O Princípio e o Fim de Peter, ao Jeito de David Thomson

Era o maior cómico do mundo. E o maior egocêntrico. Um génio na tela. Um monstro insensível fora dela. Batia recordes de bilheteira. Batia nas mulheres com quem partilhava a cabeceira. Transformava os filmes em delirantes brinquedos pessoais. Destruía os brinquedos dos filhos quando diziam a palavra errada. É Peter Sellers, a suprema interrogação.

A frase mais célebre: “Havia um eu por trás da máscara, mas mandei removê-lo cirurgicamente”. Na polémica biografia de Roger Lewis, originalmente publicada em 1997, é retratado como um  infantil e imprevisível sociopata. Para se ter uma ideia mais aproximada sobre a sua personalidade, talvez seja melhor ler também “Mr. Strangelove”, de Ed Sikov. O plano final é o de um homem desesperadamente isolado, mais do que uma figura minada por destrutivas megalomanias.

 Aos dois dias de idade já estava em palco. Os pais, Agnes e Bill Sellers, eram actores de vaudeville, e apresentaram-no no final duma paródia no King´s Theatre. Baptizaram-no Richard Henry Sellers, mas chamavam-lhe Peter em memória do irmão mais velho, que morreu à nascença – é o primeiro fantasma identitário do inspector Clouseau. O renascido Peter é o que se chama de  “menino da mamã”, filho único de mãe persuasiva e dominadora. Nativo de Hampshire, frequenta a Miss Whitney’s School of Dancing em Southsea e as classes de dança de uma tal de Madame Vacani – com estes antecedentes, alguns consideram a sua heterosexualidade como um milagre. Ingressa a seguir na “St. Aloysius’ Boarding and Day School for Boys”. No início dos anos 40, aprende a tocar o banjo e o ukelele – é uma das mais paixões mais peculiares. A seguir, toca bateria em bandas de jazz amadoras, itinerantes. Completando 18 anos, em plena II Guerra Mundial, é recrutado para a RAF, onde ficará até 1946. Com os naturais dotes humorísticos, será designado comediante das forças. Quando não está em palco, dedica-se a imitar os oficiais – lembram-se do capitão de “Dr. EstranhoAmor”?

No regresso à vida civil, tenta arranjar trabalho na BBC, mas é chumbado várias vezes nas audições. Até que a impaciência e o desejo de popularidade – que a mamã não se cansará de fomentar – resolvem o assunto: telefona a Roy Speer, produtor do êxito radiofónico “Show Time”, faz de conta que é uma grande estrela da rádio e recomenda-se a si mesmo; Speer, surpreendido pela mimese, contrata-o em directo.

Com três comediantes que conhecera durante a guerra – Spike Milligan, Harry Secombe e Michael Bentine – cria “The Goons”, uma comédia radiofónica que mudará a história do humor britânico, lançando as raízes para o registo e o sucesso de uns tais de Monty Python, vinte anos mais tarde. Nas nove temporadas que o programa completa (termina em 1960), Sellers mostra ao mundo anglófilo a invulgaridade camaleónica do seu talento, desdobrando-se em personagens bizarras – Bluebottle, o Major Bloodnok, Grytpype Thynne – acesas por um humor por vezes delirante, mas sempre ligado à corrente do seu tempo. A Inglaterra revê-se nos tiques e nas misérias, exposta em infindáveis sotaques e interjeições, e adora todos os minutos.

A carreira no cinema torna-se inevitável. Ninguém se recorda de “Penny Points to Paradise”, a primeira tentativa. Mas depois de chamar a atenção em “The Ladykillers” (“O Quarteto Era de Cordas”) de Alexander McKendrick, onde o escroque Mr Robinson tenta matar, sem êxito, uma velhinha que dará guarida ao seu gang (Alec Guiness e Peter Lorre são outros dos larápios, o filme recomenda-se), 1959 é o ano da viragem. Interpreta três personagens – a Grã-Duquesa Gloriana XII, o Primeiro-Ministro Conde Rupert Mountjoy e Tully Bascombe –  no divertido “O Gato que Ruge” de Jack Arnold. Escreve e interpreta um prodígio de mímica chamado “The Running, Jumping & Standing Still Film”, dirigido por outro grande realizador britânico, Richard Lester (a curta-metragem será candidata a um Óscar no ano seguinte). E ganha o apreço dos compatriotas como Fred Kite, o líder laboral de “I’m Alright Jack”.

