O coração a nu

Por essa altura, eu era uma rapariga de liceu, igual a tantas outras. Ou talvez não. Era a primeira vez que andava num liceu, deixando para trás as fórmulas de Lavoisier e a química em alemão, a análise, também em alemão, das óperas de Mozart e as aulas de ginástica e trabalhos manuais (duas pequenas torturas semanais), até estas, infelizmente, em alemão. À solta num liceu português, percorrendo os corredores invisíveis da área D, dei comigo a sorrir a Heraclito e a Nietzsche, a apertar a mão a Sócrates e a Freud e a viver dentro das páginas de Os Maias. Naquele tempo, escrevia com marcadores Futura azul turquesa e estava apaixonada por um colega chamado Pedro, que me tinha partido o coração. Nesse ano tive um professor que dava aulas sui generis. O nome da cadeira era Introdução ao Jornalismo, mas na verdade era sobre a vida. Ele vestia-se invariavelmente de roxo, fumava cachimbo nos intervalos e durante preciosos 50 minutos falava-nos muito de livros, filmes, exposições, de Paris, da subjectividade do olhar e pouco de lides jornalísticas, manchetes, viúvas e espelhos. Os testes podiam ser feitos em qualquer local, dentro ou fora da escola e cedo descobri que eram os mais difíceis, porque a originalidade não se podia copiar. Em troca, garantia a todos os alunos o 10 só por frequentarem as aulas. Foi precisamente numa destas aulas que o José Manuel Rodrigues da Silva (então jornalista no Diário de Lisboa e mais tarde editor do Jornal de Letras & Artes) nos apresentou este livro único e inclassificável, de leitura mais apropriada para estudantes universitários: Fragmentos de um discurso amoroso. Poucos dias depois, tinha um exemplar com o meu nome e a data escritos em caixa alta e a azul turquesa, como se fosse eu própria a autora do livro (e não seria pelo menos a co-autora?). Li-o vezes sem conta, com os mais diferentes estados de espírito e de coração, a ponto de saber involuntariamente algumas passagens de cor (par coeur, como os franceses dizem e muito bem). Ofereci-o a namorados, amigas, amantes ou pessoas de quem gosto, porque o considero uma leitura obrigatória, não no liceu ou faculdade, mas na vida. E mais do que uma vez lamentei não poder oferecer, além do objecto material, o tempo e o espaço necessários à sua leitura. Ainda hoje, tenho 3 exemplares na minha estante, todos juntos (como se fosse uma livraria), não vá querer oferecer um e não o encontrar à venda (talvez não saibam, mas este livro tem o mau hábito de estar regularmente esgotado).

Aqui está ele, amarelecido pelo tempo e enrugado pelas sucessivas leituras. A  capa, mantida durante muitos anos (foi recentemente substituída por uma fotografia desfocada de Roland Bsrthes) reproduz um pormenor do quadro Tobais e o Anjo, de Del Verrocchio e há quem diga que o então jovem Leonardo da Vinci, aluno do pintor, participou nele.

Mas o que torna este livro tão sedutor? Talvez a sua classificação. Será um romance sem narrativa linear? Um ensaio? Uma autobiografia? Um pouco como o ser amado, que é reconhecido como atopos, é “inclassificável, de uma originalidade sempre imprevista.” Em 1977, ano da sua edição, Roland Barthes já o considerava fora de moda, pois tratava de um tema de uma extrema solidão: o discurso amoroso que, sendo falado por milhares de pessoas, não era defendido por ninguém e necessitava de afirmação. Então como agora, era difícil reconhecer um ser apaixonado na rua. O livro trata precisamente do discurso (ou pelo menos da sua simulação) do sujeito apaixonado, dotado de uma marginalidade invisível e considerado pelo mundo um lunático ou um louco. É o retrato de um eu que fala diante do outro, o objecto amado, curiosa expressão que permite a ausência de definição do género. Para Barthes, o sentimento amoroso é unissexo, exactamente como as calças de ganga. Pouco depois de o ter lido, descobri por acaso que o autor era homossexual e espantei-me com a poderosa universalidade deste discurso amoroso (tinha-o lido num sentido e ele tinha outros, vários, quantos?).

