Livros perdidos

Perdem-se os livros, dia e noite, meu amor…

Sim, há livros que desaparecem. Inexplicavelmente e inexplicavelmente ficam perdidos no cosmos, talvez entre Júpiter e Saturno. Entre Balzac e Beaumarchais, na minha biblioteca de Luanda-Lobito-Luanda tinha um Bazin, Hervé, da Europa-América que julgo  chamar-se De Chapéu na Mão. Nunca lhe tirei o chapéu. É um dos meus livros perdidos em combate. Foi-se, como se foram, perdidos nesse vasto campo de batalha que antes do Lobito, teve etapa no Huambo, os de um excelente narrador e dialoguista que dava pelo nome de Jean Lartéguy, para nós então um facho completo, mas cujos Centuriões e Pretorianos muito gostaria de voltar a ter e reler. Devem, hoje, estar em casa de algum ex-militante da Unita.

Perdido também, noutra selva, o meu Trópico foi de Capricónio. Exaltante. Devo-lhe, se assim se pode dizer, uma sexualidade desavergonhada e bem disposta. Sim, é preciso gemer, mas de vez em quando, uma boa gargalhada nunca fez mal a ninguém, nem mesmo mesmo à tensão metafísica, digamos assim, que de um corpo passa a outro corpo.

Já em Portugal, tive direito ao mistério, ao voraz buraco negro do Debaixo do Vulcão. Perdi três, perdi quatro. Punha-o na estante, saía da sala, voltava e já não estava lá. Comprava um saco deles na feira do Livro, nos saldos da Livros do Brasil, e uma semana depois não sobrava um. Conservo agora exemplar único, é verdade, por via das dúvidas pregado à parede.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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14 respostas a Livros perdidos

  1. Rita V diz:

    pregado ao meunier
    é a melhor maneira de nunca mais o perder
    assimilado

  2. curioso (a ti tu de) diz:

    parece doentia esta fixação nos livros: há mais coisas na vida a merecerem a nossa ‘ad oração’.
    haja Vida!

  3. Claro que sim: outros livros. Viva a doença. Para saudável já o temos a si, cheio de saúde sílaba a sílaba.

  4. curioso (en livrado) diz:

    saúde silabar… promete estar a dar 😉

    inspirado pelo meunier e pelo mescal, sinto-me mais forte

  5. curioso (prega dor) diz:

    o ‘pregado ao meunier’ levou-me a estas saudáveis curiosidades

    O ministro das Corporações Dr. Rebelo de Sousa inaugurou as novas instalações em Lisboa da sede da Caixa de Previdência de Empregados e Assintência que abrange cerca de 25 mil beneficiários. O edifício foi adquirido por 16.600 contos.

    http://kimbas.no.sapo.pt/coriusidades.html

  6. Panurgo diz:

    Eu do Henry Miller perdi uma frase; qualquer coisa como “chegamos a uma parte da vida em que só necessitamos de um pouco de sossego, um Horácio, e uma cona quente”; tenho de ir procurá-la. A Livros do Brasil fez as capas mais bonitas da Trilogia da Rosa, e ainda meteu uma mulher nua no Trópico de Câncer. Tenho pena de nunca ter visto a edição do de Capricórnio por eles.

    • Panurgo, na altura eram quentes porque atapetadas de farto musgo. Esta coisa da rapadela, terá poupado nos gargarejos, mas gerou um penoso arrefecimento global, Isso é que o Gore não viu.

      • fernando canhão diz:

        Verdadeiras bases para presépios. Montes de pequenas figuras alusivas, pontes, castelos de Herodes, etc. etc. uma manta pelos ombros, um cordial decente, salgados feitos pela porteira, e temos uma tarde bem passada, e claro tudo da zona sem se gastar um tostão em material importado.

        ps. Ucranianas e brasileiras, não são a meu ver cidadãs estrangeiras, se bem que assim sejam chamadas pela autoridade ligada ao poder e com esses já sabemos com quem estamos metidos. Acredito que os poilticos portugueses, salvo Marcelo R de S, nunca tenham passado de um colo de pai natal, resguardados atrás do trenó & renas de esferovite.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Medida acertada para quem se envolve no ‘levo com volta’. Raramente cumprida a promessa. Ainda arranjarei uns centímetros quadrados nas paredes para fazer o mesmo.

  8. nanovp diz:

    A grande tragédia dos livros é perde-los, em mudanças ou empréstimos ao amigos mais desleixados…a recompensa é voltar a encontrá-los mais à frente no caminho da vida.

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