É o sucesso nos E.U.A. de “O Gato que Ruge” que lhe permite ascender ao estrelato no ano seguinte. Vê-se escolhido como protagonista de “The Milionairess”, ao lado da maior paixão não correspondida da sua vida, Sophia Loren. Há apenas um problema: Sellers cria a ilusão de que o amor é mútuo e, de acordo com a biografia de Roger Lewis,  acredita tanto nisso que termina o casamento com Anne Howe (dois filhos) por causa do putativo ‘affair’. É uma cena terrível do decepcionante telefilme “A Vida e Morte de Peter Sellers” (Stephen Hopkins, 2004): o actor, interpretado numa fúria perfeccionista por Geoffrey Rush (percorre trinta anos e mais de quarenta vozes de personagens), diz à mulher e aos filhos que se vai separar deles por causa da diva italiana. A filha pequena pergunta-lhe “Papá, já não me amas?”, Sellers responde: “Claro que amo. Mas amo mais a Sophia Loren”.

 O sucesso crítico das colaborações com Stanley Kubrick (“Lolita”, a partir do romance de Nabokov” e “Dr. EstranhoAmor”, o mais original panfleto contra o absurdo da Guerra Fria), aliado ao êxito popular dos idílios com Blake Edwards (o magnífico “A Festa”, as fitas de “A Pantera Cor de Rosa”), não o impedem de se auto-condenar à insatisfação perpétua, e a um progressivo isolamento. Orienta boa parte da carreira, e da vida,  segundo os conselhos de um “medium”, Maurice Woodruff. Acredita que algumas cores lhe fazem mal – sofrendo de problemas cardíacos, tem o primeiro ataque de coração nos anos 60, antes de sucumbir em 1980, com apenas 55 anos.

Durante a rodagem do filme derradeiro, “Benvindo Mr. Chance”, proíbe o elenco e a equipa técnica de usar roupas verdes e púrpura. Até na morte é controverso: mantendo a coerência do egoísmo, deixa dois mil dólares a cada filho após arrecadar milhões no cinema; também mantém o sentido de humor – em testamento, ordena que toquem “In the Mood” de Glenn Miller durante o funeral ( os amigos sabiam que detestava o tema).

 Tinha a ambivalência do génio, exposta num talento ímpar para o burlesco, o “slapstick”, o humor físico – as aulas de dança fizeram-lhe bem -, como provam o irrecuperável desastre humano que é o inspector Clouseau na saga “A Pantera Cor de Rosa” (aconselha-se “A Shot in the Dark”) ou o indiano Hrundi V. Bakshi em “A Festa”, uma das poucas figuras da história do cinema capaz de ressuscitar alguém pelo tsunami da gargalhada.

O engenho para criar personagens opostas entre si é , aparentemente, inesgotável. Basta lembrar o triplo papel de capitão da força aérea, presidente dos Estados Unidos e cientista de escola nazi em  “Dr. EstranhoAmor”. Os dotes de imitador são igualmente superiores: foi a voz de Winston Churchill em “The Man Who Never Was” (poderia ser um bom nome para uma biografia sua), glosou Humphrey Bogart em algumas linhas de “Beat the Devil”, fez de papagaio em “Our Girl Friday” e, em “Malaga”, dobrou a voz de catorze dos actores, tanto masculinos como femininos – numa das cenas, onze das suas personagens travam animada conversa.

 Poderia ter sido um grande actor dramático. Na primeira colaboração com Kubrick, em “Lolita”, interpreta dois papéis, o argumentista de televisão Clare Quilty e Dr. Zempf, psicólogo de liceu. Empresta a ambos uma vertigem de ameaça e  certas doses de perversão. Chauncey Gardiner de “Benvindo. Mr. Chance” (Hal Ashby, 1980),  jardineiro encerrado em casa do patrão após a morte deste, autor de parábolas botânicas que o levam a ser confundido por grande estratego político, é um prodígio de “underacting”, nos antípodas da imagem exuberante.

A última personagem é, talvez, a mais próxima da identidade do actor: como Gardiner, Sellers era um tipo solitário. Desesperadamente solitário.

 

And now what?

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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9 respostas a O Princípio e o Fim de Peter, ao Jeito de David Thomson

  1. Rita V diz:

    Por segundos achei que ía ler um post sobre a ‘incompetência’ de PS para o dia a dia.
    Afinal foi um belo passeio ao passado.

  2. nanovp diz:

    Delirante a personagem, magnifico o texto, tanto que não sabia, tanto para ver ainda…revi Dr Strangelove onde Sellers é grande, nada se perdeu com o tempo.

  3. Era uma figura esguia, o PS, amiga Rita. De facto há muito a descobrir nele, e dele, Bernardo.

  4. curioso (voyeur ó logo) diz:

    era mesmo egoista: partilhava com elas só a cabe ceira e ainda as aproveitava para andar à cabe ceirada: não desper diçava nada 😉

  5. Este texto fez-me perder um ilusório privilégio: pensei que era a única pessoa neste mundo que achava The Party uma obra-prima…

  6. Temos que vê-la juntos. Talvez seja a minha comédia favorita. E era bom partilharmos isso com os nossos camaradas escritos e tristes.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Até que enfim reconheci nesta viagem filmes da minha vida!

  8. Parece-me que o “The Party” está a exigir uma festa…

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