Outra ideia de Europa

Baronesa do Freixo. Auguste de Roquemont. Museu Soares dos Reis. Porto

Quando estive, faz uma eternidade, no Museu Soares dos Reis, fiquei presa neste retrato. Em baixo na moldura, a placa indica “Augusto de Roquemont – Baronesa do Freixo”. Uma baronesa oitocentista sentada, composta, num récamier carmesim vestida de veludo verde profundo. Um rendilhado orla o decote em barco do vestido de onde saem duas golas sobrepostas, com um ligeiro bordado ton-sur-ton. A senhora baronesa não tem os traços finos das casas antigas nem são de família as jóias que ostenta num quanto baste discreto. Brincos pequenos, um peitoral, duas pulseiras e a aliança. E o lenço, sim. O lenço de renda sumptuosa, que o senhor barão deve ter dinheiro, e a estola de arminho. A estola que é o único excesso, como se a baronesa tivesse atentado em todos os pormenores que pudessem revelar o novo-riquismo e o dinheiro que o marido trouxera do Brasil e aquele pequeno nada tivesse denunciado, como diriam os amigos de Afonso da Maia, que não lhe tinham morrido avós em Aljubarrota. Ah! Adiantei-me na história e não queria. Que, nestas coisas que metem muita gente, convém que não nos percamos porque não queremos o leitor a bocejar de enfado.

Voltemos então ao Soares dos Reis. O quadro é muito belo, sobretudo pela força dos contrastes. O contraste das cores, a compostura da figura num ambiente doméstico, os traços do rosto, os traços fortes de um rosto menos belo do que o vestido.

Por um qualquer motivo que não percebi na altura, aquele quadro fazia-me lembrar estoutro de Margarida de Áustria, já imperatriz do Sacro-Império, de luto pela morte do pai, Filipe IV, pintado por Juan del Mazo, genro de Velásquez.

Passaram dez anos sobre Las meninas. Margarida tem 15 anos. O pai, Filipe IV, morreu em Setembro de 1665 e, em Dezembro do ano seguinte, casou com o tio, Leopoldo I da Áustria. Nesse fim de ano de 66, del Mazo retratou-a assim. Os crepes do luto pela morte do pai substituíram as saias de anquinhas da corte espanhola e os penteados tufados, entremeados de florinhas vermelhas, deram lugar a duas tranças resignadas. Já não é a infanta na limpidez do seu mundo infantil. É Margarida Teresa de Áustria, imperatriz do Sacro-Império. Mas, lá ao fundo, o pintor deixou o quadro dentro do quadro, o passado dentro do presente, figurinhas espectrais esbatidas. Mari Bárbola? Pertusito? O irmão Carlos? A imperatriz segura o lenço de cambraia e rendas sobre a cadeira, abandona, contida, o braço ao longo do corpo e olha em frente.

Depois, sucedem-se os filhos que nascem e não sobrevivem, as gravidezes mal sucedidas. Morre em Viena, aos 21 anos. E sobre a morte dela não haverá lamento do duque de Gandia.

Da escola espanhola seiscentista ao romantismo português vai uma grande distância, do Prado ao Soares do Reis também. Mas George Steiner em A Ideia de Europa diz que a Europa é um continente que se pode percorrer a pé. Talvez por me lembrar disso, eu achei que haveria de perceber, mais dia, menos dia, por que razão aqueles dois quadros se cotejavam no meu pensamento. Algum caminho me levaria lá.

Comecei, então,  a puxar os fios deste novelinho.

A senhora no retrato nasceu Laurinda Ribeiro Lousada e casou, aos 14 anos, com António Afonso Velada, abastado comerciante do Porto que fizera sólido pecúlio no Brasil. Tão sólido que lhe permitiu comprar, por quinze contos, o palácio do Freixo em Campanhã, desenhado por Nasoni para o cónego D. Jerónimo de Távora e Noronha e que, na altura da venda, já pertencia a um seu descendente, Jorge António Salter de Mendonça.

Não tardou António Velada a fazer obras de fundo, enfim com mais fundo do que gosto: o salão árabe, o salão chinês e outras sumptuosidades evitáveis. Na frontaria, mandou retirar o brasão dos Távoras e colocar um outro com as armas que para si escolheu. Em 1865, por carta régia do rei D. Luís, é feito Barão do Freixo e em 1872, por mercê do mesmo senhor, Visconde do Freixo. De ambos foi primeiro e único titular, porquanto não sendo títulos de juro e herdade, nem tendo sido renovados, não passaram aos herdeiros.

Das muitas festas no palácio do Freixo falou-se longamente no Porto. Quando, em 1872, D. Luís e D. Maria Pia se deslocam à cidade, é no Freixo que ficam hospedados.

