Uma noite no sótão: com Coppola e Lucas

Voltei ao meu sótão infecto. Entrei numa gaveta que dizia Dezembro de 1988 e encontrei lá dentro, juntos, Coppola e Lucas. Lembro-me agora, foi em Paris. O meu amigo Guillermo Vilela, um argentino transbordante, fotografou-os e eu entrevistei-os, aos dois, ao mesmo tempo, durante umas boas duas horas. Foi mais uma conversa do que uma entrevista clássica. Atropelavam-se e interrompiam-se, como muito bem lhes apetecia. A17 de Dezembro saiu tudo no Semanário que era então dirigido por Vitor Cunha Rego.

 

David e Golias em Hollywood

 

Quando Coppola entrou no hall do Lancaster Hotel, em Paris, toda a gente se calou. Num canto do salão havia um trem com bolos. Com ar de menino mimado, Coppola abraçou-se ao trem e ameaçou fugir com ele. Depois virou-se para os acompanhantes e largou uma gargalhada.

Pensei que estava dado o tom. Enganei-me. Logo que a entrevista começou, enterrou o corpo wellesiano no sofá e jogou à defesa. Eu era o inimigo. Tornou claro que pensa da Imprensa o que um português pensa de Espanha: nem bom vento …

Tem as suas razões: os ventos da Imprensa americana custaram-lhe 50 milhões de dólares quando lhe arruinaram a carreira de Hammett e de Do Fundo do Coração. Acabada a entrevista, mudou como da noite para o dia. Cantou-me ópera cubana, ofereceu-me um desenho e despediu-se em português: «Obrigado». «É a origem do harigato japonês, não é?» disse-me com ar de entendido. A gesta dos descobrimentos subiu-me à cabeça. Contei-lhe que tínhamos sido nós a dar as primeiras armas de fogo aos japoneses. «E eles responderam: harigato,” intrometeu-se George Lucas.

Lucas é tão pequeno como se diz. Mas é muito maior do que eu pensava. Tinha-o visto dar uma entrevista na América e parecera-me sorumbático. O ar outonal de Paris espevitou-o. Fez-me beber vodka atrás de vodka. Simpatizei com ele. Também, verdade se diga, nunca tinha entrevistado ninguém que andasse com 30 milhões de dólares como pocket money.

Nada nas declarações de Coppola ou Lucas respira escândalo. Limitaram-se a afirmar com veemência que há «nós» (os dois mais Spielberg) e há «eles» (os produtores burocratas de Hollywood). Limitaram-se a afirmar ferozmente que a indústria está condenada se não se abrir à «new idea» de que fala um filme como Tucker. E a «new idea», o sonho de Coppola e Lucas é um cinema variado, inteligente e sofisticado, um cinema de que «falemos como uma coisa grande e não apenas como Ghostbusters».

Ainda será possível? Parafraseando um poeta, saberão eles quantos séculos de inteligência são precisos para repor em termos justos o que foi desvirtuado por alguns anos de concertada estupidez?

MSF: Mister Lucas, foi fácil financiar Tucker?

George Lucas: De modo nenhum. Passámos um mau bocado para reunir o dinheiro. Tucker foi financiado mais pelos distribuidores locais do que pelos grandes estúdios de Hollywood. E um fIlme demasiado arriscado e corajoso para a indústria cinematogrãfica americana.

MSF: Porquê se é sobre um americano lendário?

Francis F. Coppola: Mas não é uma comédia, nem um filme de acção.

GL: Claro. É nessas categorias que eles investem. Em Pesadelo em Elm Street, Rambo ou Crocodilo Dundee

MSF: Produzir filmes é um negócio, mas o senhor decidiu fazer do negócio uma questão de amizade, produzindo Tucker a Coppola?!

