O Amor em tempo de Cólera, a Poesia depois de Auschwitz*

Não sei o que me deu para juntar estas duas referências, tão distintas. Brincar com o título de um livro do Garcia Marques, misturá-lo com uma frase inspirada numa declaração polémica de Theodor Adorno.

Talvez porque algumas das melhores lições que a vida nos dá chegam-nos através dos outros. Do que os outros fazem, do que os outros são. Da obra construída, delineada em sonhos, em palavras, em melodia, em pedra.

Talvez porque o passado dá sentido ao presente, e abre os olhos ao futuro.

O sentido de vidas que valeram a pena ser vividas, de vidas que apenas foram contadas ou imaginadas.

Do Homem humilde que aceita ser um número entre os outros, ao Homem que se alvitrou a ser génio, ao Homem que sonha sentir uma certa divindade.  Talvez por isso valerá a pena viver.

Haverá  sempre amor em tempos de cólera, e a poesia decidiu não morrer com a noite de Auschwitz.

Continuamos a saber o que é tristeza sublime, que toca a beleza, porque ouvimos a ária ” erbarme dich” de Bach, na sua Paixão de S. Mateus.

Quantos livros nos ajudaram a imaginar o primeiro amor, quantos filmes nos  descreveram como nossos outros amores, profundos, calejados ou tardiamente belos?

Sozinhos no mundo, sem os outros, seria a extinção, o desaparecimento. Por isso a ausência da história é perigosa, por isso a arrogância do presente pode por em causa o futuro, mesmo quando o futuro deve ser posto em causa todos os dias.

Nessa epopeia diária tem lugar cativo o exemplo do que ficou, de um passado que junto com o que somos agora, projecta-nos um pequeno fragmento de  futuro. Talvez infinito, pelo menos tão infinito quanto os nossos sonhos. Sem acreditar no futuro, não existe passado.

A história dos outros permite-nos sentir que não estamos no início do tempo, embora não nos revele se estaremos no fim, ou quando é que este poderá estar para vir.

Viveremos enquanto nos sonharmos verdadeiramente humanos, morreremos na pequena medida em que deixamos de dar sentido à vida.

Tudo morre na inumanidade. É o deserto da esperança, do sentido. Um das maiores possibilidades do ser humano é destruir-se a si próprio. Outra é Imaginar o futuro quando nele vê sentido.

Haverá sempre amor em tempos de cólera, e quero acreditar que a poesia é possível depois de Auschwitz.

 

 

*a tradução mais rigorosa que consigo fazer da frase de Adorno onde se inspira o título será mais ou menos assim  ” …Escrever Poesia depois de Auschvitz será uma barbaridade…”

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

20 respostas a O Amor em tempo de Cólera, a Poesia depois de Auschwitz*

  1. Ivone Costa diz:

    Que belo texto, Bernardo. Soube-me bem lê-lo.

  2. curioso (a fortu nado) diz:

    so do i

    me 2

    a men

    • nanovp diz:

      Caro Curioso, não é que nunca tinha ligado muito ao texto do Orff, que é belíssimo e apropriado…obrigado pela lembrança.

  3. Panurgo diz:

    Depois de Auschwitz nada mais seria possível. Excepto o Juro, obviamente.

  4. inma diz:

    Depois de Auschitz veio a Rússia com Stalim e nimguém diz nada.

    • nanovp diz:

      Stalin ainda conseguiu, com a enorme hipocrisia da ” inteligensia” europeia, “esconder” o Gulag…é das grandes injustiças da nossa historia recente, não a comparação directa entre o “pequeno e o grande bigode”, mas a aceitação da calamidade humana sobre Koba.
      p.s. Vale a pena ler Martin Amis sobre Stalin ( que inclui uma grande bibliografia ).

  5. Haverá sempre Marylin Maxwell:

  6. Maracujá diz:

    Os outros, nós, o binómio de newton, matemática pura, (a+b)2 , incontornável, incontrolável.
    Amor, poesia, dissociá-los será loucura.
    Auschwitz será eterna.
    E Bach soará sempre que mergulhamos na profundidade das águas do nosso banho matinal.
    As palavras simples buscam sempre a essência do mais belo.
    Isto é você, caro Bernardo e toca-me.

    • nanovp diz:

      Caro Maracujá acredito mesmo que está tudo ligado, o complexo de um lado é simplicidade do outro, e como diz, a poesia e o amor não se podem dissociar…
      Obrigado pelo comentário!

  7. O que é espantoso é como tudo volta a ser possível. Sempre. Bach, poesia, matemática, amor, tragédia, outra vez o amor… Gostei muito

  8. Bach é levado da breca. O homem nunca saiu de um raio de 85 quilómetros da sua cidade natal.

  9. curioso (hu manista) diz:

    O que se perde não volta a ser possível e a história é a penas um filme, como a água que passa no rio é sempre outra: não há amor como o primeiro…

Os comentários estão fechados.