Moscas liam cartas microscópicas: Tranströmer

Vieira da Silva

Lissabon

 

I stadsdelen Alfama sjöng de gula spårvagnarna i uppförsbranterna.

Där fanns två fängelser. Ett var för tjuvarna.

De vinkade genom gallerfönstren.

De skrek att de ville bli fotograferade!

 

“Men här”, sa konduktören och fnittrade som en kluven människa

“här sitter politiker”. Jag såg fasaden, fasaden, fasaden

och högt uppe i ett fönster en man

som stod med en kikare för ögonen och såg ut över havet.

 

Tvättkläderna hängde i det blå. Murarna var heta.

Flugorna läste mikroskopiska brev.

Sex år senare frågade jag en dam från Lissabon:

“Är det riktigt, eller har jag drömt det?”

 

Tomas Tranströmer

 

 

Lissabon

 

Im Stadtteil Alfama sangen die Straßenbahnen in den Steigungen.

Zwei Gefängnisse gab es. Eins war für die Diebe.

Sie winkten durch die Gitterfenster.

Sie Schrien, sie wollten photographiert werden!

 

Aber hier “, sagte der Schaffner und kicherte wie ein Gespaltener,

Hier sitzen Politiker. „ Ich sah die Fassade, die Fassade, die Fassade

und hoch oben an einem Fenster einen Mann,

der mit einem Fernglas vor den Augen dastand und übers Meer Hinausblickte.

 

Die Wäsche hing im Blauen. Die Mauern waren heiß.

Die Fliegen lasen mikroskopische Briefe.

Sechs Jahre später fragte ich eine Dame aus Lissabon:

Ist das wahr, oder habe ich es geträumt?

 

[versão de Hans Grössel]

 

 

Lisbon

 

In the Alfama quarter the yellow tramcars sang on the steep slopes.

There were two prisions. One was for thieves.

They waved through the grilled windows.

They shouted to be photographed.

 

But here,’ said the conductor giggling like a split man,

here sit politicians.’ I saw the façade the façade the façade

and high up in a window a man

who stood with a telescope to his eye and looked out over the sea.

 

Laundry hung in blue air. The walls were hot.

The flies read microscopic letters.

Six years later I asked a woman from Lisbon:

Is it true, or have I dreamt it?’

 

[Versão de Robin Fulton]

 

 

Lisboa

 

No bairro da Alfama, os bondes amarelos cantavam pelas ladeiras.

Havia duas prisões. Uma era para ladrões.

Eles acenavam por trás das grades.

Gritavam, queriam-se fotografados!

 

Mas aqui”, disse o condutor por dúbio meio-riso,

ficam os políticos”, e eu vi fachada, fachada, fachada,

e lá, acima, um homem à janela

que observava o mar por um binóculo.

 

A roupa lavada estendia-se no azul. As paredes mornas.

Moscas liam cartas microscópicas.

Seis anos depois, perguntei a uma lisboeta:

Isso é real? Ou sonhei?”

 

[Nossa Versão]

 

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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3 respostas a Moscas liam cartas microscópicas: Tranströmer

  1. curioso (poli glota) diz:

    o desencanto com as microscópicas cartas levaram-me a descobertas com pensadoras:

    há uma Afectivagem muito familiar com ar de parada no tempo e a reclamar manu tenção 🙁

    há uma versão francesa e outra ainda mais nossa

    Lisbonne

    Les tramways jaunes chantaient dans les montées du quartier d’Alfama
    Il y avait deux prisons. Dont une pour les voleurs.
    Ils agitaient les mains par les grilles des fenêtres.
    Ils criaient qu’ils voulaient être photographiés!

    « Mais ici », me dit le receveur, ricanant comme
    quelqu’un qui hésite,
    « c’est ici qu’on met les politiques ». Je regardai la façade, la façade, la façade
    et tout là-haut dans une fenêtre, un homme
    qui avait des jumelles devant les yeux et contemplait la mer.

    Le linge séchait dans le ciel. Les murs étaient brulants.
    Les mouches déchiffraient des lettres minuscules.
    Six ans plus tard, je demandai à une dame de Lisbonne :
    « Était-ce donc ainsi ou bien l’ai-je rêvé? »

    Lisboa

    No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas subidas.
    Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
    Eles acenavam através das grades.
    Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!

    « Mas aqui », dizia o revisor e ria baixinho, maliciosamente,
    « aqui sentam-se os políticos ». Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
    e em cima, a uma janela, um homem,
    com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
    para além do mar.

    A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
    As moscas liam cartas microscópicas.
    Seis anos mais tarde, perguntei a uma dama de Lisboa:
    Isto é real, ou fui eu que sonhei?

    as cartas tendem para letras: valeu a pena 😉

  2. curioso (centrado) diz:

    A roupa pen­dia no azul. Os muros esta­vam quen­tes.
    ——As mos­cas liam car­tas micros­có­pi­cas.
    Seis anos mais tarde, per­gun­tei a uma dama de Lis­boa:
    ——–Isto é real, ou fui eu que sonhei?

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    E desta que me diz?

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