GL: Bom, a coisa funciona. Acabo de fazer três filmes com amigos chegados: Willow com Ron Howard, Roger Rabbit com Steven Spielberg e Tucker com Coppola. Conhecemo-nos há mais de 20 anos e é fácil haver respeito mútuo, sem ser preciso andar a impor as nossas ideias a ninguém. Se eu quisesse ser realizador poderia sê-lo. Já o fui. Não tenho que me preocupar com isso. O meu trabalho é arranjar o dinheiro e ajudá-los a fazer o melhor filme possível, protegendo-os de todas as loucuras que possam surgir, de forma a que possam exercer toda a sua criatividade. A amizade? Só lhe posso dizer que uma coisa que muito me gratifica é que Francis Coppola tenha produzido o meu primeiro filme.

MSF: «Eu acredito na América». Era assim que começava o Padrinho. Tucker será uma nova faceta da sua crença no sonho americano?

FFC: É um filme sobre uma jovem geração, uma geração idealista que quer introduzir mudanças e inovações onde uma geração mais velha quer conservar e manter posições. Pode interpretar-se Tucker de muitos modos: É uma velha problemática: alguém chega com uma ideia competitiva a um meio onde há pessoas que têm todo o poder para o parar.
Tucker é um filme político. Tento mostrar que as pessoas criativas não podem nem devem parar, mesmo que o seu trabalho vá contra tudo. Uma ideia nunca se pára. Acredito nisto com todas as minhas forças.

MSF: Em Tucker regressam, os seus grandes temas, a família e o poder. Mas a sua abordagem parece agora mais optimista. Claro que, no filme, o poder ganha, mas a família não sai destruída e Tucker não cai na solidão como os seus heróis do Padrinho a Rumble Fish.

FFC: É uma boa interpretação. É evidente que quis fazer um filme sobre a indústria, a política, sobre a luta universal da criatividade, mas não perca de vista que eu também quis fazer um filme sobre uma ideia, o seu crescimento, a sua execução. É um filme sobre a criação de um carro.

MSF: No passado falou muito do conceito que dava unidade a cada filme seu: o helicóptero de Apocalypse, o néon de Do Fundo do Coração. Qual é o conceito de Tucker?

FFC: Penso que é o carro. Você não acha?

MSF Acho que não. Acho que é o «interior de um homem».

FFC: Mas o carro é a metáfora da imaginação desse homem. Repare na imagem do carro, o motor atrás, um pouco excêntrico, um bocadinho louco. É essa imagem que dá o estilo ao filme. Gosto muito da luz e do look do carro.

MSF: Disse que Tucker é um filme político. Considera que na mais forte das afirmações políticas do filme – o discurso de Tucker no tribunal – está o seu sentimento sobre a América de hoje?

FFC: Hoje a vida na América é ainda mais difícil. A América perdeu a sua indústria automóvel. Muito por causa do que se vê no filme estamos fechados a novas ideias. Agora que vamos a caminho dos anos 90, percebemos que a criatividade – é dela que trata Tucker – é a chave do sucesso económico. E o segredo do sucesso da vossa vizinha Itália que a vocês portugueses pode interessar muito. O sucesso da Itália, ao contrário do milagre alemão, não se fez com ferro e aço, fez-se com a criatividade. Pode tirar-se daí uma moral para as pessoas e para os países: são as artes criativas que trarão a prosperidade no futuro. É preciso encorajar as pessoas como Tucker.

MSF Se a coisa mais importante para si é o talento, porque motivo são os seus orçamentos tão elevados?

FFC: Não são nada. Posso fazer filmes caros ou baratos. No fundo os meus orçamentos reflectem mais a indústria cinematográfica …

GL: E estranho como as pessoas não se apercebem que os teus filmes andam abaixo dos 13 milhões de dólares, em geral.

MSF: Mas o que vem na Imprensa …

FFC e GL: Você acredita em tudo o que vem nos jornais?

MSF: Afirmou uma vez que a escrita do argumento era a coisa que lhe dava mais prazer no cinema. Porque é que não se concedeu esse prazer em Tucker?

