    noutra chave, para lembrar de le clézio sobre certa visada ambientalista, numa declaração de quase uma década atrás:

    “Il y a une grande hypocrisie dans l’écologie très autoritaire telle qu’elle est pratiquée aujourd’hui. Après avoir pillé la planète, les pays occidentaux voudraient empêcher les autres pays d’accéder au développement, d’utiliser leurs matières premières. On ne peut pas interdire à un pays comme le Brésil d’avoir recours à tous les moyens pour sortir de la pauvreté. J’étais au côté de l’écrivain malien Amadou Hampâté Bâ, un jour qu’il recevait un prix littéraire. Une dame est venue vers ce grand gaillard, très africain d’aspect, et lui a demandé : « Qu’est-ce que vous comptez faire pour sauver les éléphants ?». Il lui a répondu : « Madame, les éléphants sont de sales bêtes qui piétinent nos plantations ». La dame a été très choquée…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ruy, estás imparável. O chato de galochas não é certamente o Besson que come e bebe do bom e do melhor. Restaurantes thai, chineses, vietnamitas, africanos et la bonne bouffe française é com ele. Aliás, nas crónicas, quando refere um restaurantes classifica-o logo, juntando à frente uma, duas ou três foices e martelos vermelhinhos de acordo com o grau de gourmandise da coisa. Um príncipe este meu Besson.

  3. curioso (4 roses) diz:

    teste

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    A acusar, Curioso, acusarei um bocadinho de Herdade da Farizoa 2009, selecção do enólogo, suave blend de Touriga Nacional, Syrah e uma terceira uva que agora não ocorre, mas que desconfio ser Aragonez.

  5. curioso (peri quita) diz:

    boa presença: fartei-me de rir: não é desta que lhe vão sacar o carnet 🙂

    coisas giras: aquele teste foi ao sistema… que está uma zurrapa dégolasse 🙁

    vou mandar-lhe um link por email que sugere uma boa cura anti-doping

  6. fernando canhão diz:

    Quando em 1901 os académicos suecos, perante a dificuldade da escolha, daquilo que é contemporâneo, se agarraram ao critério, de a obra literária a premiar se pautar de um modo destacado “dans le sens d’ídéalisme” (em francês no procedimento) abriram portas a todos os desmandos. Como ser-se idealista, se se tratar de pessoa lúcida e de boa fé? Só com muito tinto, e mais o que ajudar à coisa. Claro que fui buscar ajuda a Javier Marias e á sua literatura fantasma. Gente que deixou a acabar a Volvo (na sua versão autentica) e a Saab, não são a meu ver gente em quem se possa confiar. Aliás dos cento e tantos nobeis, já pagos ,de quantos nos lembramos?

  7. Panurgo diz:

    e porra o farizoa são 20 e tal euros por garrafa. quando eu fizer a revolução, é Manuel é dos primeiros a marchar. Nem que seja para lhe confiscar a livralhada.

  8. curioso (nobel ista) diz:

    @ fernando canhão diz:
    Novembro 11, 2012 ás 23:53

    … Aliás dos cento e tan­tos nobeis, já pagos ‚de quan­tos nos lembramos?

    sem recurso, eles dão os prémios a quem (muito bem) entendem e gerem a sua economia (e a sua cultura) à sua maneira.

    se não nos lembramos dos Nobeis… com ou sem tin(t)o… não parece ser problema (deles)
    eu ainda me lembro dos SKF 😉

    Today, SKF is the largest bearing manufacturer in the world and employs approximately 40,000 people in approximately 100 manufacturing sites that span 70 countries

  9. curioso (dez ó lado) diz:

    @ con selheiro-mor

    conselho muita besta: já ‘stás c’os copos… então encosta-te ao canhão 🙁

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