Uma varanda de família

Edouard Manet. A Varanda. 1869. Musée d’ Orsay

– Demora-se?

– Não vê que calço as luvas? É um instante. Sempre fica, mana?

Claro que ficava, pensou Manuel Bernardo, ficava mais que não fosse para lhe atiçar o pensamento, assim de braço transparente sobre o varandim. E queria que fosse para lhe atiçar o pensamento, que o que mais temia era que o pensamento de Maria Lúcia estivesse já noutro lado. Às vezes ia perguntar-lhe, isto é só comigo?, mas ela movia-se como se adivinhasse a inquirição e calava perguntas e nunca fazia promessas. Nem quando o arrastava ao longo do corredor até ao quarto velho e lhe abria os favores numa ânsia a que Manuel Bernardo não sabia dar nome. Nem queria, que no que não se pode nomear  mais vale nem pensar. Esta agora tinha-lhe saído bem. Como é que ela conseguia aquele trejeito de rapariga solteira, recato de olhos baixos e algum bordado ocasional, na sala até rubor já lhe tinha visto? Na sala, pois que no quarto velho, rubor só o dele quando ela o agarrara pelas nádegas para o puxar para si e beber até à última gota as ondas que o percorriam, matilha à solta pelo resto da tarde.

– Venha daí, Maria Luísa. Se a sua irmã não quer vir …

– Fazia-lhe bem, há que dias que não sai. Olhe que para apanhar ar não é só o da varanda. Por isso, anda às vezes cismada. Lembre-se da tia Leontina …

– Mas eu pareço-lhe cismada, mana? Enfado-me … vá lá, cunhado, leve daqui a mana, antes que fique ela cismada. Sempre vamos às Teixeiras esta noite?

Cabra. Não. Podia ter sido inocente. Sim. Era inocente: o serão nas Teixeiras estava combinado fazia tempo. Mas o que lhe fincava as esporas nas virilhas era a saleta de bordar das Teixeiras, com uma chaise-longue forrada a veludilho azul, tão azul como o laço das ligas dela e o desajeitamento dele, oh, Manuel Bernardo, tenha calma, que eu não acabo. Acabou-se ele, a manchar de suspeitas o veludilho da chaise-longue das Teixeiras, deixe lá: para tanto não têm elas bisbilhotice. Ninguém descobre o que nunca imagina que exista. Eu sei lá, eu sei lá.

– Vá, vamos embora. Já voltamos, então.

Maria Lúcia nem virou a cabeça e atentou ainda mais num canto da rua. As calças incomodavam-no, a obrigação do passeio incomodava-o.

– Quer ir até onde?

– Até ao jardim. Não demoramos. Sempre gostava de saber para onde estava a minha irmã a olhar com tanta atenção.

Também eu, Maria Luísa.

– Acha que a minha irmã é capaz de fazer um homem feliz?

Então não!

– Essa agora! Feliz como?

– Boa esposa, boa dona de casa?

Que sim, que devia ser. Que preocupação aquela com o futuro da irmã. Maria Lúcia daria conta de tudo, claro.

– Pois, a mamã ensinou o mesmo às duas. Mas acho a mana mais presa às toilettes e aos livros do que às coisas domésticas.  Olhe, será o que for. Sabe, vai estar imensa gente nas Teixeiras esta noite.

– Sim?

– Sim, um aborrecimento. Queria mostrar-lhes o bordado que ando a fazer, mas já se sabe. Com muita gente lá, elas não prestam atenção a nada.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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10 respostas a Uma varanda de família

  1. Rita V diz:

    Uma varanda picante
    😀

  2. As mamãs ensinam sempre o mesmo às duas. Sabe Deus de onde vêm os arrebatamentos…

  3. Teresa Conceição diz:

    Ivone,
    que bela história para esta varanda, e tão bem contada que se lê num arrebatamento. Estava tão curiosa para saber o que se ali se passa.
    É uma afiada história para cochichos de salão…se as Teixeiras deixarem de ser distraídas, claro.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Nesta varanda deliciosa me perdi.

  5. nanovp diz:

    Não há duas varandas, digo manas , iguais…

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