No prefácio que serve de manual para orientar o leitor, o autor explica o sentido e a etimologia da palavra discurso. Discurso é a acção de correr de um lado para o outro. “O apaixonado não deixa, na verdade, de correr dentro da sua cabeça, de empreender novas tarefas e de fazer intrigas contra si próprio.” Não percorre um caminho, deambula pelos episódios de linguagem que o habitam, os mil e um incidentes que atravessam a relação estabelecida com o objecto amado. O sujeito apaixonado, deslumbrado e embrenhado no seu estado, vê-o em existência, não em essência: “agita-se num desporto um pouco louco, esgota-se como o atleta, discursa como o orador”. O livro, idealmente, seria uma cooperativa: “Aos leitores, aos apaixonados reunidos”… Como diz Alcibíades no Banquete, os apaixonados assemelham-se aos que foram mordidos por uma víbora e apenas querem falar do seu acidente a quem também já foi vítima, para assim se sentirem realmente entendidos. O apaixonado lembra um semiólogo a tempo inteiro, “está louco de linguagem”. Passa o tempo a ler signos de felicidade e infelicidade nos gestos, no discurso e no rosto do outro. Vive num estado de profetismo e flutua dolorosamente entre consultas mágicas, pequenos ritos secretos, acções de votos e gestos de fetichismo. Procura um sentido para o mais insignificante nada, enquanto formula sempre a mesma pergunta: serei amado? Protegido pela sintaxe e exposto pelo seu coração, o seu discurso, frágil e desordenado, é um discurso do imaginário. E o imaginário pode ser um deus caprichoso.

O seu discurso é feito na primeira pessoa do singular e “É pois um apaixonado que fala e diz”, por ordem alfabética e insignificante (no sentido em que é destituída de significado). as figuras que se sucedem, de abraço a verdade: adorável, angústia, atopos, ausência, carta, chorar, ciúme, coração, declaração, dedicatória, espera, eu amo-te, exílio, fato, imagem, languidez, louco, magia, monstruso, nuvens, obsceno, sedução, signos e vagabundagem, entre muitas outras. O abraço precede a ausência e chorar vem antes de dependência. Sedução aparece depois de eu amo-te e a ternura surge depois do exílio. Os capítulos, uns com direito a aspas, outros não, têm como títulos  “Na calma dos teus braços amantes”, “Nós somos os nossos próprios demónios”, “Quando o meu dedo por inadvertência…”, Fazer uma cena, “Dói-me o Outro”, Elogio das Lágrimas, “Mostrai-me alguém para desejar”, O exílio do imaginário, Um pequeno ponto no nariz, Os óculos escuros, “Sou odioso”, “Nem um padre o acompanhava”, A laranja, “Estou louco”; “A última folha”; “A incerteza dos signos”; “E a noite ilumina a noite” ou O navio fantasmaUma ordem lógica ou temática daria um sentido ao discurso e os fragmentos boicotam uma possível história de amor. Numa entrevista após o lançamento do livro, Barthes lembra que “através da história de amor a sociedade domestica o apaixonado”.

Ao longo do livro, vamos percebendo como o sujeito amoroso é formado pela literatura e se alimenta de palavras como sofrimento, amor e desgosto e de obras como Tristão e Isolda ou Werther. Sujeito instável, para ele o amor é uma tarefa, um emprego, uma escravidão. Ser trágico, não sai vencedor nem vencido, é feliz e triste ao mesmo tempo. Por vezes encerra o outro, o ser amado, numa teia de tiranias, passa de vítima a ser monstruoso, do delírio ao desespero, encena soluções extremas: a arte da catástrofe tranquiliza-o. E se o sofrimento é inevitável, os desgosto de amor são um valor. Roland Barthes mistura figuras da sua vida, confidências e conversas com amigos, que surgem discretamente referidos pelas suas iniciais (R.H.: conversa ou E.B.: carta) com personagens literários como Werther de Goethe (referência predominante) e Stendhal, Proust, Musil, Balzac e Flaubert, as obras filosóficas de Nietzsche, Kierkegaard, textos Zen ou o Banquete e O Fedro de Platão, referências etimológicas e notas sobre Schubert, Schumann, Debussy ou Ravel. Muitos autores entraram na minha vida nesse momento, para se tornarem de algum modo familiares. Foi a primeira vez que que li koans e me deparei com a opacidade dos haikus. Ou li esta história, que vem no capítulo da espera: “Um mandarim estava apaixonado por uma cortesã. Ela disse-lhe que seria sua se ele esperasse cem noites por ela, debaixo da sua janela. À nonagésima nona noite o mandarim levantou-se, pegou no banco e foi-se embora”. Nunca antes tinha sabido de Lacan, Winnicott ou Rusbrock. Todos estes autores, à margem do texto, constituem as notas laterais de uma memória afectiva (a do autor) e emprestam a voz ao sujeito apaixonado. Sempre que nos reconhecemos numa figura de linguagem, o livro lembra um espelho que ganha a imagem de quem o olha. Mas nesta escrita próxima e aparentemente clara, há algo de inquietante e ilegível, porque a linguagem (como vamos entendendo ao longo do livro) é excessiva e pobre, louca, trémula e sofre de fadiga. Com os anos, o sujeito-leitor (eu) foi mudando, tal como o objecto amado. O meu coração partiu-se e colou-se algumas vezes. Percorri novos caminhos entre os fragmentos, os aforismos, as citações e li os sub-textos com outros olhos. Estava escrito que um dia iria escrever sobre este belo e triste livro. Foi aqui. Foi agora.

