O homem que (des)amava mulheres

Evgeniy Monahov

 João Gomes de batismo, João Galdério por alcunha. Padecia de obsessão pela conquista como necessidade vital do «ser». Exorcismo contra a solidão? Assemelhado a Bertrand Morane pela dependência das mulheres – o homem que nenhuma soube amar mas a julgada essência. Uma dizia não buscar Bertrand o amor, mas a ideia que dele fazia. Outra explicava: “É difícil recusar-te os prazeres, porque pedes como se a tua vida dependesse disso.”

Entre o complexo de Édipo e a tara por pernas roliças, entre sexo em locais públicos e a paixão pela voz de uma telefonista, descobriu-se incompleto ao não conseguir amar como o idealizado comummente. Morreu na tentativa. Retrato em que Truffaut se reviu ao examinar a seu modo – também ele mulherengo – a natureza masculina. Tivesse conhecido o João Gomes e nele veria competidor do amigo Michel Fermaud, encartado femeeiro e torneira do anedotário do filme.

O João Gomes é como era Bertrand – um colecionador. No caso, de fotografias. Mais do que das mulheres com as quais se deita e põe na mira da objetiva. Começou por reuni-las em álbuns, artísticos, afirma. Recomenda a quem lhe dá ouvidos para não escolher companheira sem os desfolhar primeiro. Quando o computador se tornou batedeira das claras da vida, arquivou em pastas de bytes a arte(?) da sedução(?). Num esgar de riso, ao exibi-las, afirma rijas as carnes da Sandra, torneado deleite o corpo da Sofia, tronchudas as pernas da Lisa, caprino o olhar da Delfina, de pêra murcha as molezas da «entradota» Cristina que pendurou em saltos a trouxa de feira ao procurar glamour. Escancara das mulheres o logro, a dor, a triste condição de modelos descartáveis cujo portfólio agencia.

Abre O Homem que Amava as Mulheres a cena dum cadáver que é sepultado. Mulheres rodeiam o túmulo. Flashbacks contam do defunto Bertrand Morane a vida. Distinto do João Gomes pela poesia que, ainda assim, as mulheres lhe mereciam – “os pares de pernas femininas são compassos que em todas as direções percorrem o globo terrestre, dando-lhe equilíbrio e harmonia”.

Nota: texto há muito editado noutra, minha, chaminé virtual

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade.
No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria.
Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

8 respostas a O homem que (des)amava mulheres

  1. … ‘Quando o com­pu­ta­dor se tor­nou bate­deira das cla­ras da vida’ …
    frase divertida

  2. curioso (fume gante) diz:

    a cha miné também tem estilo, ó não?

  3. nanovp diz:

    E na morte, com a terra a cair no caixão, quem é que coleciona quem??

  4. curioso (cangalheiro) diz:

    o coveiro e o padre?

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Esses também pelo ofício.

Os comentários estão fechados.