FFC: Estava a filmar Gardens of Stone. Para se escrever alguma coisa é preciso ter 6 meses livres.

MSF: Em Tucker atrevo-me a dizer que a luz e a câmara são o essencial. Isso significa uma mudança relativa em relação a Peggy Sue e Gardens of Stone onde os actores eram mais importantes?

FFC: Você esqueceu-se dos cenários. Não é só a fotografia. É mais a relação entre a fotografia e o art director. Mas eu acho que Peggy Sue era muito dominado pelo visual. E em todos os meus filmes esses aspectos e a música são centrais. Claro que Tucker é como um show e quase começa como um «comercial» …

GL: É engraçado que você esteja a pôr estilo à frente do conteúdo. É como se estivesse a olhar para uma pintura e dissesse que uma tinha um bom desenho e que numa outra era a cor que dominava e que era pena porque devia ser o desenho …

FFC: George, ele não está a falar verdadeiramente do conteúdo. Ele sabe que Tucker tem um conteúdo. Ele está a falar de uma sobreposição do visual à interpretação dos actores. Tucker é uma enorme tela, uma enorme pintura de período e da produção do carro. A história psicológica daquelas personagens é menos importante. Gosto de um filme que não seja só a história e os actores com os cenários e a música em fundo. Quero tudo em primeiro plano.

MSF: Os seus filmes são cada vez menos experimentais e cada vez mais clássicos. Tucker faz-nos lembrar Capra e tem «citações» do Citizen Kane. Porque mudou do experimental para o clássico?

FFC: Filmo de acordo com o tema. Escolho o estilo de forma a que um filme seja «aquilo mesmo de que trata». Se Apocalypse Now é sobre a insanidade moral, quero que o filme seja «insano». Se Gardens of Stone é sobre um ritual de morte, quero que o filme seja um ritual de morte.

MSF: No passado o seu projecto não era apenas fazer filmes, era renovar o cinema americano. O seu sonho era fabricar um cinema em que a inovação tecnológica, o velho estúdio, os artistas, estivessem inter-relacionados. Que foi feito desse sonho?

FFC: Bem, eu acho que fizemos Tucker dessa maneira. Tentamos que o cinema tenha todos esses elementos de um modo único. Você sugere que eu perdi a capacidade de experimentar e eu pergunto: quem é que nos patrocina? Onde é que está o público que vai aos filmes? Onde é que está a Imprensa que nos apoie? Quando eu tinha 30 milhões de dólares no bolso, gastava-os alegremente em Apocalypse Now. Agora, tenho de os ir buscar ao bolso de George Lucas ou à Paramount. Não posso andar a arriscar o dinheiro dos utros e por isso tenho de ser um pouco mais conservador. Não é legítimo fazer os outros arriscar por nós.

MSF: E verdade ou é uma lenda que por trás de toda a série Star Wars e da série Indiana Jones existe, à maneira de um Selznick, um autor chamado George Lucas?

GL: Envolvi-me em todos eles, mas mais nuns do que noutros. A minha influência estará em todos esses filmes de uma maneira ou de outra. Mas a maior das influências será a de eu ter dado aos realizadores a possibilidade de fazerem o melhor filme possível.

MSF: Mas porque é que não os realizou?

GL: Houve um momento na minha vida em que decidi que isso me pedia tempo de mais e que eu gostaria de tentar outras coisas. Dá-me gozo produzir filmes que outras pessoas desejam ardentemente, mas aos quais eu não seria capaz de dedicar dois anos da minha vida em exclusivo.

MSF: Está satisfeito com a recepção de Tucker na América?

GL: Sim. Tem sido um sucesso relativo. Não é como Roger Rabbit, mas faz público e foi um sucesso na área da crítica.

FFC: Foi esse público que nos faltou em Do Fundo do Coração, Hamett e The Escape Artist. As pessoas não foram ver e perdemos 50 milhões de dólares. Foi esse o momento crítico para a Zoetrope. Perdemos o apoio das nossas audiências. O grande público queria ver coisas diferentes.

