O Grande Amor

 

Nua, uma nudez limpa, perfumada. Willy Ronis.

Mary perdera pai e mãe. A bendita cara e a perfeição ultrajante do corpo pouparam-na ao horror da miséria, abrindo-lhe as portas ao horror da vida. Não sei se o Amor é para aqui chamado. Chamava-a uma corte, um parlamento de homens. Talvez, um hipotético dia ou uma noite, o calor de outra mulher. Outras noites, noites de nenhum dia, a ardente promiscuidade de vários homens e algumas mulheres.

Mary, linda, tão bem vestida, cabelo pintado, o negro brilho de um creme, dizia: “Sei bem, oh se sei, como são os homens, mas sei que deve haver um homem que não é como os outros homens.” E nua, uma nudez limpa, perfumada, inclinava-se para dois corpos frenéticos.

Há inocências capazes de se esvair num segundo, num humilhante apalpão. Os horários desordenados, a enorme tristeza das festas, o gelo dos cocktails, o inóspito assalto masculino não roubavam a Mary a fome de sonho. Se descesse agora a rua, a sua rua, as mulheres à janela diriam: “É tão boa moça.” Nem os homens, nem os rapazinhos de leite as desmentiriam: “Tão boa menina.

Não havia uma ponta de leviandade na vida de Mary. Beijava, chupava, lambia. Beijavam-na, chupavam-na, o que lhe quisessem fazer. Não pedia socorro, beijava na boca. Nua, de cócoras, continuava a olhar de frente o sofrimento do homem só meio despido. Via a mão deste, no ar, indecisa. Percebia que o homem, este, não sabia se lhe havia de apertar o peito, se acariciar o cabelo que o gel enrijecera. Havia uns mais decididos que fodiam forte. De olhos fechados. Este olhava para ela, agachada. Este tinha um lirismo culpado no olhar e tinha de ser ela a quebrar o gelo: “Vai, não tenhas medo, vai-me ao cu.

Saía do cinema, de um restaurante, estava a despedir-se de um, três destes homens. O que foi, o que fosse, já não sabe, não conseguirá nunca voltar a saber. Sabe que viu no ar quente dessa noite um sorriso que era uma ideia de mundo. “Eu quero viver neste sorriso,” foi o que lhe gritou a inteligência do seu corpo. Não sabia se era um marinheiro, um contabilista, um poeta. Era um sorriso que tinha tudo, timidez e confiança, a mais descontraída alegria. Podia andar-se sobre aquela tão leve alegria. “Se me deixares viver dentro de ti, amo-te até ao fim dos dias, até ao fim da terra, o fim do mar.

Ele virou-se ou estava já, como um anjo, virado para qualquer dos lados de que ela lhe falasse. Estava na sua natureza concordar. Concordava com o Amor em género e número. Ela viu-lhe, na prodigiosa expansão do olhar, luzes, um arco-íris, um rufar de tambores. É engraçado, tão depressa se fazia noite, como se fazia dia, um nevoeiro musical, uma lâmpada líquida. E sem precisar de um bom-dia, de uma boa-tarde, ela viu que, embora ele usasse óculos, podia confiar, se lhe podia confiar.

É indiferente que lá fora faça chuva ou sol. Estão os dois neste quarto que transborda da casa, perfeita varanda do mundo. Estão descuidadamente vestidos a calça de treino dela, um top, a calça do pijama dele. E num impulso, uma coisa inaugural, um gesto, um verso, a mão de Mary desliza, roça, acaricia, agarra a mão dele. “Tens de saber. Amargo e doce, fiz tudo. Mas a minha mão, não. Nunca deixei nenhum homem segurar na minha mão.

O grande amor é dar a mão.

Φ

Resposta a um desafio que Vinicius de Moraes fez a Eugénia de Vasconcellos e a Eugénia, pródiga, repartiu pelo mundo, com estes termos singelos: o amor nosso de cada dia, que amor é? Como é amar? O que é o amor?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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19 respostas a O Grande Amor

  1. Claro que o amor é dar a mão. E amar é ter uma ideia do mundo. Fartei-me de gostar. Merci.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Bondade sua. Mas amar é mesmo dar a mão, se for preciso, o pé. Gostei que gostasse

  3. Panurgo diz:

    Onde é que há dessas mulheres corajosas? Também me dava jeito.

  4. curioso (necessidades) diz:

    @
    Manuel S. Fonseca diz:
    Novembro 23, 2012 ás 22:34
    Não sei, Curi­oso, não sou o mandatário…

    da Maria, ou da República?

    mas de cócoras, não a estou a ver a fazer aquela proposta… seria mais pro pícia a canzana?

  5. Leitor000012357882 diz:

    é por estes escritos que aqui estou e daqui não saio

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Se não dá a mão, a da alma é a que mais importa, nada tem para dar ao amante, ao amigo, ao vizinho.

  7. curioso (sem mão) diz:

    chame-lhe nada… mas é alguma ‘coisa’ 😉

  8. Rita V diz:

    Vou dizer à moda da minha terra!
    Adorei … adorei … adorei rico.
    ah ah ah
    sério sério

  9. Ivone Costa diz:

    Lindo, Manuel. Grande ideia a da Eugénia, ela lá sabia a quem devia atirar o cão.

  10. Ana Vidal diz:

    “um sor­riso que era uma ideia de mundo”.
    E pode alguém pedir mais? Sem uma ideia de mundo não há como dar a mão.
    Gostei muitíssimo, Manuel.

  11. nanovp diz:

    Uma verdadeira história de amor, do inferno da vida ao tocar da mão.

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