Os passos atrás

Paisagem com Orfeu e Eurídice. Poussin

Às vezes vem alguém e diz, ai que chatinha, sempre com essas conversa de deuses e de mitos. Olhe para o que lhe havia de dar, não tem mais que fazer? Lá ter tenho, mas cada um defende-se do quotidiano como pode. Andava eu à procura já não sei do quê com dei com este Poussin e me lembrei de que já tinha escrito e perdido, pois que muito perco do que escrevo, triste sina, meia dúzia de palavras com esta imagem a encimá-las. Só encontrei umas sobras e juntei-as e deu assim, prometo que um dia me faço linda e arrumo a casa.

Vi então Eurídice que caminhava silenciosa atrás de Orfeu num quadro de Poussin. A história de Orfeu, o poeta cujo canto mavioso detinha os animais ferozes e movia as pedras, toda a gente conhece. Após a morte de Eurídice, obtém dos deuses o favor de ir aos Infernos e de lá a trazer de volta ao mundo dos vivos. É aqui, precisamente, que começam as minhas dúvidas porque a voz dela não a consigo ouvir, abafada pelos harpejos da lira de Orfeu. É suposto que não se sentisse bem entre os mortos. A mitologia mediterrânica traz-nos, de uma certa forma, essa ideia. Eneias é o único herói que aparece a desejar a morte.  Na Odisseia, pelo contrário, quando Ulisses chega junto da sombra de Aquiles e lhe inveja a glória que, perene, lhe permitia ser rei entre os mortos, o Pelíada resmunga que antes ser o mais humilde dos escravos na terrena casa do pai do que rei ali, entre os sonhos das trevas.(11. 478-491)

O Hades não era, pois, sítio aprazível para os antigos e Eurídice não deve ter sido a excepção, mas o certo é que Orfeu vai por ele, vai em busca de Eurídice que lhe falta, falte-lhe ele a ela ou não. Hábito frequente é este entre os mortais: fazer em nome do outro o que queremos fazer por nós, ou para nós. O mito de Orfeu é também um mito da introspecção, a descida ao que de mais profundo possa trazer o que mais se quer. Torga percebeu-o num dos poemas do Orfeu rebelde: Desço aos Infernos/a descer em mim.

De Orfeu e Eurídice se diz esta história, mas é muito mais de Orfeu.

Certo é, e para encurtar razões, que lhe estipularam um preço para o resgate de Eurídice: percorrer todo o caminho sem olhar para trás, para a amada que o seguia em silêncio. Se olhasse, não veria mais do que uma sombra a desfazer-se em nada e para sempre a havia de perder.

Durante grande parte do percurso, manteve-se imperturbável, de olhar fixo na saída, sem ouvir os passos dela. Nem os podia ouvir, que caminhavam em mundos diferentes e não se ouve o eco dos passos no empedrado de caminho alheio. Dos pensamentos de Eurídice durante esta viagem não reza o mito. Poderia estar bem, posta naquele sossego eterno, livre do mundo e do seu girar. Pode até ter encarado aquela chegada inesperada como uma grande maçada e ter dito como Ricardo Reis: Não só quem nos odeia ou nos inveja/Nos limita e oprime; quem nos ame/ Não menos nos limita.

Quase, mesmo quase a transpor a fronteira que separa a morte da vida, Orfeu não resistiu e virou a cabeça para ver a mulher de quem não ouvia os passos e cujo rosto lhe tardava.

Enquanto desaparecia para sempre, Eurídice pode bem ter pensado:

“Uf! Estava a ver que nunca mais.”

 

 

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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7 respostas a Os passos atrás

  1. teresafont diz:

    Bom dia Ivone,
    Tão bonitos e tão bem escritos, tão bons de dar estes passos que fui embalada e só no desopilante final é que voltei mesmo atrás, a ver os muitos “pois…”. É da gente se lembrar que Helena também andou para cá e para lá, morreu meio mundo, caiu Troia , só a ela é que ninguém perguntou nada. E, Roth dixit , o Aquiles não largava a rapariga, não largava porque não, ou porque sim,e que fosse tudo raso e a Briseida, que acharia de lhe desengonçarem as articulações à força de puxar?
    Li uma Medeia que não matava nada os filhos, pegava mas era neles e ia-se embora daquela terra de tarados e o Jasão que ficasse com a outra. Gostei.
    Assim como a Ivone faz, só por hipótese, pois claro, dava-se uma volta a uma histórias mal contadas. A Penélope a ter que se enfiar em escamas prateadas todas as noites por causa de umas fantasias com que Ulisses andava, assim a la “As 50 sombras de Homero”.
    Desculpe que estou a disparatar. Gostei muito, mesmo muito,

    • Ivone Costa diz:

      Teresa, muito obrigada pela sua atenção e obrigada. O que os mitos têm de bom é poder a gente dar uns passos para trás e para diante 🙂

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Conversas de deuses e mitos são conversas de gentes. Ora, observadora pela matriz, de todas recolho ensinamentos. «Chatinhas»? _ Nem um pouco!

  3. curioso (anti mito) diz:

    gostava de ter matriz (ou matriz gostaria de me ter?) mas para mitos já bastam os da e cono mia 😉 que fazem com que os Passos sejam perdidos e nos tornem no Senhor dos ditos 🙁

  4. Ivone, não deve ser fácil viver com um tipo que toca lira. Ainda por cima um tipo que toca lira de uma maneira que até a bicharada fica suspensa (o horror de ter um bando de andorinhas em cima da cabeça sem se mexerem – deve ter sido a pensar nisso que o Hitchcock filmou os Pássaros, o filme mais anti-órfico que conheço). É por isso que a sua Eurídice é a mais vivaça e esperta Euridíce que conheço. O mais certo é ter sido mesmo ela que, a chegar ao limiar, disse: “Pssstt”

    • Ivone Costa diz:

      O que eu já me fartei de rir com o seu comentário, Manuel Fonseca. Convenhamos que, se já não é fácil viver com um tipo, se é com um cujas citaradas imobilizam tudo o que voa e movem o que é de pedra, imagino o tédio apavorado. Ainda por cima poeta, que já se sabe que não são gente boa para acompanhar.
      O pormenor do “psstt” é que me faltava neste meu raciocínio 🙂

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