Regressemos ao quadro? Augusto de Roquemont foi, sobretudo, um extraordinário retratista. Nasceu em Genebra, filho do príncipe Friedrich August von Hesse-Darmstadt. A mãe, não se sabe quem tenha sido. Este príncipe era uma figura de novela, um aventureiro em busca da glória das armas. Provavelmente por ter conhecido D. Miguel em Viena, decidiu vir para por Portugal oferecer o seu braço à causa absolutista e encher-se de fama. Há registos da sua presença, perto de Braga, em 1828. Nesse mesmo ano, manda vir para Portugal o filho, a quem sempre custeara os estudos artísticos. Permanecem juntos por pouco tempo, pois o príncipe de Hesse-Darmstadt, vendo que a glória lhe fugia, foi-se embora por essa Europa acima. Augusto de Roquemont fica e há-de morrer no Porto em 1852, com 48 anos, estimado por todos.

Se nesta coisa das datas as minhas fontes estão certas, Laurinda Ribeiro Lousada, nascida em 1830, não poderá ter mais de 22 anos na altura em que foi retratada e ainda não era baronesa. Era uma senhora muito rica do Porto, imagino-a contida e discreta, a receber a modista e a bordadeira ou a ajoelhar, ajeitando em redor a saia de talhe perfeito, na missa da Sé.

Em 45, nasceu-lhe uma filha, Laurinda Velado, da qual terá um neto que morrerá aos 30 anos em Lamego.

Em 49, nasce o segundo filho que não lhe dará netos, António Afonso Velado Jr. que casará com Maria Camila Ernestina de Saldanha e Daun, trineta do Marquês de Pombal e de Leonor Ernestina, condessa de Daun, que em 1745 abandonará a Viena natal para vir residir para sempre em Portugal com o marido que abandona o cargo de ministro plenipotenciário na corte austríaca.

Leonor Ernestina, segunda mulher do ainda apenas Sebastião José Carvalho e Melo, desce uma estrada da Europa, quase a mesma estrada que Margarida Teresa de Áustria, infanta de Espanha, subira, oitenta anos antes em direcção à corte austríaca para casar, aos 15 anos, com Leopoldo I, imperador do Sacro-Império, seu tio.

No retrato de Laurinda Ribeiro Lousada, não há nada por detrás da figura. Ela senta-se sobre veludo, vestida de veludo, segura o lenço de rendas e espera, paciente e digna, que Augusto de Roquemont a pinte sobre a tela e lhe dê um recanto na eternidade.

Por detrás de Margarida de Áustria, Juan del Mazo pintou aquelas figurinhas espectrais. Tão diferente e tão semelhante ao quadro de Velásquez, o quadro dentro do quadro. Mas em del Mazo já não há espelhos a reflectir os reis, só há a memória de Margarida lá no fundo, o bobo, a anã, a camareira. Maria Agustina Sarmiento e Isabel de Velasco, Las Meninas, já não se debruçam solícitas para a infanta. A imperatriz está luto pelo pai que lhe morrera há menos de um ano. E viverá de luto até morrer aos 21 anos: dos quatro filhos, só uma sobrevive e o futuro imperador, José I da Áustria, será filho do terceiro casamento de Leopoldo I, com Leonor Madalena, condessa palatina de Neuburgo.

Quando o visconde do Freixo morre, a viscondessa vende o palácio. Casará de novo, aos 51 anos, com o visconde de Santo Ambrósio. E não haverá geração.

Que têm Margarida Teresa de Áustria, infanta de Espanha, imperatriz do Sacro-Império, e Laurinda Ribeiro Lousada, viscondessa do Freixo, em comum?

Nada. Tudo. A Europa é um continente que pode ser percorrido a pé. Qualquer estrada real pode ir dar à rua da Cedofeita e a Avenida da Boavista pode desembocar nas portas de Brandemburgo.

(texto repristinado)

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.

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14 respostas a Outra ideia de Europa

  1. Ruy Vasconcelos diz:

    bom, parece que no caso: nada. comparar estes dois retratos é o quê? uma blasfémia, gentil ivone, mesmo num texto delicioso como o seu. o segundo bota o primeiro no bolso e não pede troco. (troco estético, vá perdoando a falta de jeito). mas quem sabe a roquemont reste uma possibilidade: embarcar no primeiro veleiro no cais de belém e tratar, célere, de recobrar as finanças combalidas no brasil – onde mais? – porque o mar não está para peixe, como se sabe, e os alemães que pensam essa pan-europa de uma perspectiva menos gentil – e possivelmente menos corrida a pé em contiguidade – já se encontram para além das fronteiras das finanças, redigindo os termos da pacífica – mas não menos dolorosa – anexação do continente sob tutela teutônica: europa? schön!

