Sei porquê hoje

Heather Neill

Lembro a Lúcia.

Lembro o seu acordar madrugador.

Lembro a irrepreensível mesa posta para o desjejum da família muito antes dos outros «acordares».

Lembro as lareiras ateadas cedo, não enregelasse quem nascia para dia invernoso.

Arrumada a cozinha, feitas camas, arejados espaços, lembro o xaile e o lenço de lã e a seira para compras do constante no rol. Fascínio era a chegada e o retirar do mercado mimo/certeza. Por ele esperava na ânsia de saber o quê. Ao vislumbrá-lo na seira, era o riso em surdina de ambas, não fosse espevitada repreensão das matriarcas.

Lembro.

Lembro as mãos hábeis no picar da cebola, no corte da couve tronchuda, a fina pele separada das batatas e cenouras e nabos nos preparos para o almoço.

Lembro o arroz de bacalhau saído do forno a lenha. Apetites mais servidos com o amor de quem à família pertencia e, servindo, era servida com respeito e afeto.

Lembro esmeros no polimento dos metais, a entrega ao madeirame dos soalhos se pedinchavam cera.

Lembro deslizar tardes com a Lúcia que trocava o diário tempo livre pelo catar de ervas daninhas e plantio de açucenas, jacintos, despedidas de verão sendo das espécies o tempo. O recorte do jardim roubado ao terreno agrícola era quadro de naturezas vivas onde me perdia ao ajudar a Lúcia. Enquanto isto, a família cochilava ou não fosse da sesta a hora.

Lembro a merenda degustada pelas duas no banco sob a nogueira em que, num dos braços robustos, oscilava baloiço durando férias da menina a partir do nascer desterrada na cidade longe.

Lembro o declínio que os anos trazem. Mortes, dores e saudades. Pela frágil saúde, a Lúcia mal saía do quarto. Servida como servira.

Lembro-me sentada à beira dela, escrevendo memórias nas falas.

Morreu em casa, num ‘dia santo de guarda’. Parte de mim com ela.

Nota: texto inspirado em lembranças que a pintura de Heather Neill chama.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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12 respostas a Sei porquê hoje

  1. Rita V. diz:

    Mª do Céu lembrei-me da Maria. No tempo em que Maria era nome de criada. Do arroz de manteiga com ovos mexidos de manhã antes de ir para o colégio.Lembro-me de como corríamos a descobrir as revistas (proibidas lá em casa), escondidas debaixo da cama. Lembro-me da Maria como se fosse hoje.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      E não é que quase todas eram Marias, de qualquer coisa ficava esquecido pelos patrões, ou não fosse esse o nome da Senhora Mãe de Jesus que a fé impingia às neófitas…

  2. nanovp diz:

    Lembrar é também, e sobretudo, viver.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Testemunho de vida, sim, prova de que ainda somos. Olhemos os idosos e as muitas lembranças que acumulam. Tantas escrevi enquanto a conversa corria! Algumas da Lúcia constam de cadernos bem guardados.

  4. Panurgo diz:

    Estes assomos estilísticos de Whitman e de Pound não ficam bem a uma mulher. A cada substância a sua forma.

  5. curioso (não de tido) diz:

    e a um homem, certa mente

  6. Ah, Lúcia, aquele arraoz de bacalhau…

  7. curioso (ja cinto) diz:

    o arroz de ba calhau no forno ainda não foi ex peri mentado… ‘des­pe­di­das de verão sendo das espé­cies o tempo’ vão ser transformadas para a próxima época… ‘ou não fosse da sesta a hora’ foi luxo doutros tempos… concluo que ficam bem a quem calha, desde que quem calha goste (e gaste) 😉

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Tão mauzinho! 😉

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