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
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21 respostas a O coração a nu

  1. curioso (an alpha) diz:

    gostei! é caso para perguntar: se houvesse um apagão na literatura, como seria daqui em diante? “já Bocage não sou…”

    • Maria João Freitas diz:

      Curioso,
      Obrigada pela apresentação sui generis de uno de los padres de la semiologia.

  2. Rita V diz:

    ‘Sempre que nos reco­nhe­ce­mos numa figura de lin­gua­gem, o livro lem­bra um espe­lho que ganha a ima­gem de quem o olha.’
    – Gostei imenso. Antes, durante e depois!

    • Maria João Freitas diz:

      Rita,
      O que este livro demonstra também é como somos muito mais parecidos uns com os outros por dentro do que imaginamos.

  3. nanovp diz:

    Um dos livros que perdi numa das caóticas mudanças adolescentes tardias…agora fiquei cheio de inveja, a querer ter “três copias como numa livraria”…e andei uns anos para trás…

    • Maria João Freitas diz:

      Bernardo,
      Está na altura de o reaveres com a nova capa do Barthes desfocado. Além dos Fragmentos, há outros livros que gosto de ter triplicados. Confesso que tenho alguma dificuldade em resistir ao impulso de comprar várias edições, mesmo que sejam rigorosamente iguais (serão?) de certos livros.
      p.s. – este fim de semana, quando o li ao pedaços e uma vez mais, também entrei na máquina do tempo

  4. Tão bem servido e tão amorosamente lido este Fragmentos. Até apetece voltar a gostar do Barthes.

  5. Ivone Costa diz:

    Fartei-me de gostar deste Está escrito, Maria João. Barthes, oui.

    • Maria João Freitas diz:

      Ivone,
      E o livro está repleto de mitologias, como gostas. Umas conhecidas, outras privadas…

  6. Panurgo diz:

    O meu também me foi oferecido por uma universitária que andava sempre de coração despedaçado. Enfim, fitas. Talvez por ter vindo em inglês, era uma coisa sem graça nenhuma. Bom, esse gajo também era um pateta que vai lá vai, portanto, o problema não devia ser da tradução.

    Grande texto é esse, o do título, do Baudelaire.

    • Maria João Freitas diz:

      Panurgo
      (respondendo ao contrário)
      Concordo, mesmo tendo tirado o “meu” do título dele.
      Deve ser curioso ler este livro que tem pronúncia francesa em inglês. Deve perder-se algo in translation. Lembra-se como se vestia ele? Não devia ser com o Tobias e o Anjo…

      • Panurgo diz:

        Lembro-me muito bem. Tenho isso tudo escrito, anotado. (e, ao contrário daquele seu namoradito austreco, não roubei nada a ninguém 🙂 )

  7. Texto brilhante sobre os estados da paixão.

    • Maria João Freitas diz:

      Pedro
      Brilhante é o livro e confesso que me fui deparando com dificuldades várias em escrever sobre ele, afinal um objecto amado. Tal como acontece com o sujeito apaixonado, senti (e sinto) que se trata de um “inexprimível amor”.

  8. curioso (ressus citando) diz:

    já (quase) aconteceu a outro/s ilustre/s

    Transforma-se o amador na cousa amada,
    Por virtude do muito imaginar;
    Não tenho logo mais que desejar,
    Pois em mim tenho a parte desejada.

    Se nela está minha alma transformada,
    Que mais deseja o corpo de alcançar?
    Em si sómente pode descansar,
    Pois consigo tal alma está liada.

    Mas esta linda e pura semideia,
    Que, como o acidente em seu sujeito,
    Assim co’a alma minha se conforma,

    Está no pensamento como ideia;
    [E] o vivo e puro amor de que sou feito,
    Como matéria simples busca a forma.

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Sobre este livro jamais tinha lido texto assim. Muito bom.

  10. Filipe João diz:

    A única coisa que me ocorre, depois de a ter lido, é que fiquei com uma vontade enorme de o ler.

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