    • Ivone Costa diz:

      🙂 Ruy queridíssimo, eu sei bem que nada e que o segundo bota o primeiro no bolso nas calmas. 🙂 Mas eu gosto da ideia de Europa: que hei-de fazer se a decadência tem um charme que só visto? E, calma, escrevi Brandemburgo como podia ter escrito Fontana di Trevi. Nada preconizo.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    tanto gentile e tanto onesta pare.
    ah, a fontana di trevi já cai muito melhor que a marcialidade de brandemburgo – cujo único mérito: nos lembrar (muito vagamente) de bach: essa outra melhor ideia de europa.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Gostei muito de ver a lembrança do passado, respeitosa, um passo atrás do presente e do luto da imperatriz. Bem pensado, ainda mais bem escrito.

    • Ivone Costa diz:

      Eu gosto muito deste quadro de del Mazo precisamente por isso, pelo que está lá atrás. Obrigada, Manuel.

  4. filipe diz:

    E eu que que não percebo nada de arte, muito pouco de história, cada vez menos de Europa, fui me sentindo cada vez mais pequenino ao correr dos parágrafos deliciosamente escritos.

  5. Curioso. Passei o Natal de 2011 no palácio do Freixo. No fim da refeição de uma estrela Michelin – justa, fora os atrasos – fui fumar um cigarrito na varanda glacial, com vista estrepitosa. Mas não vi a viscondessa. Deve ter sido levada nesse segundo por uma rabanada de vento. Degustei, Ivone.

    • Ivone Costa diz:

      Pois é, Pedro, há fantasmas que vão com as rabanadas de vento e não há como retê-los. Thanks.

  6. nanovp diz:

    O que os une é a História da Europa, que se percorre a pé, sentado a ler , ou a olhar os quadros escondidos atrás dos quadros…

  7. Álvaro diz:

    Também fico preso a este retrato sempre que vou ao Museu Soares dos Reis. Só os quadros do Leonardo e do Vermeer (a forma como trabalha a luz) me prendem da mesma forma.

    Mas Roquemont nasceu em Génova ou Genebra? A propósito o seguinte texto de António Vilarinho Mourato:

    São hoje dúbias as origens de Augusto Roquemont. Provavelmente filho do príncipe Frederico de Hesse-Darmstadt(17?-1867), nada se conhece a respeito da mãe. Aquele que viria a protagonizar um dos papéis cimeiros da arte em Portugal de Oitocentos, nasceu em Genebra, a 2 de Junho de 1804 e realizou, a expensas do pai, as suas primeiras aprendizagens em Paris, num colégio interno, digerindo noções de latim, grego, geometria, etc.
    Mais tarde partiu para Itália, onde se dedicou ao estudo das belas-artes. Roma, Veneza, Bolonha, e Florença, foram destinos que escolheu, pensionado sempre pelo príncipe de Hesse.
    (…)
    Roquemont embarcou em Génova no dia 8 de Julho de 1828, tendo chegado a Lisboa a 24 de Agosto.
    in Revista da Faculdade de Letras
    CIÊNCIAS E TÉCNICAS DO PATRIMÓNIO
    Porto, 2003
    I Série vol. 2, pp. 183-198

    • Ivone Costa diz:

      Caro Álvaro

      Muito obrigada pela atenção do seu comentário. Roquemont nasceu em Genebra. Assim o dizem também Júlio Brandão (O pintor Roquemont, Lisboa, 1929), F. Pamplona (Dicionários dos Pintores e Escultores, III, Lisboa, 1957) e José Augusto França ( A Arte em Portugal no Século XIX, Lisboa, 1967).
      É nisto que dá discorrer com ligeireza sobre matérias em que não somos sabedores. 🙂 Vou corrigir.

  8. Ana Morais diz:

    Peço desculpa mas devo fazer uma pequena correcção mas importante. Este quadro que aqui apresenta não é o da Baronesa do Seixo (e não Freixo, como erradamente está indicado). Este é o da irmã que actualmente pertence a colecção particular desconhecida, pois foi vendido em leilão num antiquário. Esta senhora é D. Camila Amélia Ribeiro de Faria (Irmã da Baronesa do Seixo). O retrato da Baronesa é muito parecido e muito lindo e cativante, sim, também pintado por Roquemont e deve ter obedecido ao mesmo gosto de ambas irmãs. No entanto, a Baronesa encontra-se sentada numa chamativa cadeira estofada num intenso azul que contrasta com a brancura da sua pele e com o negro do seu vestido. Apesar da reprodução que o museu faculta não ser de boa qualidade, aqui a junto.
    Ver; http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=308715

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