MSF: Mister Lucas, sente-se responsável pelos desastres de Coppola? Afinal foi o seu Star Wars que começou a juvenilização do público.

FFC: Ah! Ah! Então foste tu!. ..

GL: Não fui em que comecei a iuvenilização do público. E repare, eu faço filmes para jovens, não para teenagers. Os meus filmes são para a gente ainda mais jovem e, ao mesmo tempo, para todo o público. A indústria de cinema continua a não querer fazê-los, mesmo depois do sucesso de Star Wars. Quando Steven Spielberg quis fazer ET, diversos estúdios rejeitaram o filme. Spielberg teve que lutar com todas as forças para o fazer. Filmes inteligentes e sofisticados deparam sempre com problemas financeiros para ser feitos. Não confundam os meus fílmes e os de Spielberg com os da indústria. O género deles é Nightmare in Elm Street e isso começou muito antes de Star Wars.

FFC: Culpar Star Wars da juvenilização seria caricato. O filme de George é um ponto alto de uma tradição cinematográfica. Eu atiro a culpa para 20 anos de televisão. 20 não, 40. 40 anos que fizeram perder a variedade. Agora querem que todos os filmes sejam iguais.

GL: Insisto. Vocês na Europa têm uma concepção errada sobre o que a indústria quer. Se eu lhes levo um filme para um público jovem, não o aceitam. Só aceitam um filme de acção ou uma comédia que tenha por alvo directo os teenagers ou os jovens adultos até 25 anos. Se eu lhes levasse agora, de novo, o Star Wars, eles continuariam a não querer fazê-lo. Dir-me-iam que é «jovem de mais».

Public-relations: Tenho que interromper, os senhores têm lá fora a limousine à espera.

GL: Deixemos o carro esperar. Ficamos aqui na conversa o resto da noite.

FFC: O que é de mais é de mais. Já falámos muito tempo. Mas deixe que lhe diga uma última coisa. Quero sentir pelo cinema o que sentia quando tinha 15 anos e ia ver um filme: sentia que havia qualquer coisa que era só minha. Agora é como se tivéssemos uma namorada e descobríssemos que há mais 15 tipos a passar tempo com ela e a conversar… deixa-se de a querer tanto. Queria que os filmes voltassem a ser sobre as grandes questões, como «o que é a vida?», «o que é a existência?». Apetecia-me que o cinema tirasse mais coisas de Cervantes e Dostoievski, Joyce e Goethe, que se situasse a esse nível. Que falássemos de cinema como uma coisa grande e não apenas como Ghostbusters.

 

Ao Guillermo Vilela, que para mim fotografou a Dominique Sanda, a Glenn Close, a Anjelica Huston, além de Coppola, Lucas, Storaro e do canalhíssimo Balajo. O Guillermo deixou-nos prematuramente. Se o céu for um sítio divertido, é no céu que está.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a Uma noite no sótão: com Coppola e Lucas

  1. belo ‘epitáfio’
    grande entrevista

    • Eram outros tempos Rita. E havia espaço nos jornais. Ainda não se tinha instalado a falsa ideia de que as peças de imprensa têm de ter o tamanho que dê para uma leitura no tempo de uma afliiva ida à casa de banho.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    engraçado, a entrevista parece ficctícia. mas o in memoriam real.

    nunca se sabe. pode ser o contrário

  3. nanovp diz:

    Senti uma certa inveja…ouvir a História em directo, ditada pelos seus protagonistas não é para todos…sorte a sua Manuel…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Pois foi. Sorte pura. E naquele tempo ainda não eram estes press não sei quê com 30 jornalistas e 5 minutos para cada um. Foi um fim de tarde. Só eu e o meu fotógrafo. Eles posaram para as fotos (fez-se iluminação) e ficámos ali duas horas, com copos e cantoria…

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    A sorte beneficia os audazes.

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