Imperfeição

 

Waiting … not coming. Micha. Underskincomma-iv.blogspot.pt

9.40

Que diabo, estava a atrasar-se. Vinha da reunião para ali e afinal.

– Quer escolher?

– Não, ainda não.

Em casa da tia Daphne havia uma janela assim. Uma bandeira em leque que desenhava geometrias aracnídeas no chão da sala. Estava a precisar de Inglaterra, já tinham passado sete meses. Depois, era o costume: duas semanas lá e sentia falta de caldo verde.

10.20

Alargou o nó da gravata.

– Traga-me outro. Obrigado.

Era um problema de insatisfação crónica, só podia ser. Queria enquanto lhe parecia perfeito. Voltava as costas à primeira falha ou falta. Implacável. Desiludia-se, esfriava. Até com a Catarina, a segunda ajudante, toda eficácia e zelo.

– Sôtor, chegou a ver que aquela usucapião tem cinco prédios rústicos?

Só via as unhas descascadas. O verniz como caliça decadente. Quando a chamava, via sempre primeiro o verniz daquele dia de desleixo. Uma paranóia.

– Tu não és normal. Tens a quem sair, o teu pai é um tresloucado. Bem fez a tua mãe que voltou para Inglaterra sem querer saber de fados e de amores latinos.

Ah, Ana Teresa. Por causa dela, chegara a pensar em falar com o Jaime.

– Olha lá … tu achas que … eu … a minha mãe ter-se ido embora …

O Jaime faz saltar a rolha da garrafa:

– Liga para o consultório a ver se a Márcia te arranja uma hora para a semana.

Ok, ok. Separação de águas. Adianta alguma coisa a um homem ser amigo de infância de um psiquiatra?

– Porra, tenho de me ir deitar no divã?

– Olha, prova lá este Murganheira e diz alguma coisa de jeito.

Ficou por ali a terapia.

10.30

Gaita! Conferiu novamente o telemóvel. Nada. Parecia que ia começar a chover. A Ana Luísa não era dada a atrasos. Parecia inglesa, nem levantava a voz. Quando assistira a uma violenta discussão entre o pai e a tia que ficara de mãe substituta para as coisas domésticas e outras decisões, limitou-se a abrir os olhos, curiosa e analítica, e nem tocou no assunto quando ficaram sozinhos. A Ana Luísa não era de desassossegos, nem se desassossegava. Nem na cama, o que o irritava um bocado. Às vezes, um gemido mais prolongado era quanto conseguia fazê-la soltar.

– Posso sugerir que vá escolhendo?

– Não se preocupe, Afonso.

A Ana Teresa, essa gritava-lhe uns orgasmos em falsete que o arrefeciam. Não eram os gritos, era o tom. Se fosse uma oitava mais baixo, talvez, mas assim a coisa acabava mal. Mal e depressa. Engraçado, no jardim da tia Daphne havia um arbusto daqueles. Estava a precisar de Inglaterra. A Raquel era completamente o contrário. Não raro, desatava num choro contido, coisa de filme francês. Pois, post coitum omne animal triste estava escrito, mas assim ao vivo não tinha piada. Um dia tinha tentado consolá-la.

– Não sejas cretino, estou bem.

A Ana Luísa não chorava. Nem gritava. Às vezes levantava-se, puxava o lençol que enrolava à volta do corpo e ia fumar aqueles cigarros finos e compridos num ângulo de 45 graus em relação à janela.

– Afonso, a conta disto.

Tinha mesmo começado a chover. Do outro lado da rua, Ana Luísa fechava o carro.

– Desculpa, deixei o telemóvel em casa. A reunião complicou-se, conto-te depois. Vamos jantar?

Tudo alinhado, o cabelo, o casaco, o sorriso. Numa das meias, uma malha soltara-se num ponto invisível e tinha deslizado rectilínea até formar uma pequena oval de pele um pouco abaixo do joelho.

– Não. Já jantei sozinho.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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7 respostas a Imperfeição

  1. Rita V diz:

    Boa ‘malha’!

    ps
    Talvez uma Mary next time?
    😀

  2. nanovp diz:

    Pimba! O homem não deu hipótese! A perfeição leva muitas vezes à solidão: o mundo não é perfeito, as mulheres também não , e ainda bem…gostei Ivone!

  3. curioso (tres malha) diz:

    @ Rita V diz:
    Novembro 15, 2012 ás 11:11
    Boa ‘malha’!

    A Mary não deixa cair malha? 🙂 🙂 🙂 talvez uma Mary Lycra…

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Belísssimo!

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