Portugal à hora de almoço

boné de pala na cabeça

 Saí para almoço ali mesmo ao lado. Subi a rua, pedreiros de uma obra, a ponta dos dedos numa ociosa pririsca, sentados no chão, uma porta depois da farmácia. Três passos à frente, um velhote, pobreza digna, boné de pala na cabeça, levantou um jornal na mão e cantou: “Jornal o Avante, saiu hoje.” Tinha o “Avante” numa mão, na outra as cautelas da lotaria nacional.

Não sei se futuro ou passado, vi Portugal à hora de almoço: um velhote de camisa limpa, cansado e ligeiramente oscilante, o “Avante” numa mão, a lotaria na outra.

cautelas e camisa limpa

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a Portugal à hora de almoço

  1. Diz muita coisa em poucas palavras. Assusta-me que o futuro de Portugal possa ser feito dessa pobreza, ainda que digna (vejo-a quase diariamente nas escadas do metro). E fui muito triste a escrever isto.

  2. Panurgo diz:

    Pobreza digna? Com certeza…

  3. Se tivesses um tio na América, é melhor que lotaria (não sei se é melhor que o Avante):

  4. Rita V diz:

    Se lá voltar hoje tem ‘O Sol’ .

  5. curioso (só lava) diz:

    amanhã: Sol Avante
    🙁

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Encheram-me as medidas as ilustrações. Colecionadora me declaro para melhor entendimento.

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