Uma noite no sótão: com Orfeu

Ia a sair do sótão, mas uma melodia, flauta ou lira, fez-me voltar atrás. Restos de uma efémera revista, a “Face”, e reencontro um órfico Jean Cocteau. No centenário do nascimento do poeta, romancista e realizador, publiquei o texto abaixo (livremente alterado) na edição de 25 de Maio de 1989, há 23 anos…

 Cenas de Cocteau

Os filmes de Cocteau parecem expedições nocturnas dirigidas ao centro de um mistério que desagua sempre na morte – são filmes feitos contra o anjo da luz.

Para fugir à morte qualquer homem pode, e se calhar deve, encenar o seu próprio Fausto. Cocteau preferiu outro desafio, descendo aos mais baixos fundos. Atacou outro mito em sucessivas variações, filmando “Sang d’un Poète“, “Orfeu” e “Testamento de Orfeu“. Essa resolução é a prova maior de que Cocteau era um poeta e que o seu talento tinha mais facetas do que o olho de uma mosca.

Jean Cocteau nasceu há cem anos [isso foi o que eu escrevi então e já caminhamos, agora para os 150 anos]. Um século depois, uma das maiores lições que experimentamos ao ver os seus filmes talvez seja a de neles aprendermos a utilizar a pequena oficina do sonho sem dormir.

No conjunto da sua obra cinematográfica, a pedra de toque é o celebrado “ciclo órfico” que se cumpre nos três filmes já referidos. De 1931, ano do “Sang d’un Poète“, a 1960 quando, com a ajuda financeira de François Truffaut e Yul Brynner, filmou o “Testamento de Orfeu“, Cocteau não fez outra coisa que não fosse construir parábolas sobre o destino do poeta entre os homens.

São filmes onde se nasce e se renasce, o que está tanto mais certo quanto neles se reencontra a mais fecunda linhagem do cinema francês: a do cinema segundo Méliès. André Bazin, vetusto mas rigoroso crítico dos anos 50, afirmava que “Orfeu“, o painel central da trilogia, era um “documentário da imaginação” e que em Cocteau, por uma estranha magia branca e negra, o teatro se transformava em cinema puro.

Orfeu” representa possivelmente o cume da arte do cineasta. Tentando sumarizar o que é sumarizável, pode dizer-se que o filme moderniza o mito clássico, trazendo para um cenário de ruínas um Orfeu suspenso das mensagens que a Princesa lhe envia pela rádio e perseguido por uma Morte que viaja em Rolls Royce escoltada por dois sinistros motociclistas.

O Testamento de Orfeu” retoma todas as grandes imagens e símbolos do “Sang d’un Poète” e do “Orfeu” – os espelhos, as tapeçarias, os cavalos – reunindo todos os amigos de Cocteau: Picasso, Yul Brynner, o toureiro Louis Domenguin, Lucia Bosé (actriz do primeiro filme de Antonioni) e, evidentemente, Jean Marais, a figura central da obra de Cocteau e, em particular, da trilogia (é Orfeu no filme homónimo e Édipo no “Testamento“).

Tenho tudo a perder. É por isso que ouso“. Nesta sua afirmação Cocteau define um projecto em que a heresia foi um lugar-comum. Os seus filmes estão tanto mais certos quanto a direcção dos olhares está muitas vezes errada e as entradas dos actores também. “Who cares?”. Basta que os filmes encontrem o ritmo no jogo de longas e breves que lhe era muito caro. Nem sei se são filmes. Nem é preciso. Basta que sejam, e são, espectáculos de Cocteau.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

7 respostas a Uma noite no sótão: com Orfeu

  1. Os posts do manuel às vezes me parecem casas de espelhos de parque de diversões, outras me surgem como labirinto e, em casos como este, lembram uma brincadeira de infância chamada “desconta lá”. Pega-nos por um lado e só resta deixar o pensamento deslizar…

    …e em um pulo já estava aqui:http://www.youtube.com/watch?v=KUTiKPPDld4

  2. Brincadeiras de infância, abençoadas, descontam em tudo, até na morte

  3. Rita V diz:

    E na sequência do seu post este clip de que gosto muito. A partir dos 2:18 então, nem se fala!

  4. nanovp diz:

    Pronto é um defeito que assumo: conhecer mal Cocteau: que extraordinária cena…tenho de voltar a rebobinar tudo….

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    E assim é registada mais uma volta no carrocel do cinema.

Os comentários estão fechados.