Holograma

 As histórias que mais falta me fazem são as que nunca forma escritas. Mais precisamente as que uma frase, inesperada ou feliz, quase anuncia ou subtilmente deixa adivinhar. Histórias que podiam eventualmente ter sido escritas, mas não foram.

Quando Borges, num brevíssimo ensaio, escreveu, por exemplo, “Hay un solo triángulo, que no es ni equilátero, ni isósceles, ni escaleno. Ese triángulo es las tres cosas a la vez y ninguna de ellas. El hecho de que ese triángulo sea inconcebible no importa nada: ese triángulo existe” creio que todos pudemos ver os baços olhos do argentino cerrarem-se sobre um tenebroso romance de geómetras, a terrível maquinação de uma sociedade secreta e metafísica.

Devia haver uma máquina de fazer hologramas aplicada à literatura. Pegava-se numa frase e a máquina projectava no céu, um céu literário, a história completa.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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2 respostas a Holograma

  1. nanovp diz:

    Não sei se perderíamos a capacidade de imaginar diferente o desfecho, das histórias, da vida…mas a projeção celeste parece-me ideia perfeita!!!

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