O meu Cyrano

O texto tem quase dois anos. A história quase quinze e já passou à história. O uso do sms era uma novidade. Os amigos ainda se reuniam amiúde à mesa para discussões acesas e inflamadas para debater o fim das ideologias, longe de suspeitar que elas regressariam em força mais de uma década depois. E, naqueles tempos de muita ilusão, a tentação da sedução estava sempre presente.

 

 À sedução e às sedutoras que se ignoram, quase sempre as mais temíveis

Sublime e gloriosa é a sedução quando alcança todo o seu esplendor num céu carregado de nuvens.

Os anos 90 corriam céleres e, lá fora, o tempo sombrio facilitava o crime. Por uma boa causa, pensava eu, sentado à mesa do restaurante, enquanto iniciava uma longa série de sms dirigidos a uma misteriosa destinatária. Misteriosa para os meus convivas, que não pararam desde então de se queixar do meu desavergonhado alheamento da conversa à mesa. E misteriosa para mim também, que ignorava quase tudo sobre ela, a começar pelo amor que aí vinha. Sabia, sim, que eram muitas e escuras as nuvens que pairavam sobre a sua cabeça. A avaliar pelas reacções de adesão dela, tinha acabado de descobrir um filão. O meu Cyrano de Bergerac, David Mourão-Ferreira (DMF), à minha inteira disposição para um expediente tão divertido quanto mentiroso. Afinal de contas, o próprio DMF não podia ignorar as utilizações a que se prestavam as suas frases sobre sedução. Não olha a meios a sedução: mesmo para alcançar nenhuns fins. Era ele que o dizia. Eu, que pouco ou nada julgava saber sobre sedução, de um momento para o outro investido num poder quase sobrenatural de testar a capacidade encantatória das palavras. Era impressionante a ilusão que as palavras podiam criar – as palavras dele, e não minhas, mas a verdade é que eu próprio me convenci que a simples ideia de as ter surripiado para um fim tão nobre as fazia automaticamente minhas. Não eram quaisquer palavras, é certo, eram palavras escritas para seduzir quem estivesse disposto a lê-las à cadência de um sms por minuto, para seduzir quem quisesse ouvi-las, a ouvi-las sussurradas ao ouvido como se fossem música, como se fossem aquele raro género musical, feito apenas para os amantes, que está a uma distância de um milésimo de decibel do mais absoluto silêncio. A sedução é um dom: como o da poesia. Também tem muito ver com a música. A pintura e a escultura vêm depois. E logo eu, que não tinha nenhum dos dons, nem sequer o da sedução, pelo menos em dose suficiente para seduzir uma sedutora, recebia de mão beijada, sem pedir autorização ao autor, a arma mais eficiente, quase infalível, para vencer a timidez e insegurança que as grandes sedutoras – e ela era uma delas – inspiram a todos os que não ousam seduzi-las. Eu sabia que A sedutora mantém um despeitado respeito por quem não a quis seduzir; e um desmedido desprezo por quem não ousou seduzi-la. Mas também já suspeitava que Nem sempre a sedutora perdoa a quem por ela foi seduzido. E mais: que A sedutora pode tornar-se perigosa quando se deixa seduzir.
Enquanto a discussão dos meus convivas se acalorava à mesa – nada que tivesse a ver com sedução, apenas política, pois claro — os criminosos sms iam subindo de intensidade. Parece que a sedutora se ia deixando seduzir, à força dos argumentos de DMF. De facto, São insondáveis os desígnios da sedução. Outrora passeava-se com galgos brancos pela tela. Hoje basta-lhe sentir-se guiada por um tigre invisível. Tigre? Mas qual tigre? Um tigre invisível, sim, mas de papel, que ela, a grande sedutora, desmontaria em dois tempos assim que percebesse que aquele palavreado todo delicodoce era obra de um Cyrano, do DMF, o sedutor dos sedutores. Ainda o jantar não tinha chegado ao fim, ainda estava longe de se instalar o consenso sobre o fim das ideologias que os meus amigos estridentemente debatiam, e eis que surge, pela primeira vez, ainda que de forma muito velada, a palavra proibida. A palavra “sexo”, a tal que raramente se regista no dicionário da sedutora mas que atravessa, em diagonal, cada uma das suas páginas. Pronto, agora é que está tudo perdido, pensei eu. Nada mais fatal à sedução que o exagero da sedução.
Mas não. A sedução, com os seus insondáveis desígnios, vingou mesmo. E trouxe com ela, até, a ilusão de um amor. Graças a David Mourão-Ferreira e ao seu “Da sedução e das Sedutoras”, de 1993, a quem eu presto aqui, com a devida vénia e agradecimentos pelas frases escandalosamente usurpadas (entre outras, as acima assinaladas em itálico), uma sentida homenagem. 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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12 respostas a O meu Cyrano

  1. Iolana Vizeu diz:

    Diogo Leote, vc sabe que o adoro mas nunca, nunca, ever sou nem quero ser triste. Quero na minha vida só o que me faz rir, sonhar, amar, viver. Quanto ao seu texto, claro é genial como vc é e mude essas ideia de querer ser triste. ké isso? beijo de saudades, iolana

    • Diogo Leote diz:

      Iolana, mas quem disse que quero ser triste? Nós, aqui, tal como o Drummond de Andrade (o autor da expressão “escrever é triste”), gostamos, não só mas também, do que é tristemente belo, o que não faz de nós pessoas tristes, muito pelo contrário. Mas ainda bem que gostou do texto. Depois não diga que o DMF não a faz sonhar.

  2. curioso (alegor iando) diz:

    tristemente descoberta 😉 a desti natária das sms

    e, agora, é in sedutível que tem que a fazer sentir a alegria de ser triste your way

    • Diogo Leote diz:

      Curioso, agradeço a boa vontade mas, em matéria de sedução, tenho alguns princípios, e um deles é nunca ter a Enya como banda sonora. Quanto à grande sedutora Charlize Theron, desconfio que nem o DMF ousaria uma palavra que fosse.

  3. O DMF bem podia ser um tigre de papel, mas o Diogo, tudo lido, é o rei desta bela e humana selva. Muito bom.

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, eu não passo de um imitador de vão de escada, o meu único mérito foi ter escolhido bem o meu Cyrano.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Dizer que devorei o texto não é bajulação. Quando um escrito empolga o espírito, quais palavras outras para descrever o sentido?

  5. Muito obrigado pelas suas amáveis palavras, Maria. Mas pelo espírito empolgado, deve dar graças, sim, ao nosso DMF.

  6. Ivone Costa diz:

    Mais vous êtes un poseur, cher Diogo!
    Como se o mundo acreditasse que Vexa precisa de palavras alheias para tais trâmites … em todo o caso, DMF é sempre sublime. Conheço bem esse texto, tem lá uma linha de que gosto particularmente : “O verbo seduzir não é necessariamente transitivo.”

  7. Chère Ivone, foi o DMF que me ensinou que a sedução é, essencialmente, pose. E acredite que eu de sedução, à época, sabia muito pouco (e agora pouco mais sei) e que a rapariga é que era a sedutora. As minhas próprias palavras não seriam suficientes para tamanha empreitada.

  8. nanovp diz:

    É isso mesmo usurpar o que há de bom é apenas homenagear, vale a pena, e pode ser que seduza alguém…

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, o problema às vezes é que a sedução tem o seu reverso, que é o de as seduzidas(os) se apaixonaram não pelos(as) sedutores(as) mas por aquilo que as(os) seduziu, o que não é bem o mesmo (e, sendo a sedução uma farsa, quantas vezes não anda muito distante).

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