Retrato de um Escritor

São vinte e seis desenhos, abstractos, quase rabiscos, mas que contam uma história, ou melhor uma ideia de uma história, ficcionada por outro que não o autor dos desenhos. São sobre o escritor James Joyce, mais precisamente sobre a personagem Dedalus, e foram desenhados por Robert Motherwell. A série foi exibida e ficou documentada num pequeno livro intitulado: “The Dedalus Sketchbooks”.

Foram feitos num bloco de esquissos, sem nunca terem sido retocados, ou alterados. Robert Motherwell disse sobre estes desenhos que “não quis ilustrar Joyce”, frase que ecoa o espirito de uma época em que a ilustração ou representação ainda simbolizava um passado recente menos admirado por parte de Motherwell e dos restantes e  distintos membros da “New York School”. O que me leva a pensar que não será fácil fazer uma representação abstracta, passo a contradição, de um escritor. O facto de não serem pinturas tem também algo a ver com o resultado. Motherwell assinala de forma clara e sucinta a diferença entre o acto de pintar, que inclui para ele a escala grande e a revisão sobre revisão; e o esquisso no bloco de notas (vício supostamente adquirido por influência do surrealista e amigo Chileno Roberto Matta), para o qual definiu apenas uma única regra: “no revisions”. Olho mais uma vez e consigo entender a representação de uma ideia, não a ilustração da personagem de Joyce, não o retrato de Dedalus. É uma obra distinta e válida em si própria, por si só. Imagino Motherwell e as horas passadas a ler Joyce na ainda pacata Provincetwon, onde tinha um atelier que usava nos tempos quando o calor obrigava à mudança dos ares de Manhattan.

o longo areal

Das vezes que passei por aqueles longilíneos areais claros, sobre uma água que tende a ser azul prateada, senti o cheiro das tintas remexidas e misturadas de tantos pintores que ali se refugiavam. Nos desenhos, para além de Joyce vejo um pouco desse Cape Cod, dessa Provincetown, talvez pela textura de mel das folhas do bloco, ou da tinta sépia que o pintor utiliza nos desenhos (que infelizmente não se nota bem  na reprodução aqui apresentada).

Elegiac, 1982

Não sei se é possível representar ou ilustrar Joyce, estes desenhos parecem-me mais uma bela homenagem a um homem que com palavras transformou o mundo e a própria pintura. O desenho como elogio da palavra.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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6 respostas a Retrato de um Escritor

  1. Olhando bem, acho que sim, que no esquisso se vê Joyce. Dédalo.

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    O desenho, a pintura, a escultura são palavras outras que o traço do carvão, dos óleos ou equivalentes, do cinzel desenha. E gostei deste seu desenho.

    • nanovp diz:

      É verdade, cada um a sua idiossincracia… Calculo que se refere ao “desenho” do texto, os outros gostava de os ter em casa….

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