Urubu no terreiro

A caminho da praia encontrei um bando de caipiras. Acampavam, clandestinos, numa zona de reserva ecológica. Eram pobres, pequenos e morenos, uma mistura de índio, negro e transmontano. Foi para eles que foi cunhado o termo caipira. No grupo havia duas ou três mulheres, não consegui perceber ao certo quantas porque não paravam quietas e eram todas iguais, algumas crianças, dois homens, um deles com traços claramente transmontanos. Não tinham tendas, tinham um Fiat uno dos século passado e um atrelado onde guardavam os colchões. Eram do interior da Bahia e estavam há cinco dias a acampar no meio da restinga e dos coqueiros que acompanham a orla da praia. Tinham com eles, atado por uma pata a uma árvore, um urubu ainda com penugem.

O urubu é um bicho que só é bonito nos programas de National Geographic, com um bom director de fotografia, música adequada, filmado a mil imagens por segundo e acompanhado de um texto bem escrito e bem narrado. Ao vivo é uma galinha preta, um bicho de agoiro, necrófago, depenicador de lixo e coisas podres. Aquele, que o bando de caipiras tinha, era ainda mais horrível. Estava a crescer, a meio caminho entre pinto e galinha, já com penas pretas mas ainda cheio de penugem amarela. Um adolescente desconjuntado, já grande mas que ainda não voa. E depois debatia-se freneticamente contra a areia o que desalinhava ainda mais a já caótica penugem.

Perguntei-me para que queriam um bicho tão feio e tão nojento. Para comer não seria com certeza e a minha ignorância não lhe conseguia imaginar outros usos. Perguntei-lhes. Disseram-me que o levavam para crescer com as galinhas no terreiro. Cresce com elas, pensa que é uma delas mas como é um necrófago come toda a porcaria e lixo que por lá há o que impede “as galinhas de pegar doença no terreiro”. Com o urubu no terreiro as galinhas crescem saudáveis.

“Urubu no terreiro”. Deve haver aqui uma metáfora qualquer.

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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10 respostas a Urubu no terreiro

  1. curioso (uru bu ando) diz:

    talvez sejam mais simpáticos ao longe… à volta do Pão-de-Açúcar 😉

    uma boa alternativa àquela metáfora:

    “Em terreiro de galo ativo, até urubu usa guarda-bunda.”

  2. Rita V diz:

    nada se perde tudo se transforma
    a minha frase favorita

  3. Pedro, achas que se importarmos uns cem eles papam o lixo que agora nos submerge?

  4. Pedro Bidarra diz:

    Pode ser caro António, pode ser. Era disso que eu andava à procura

  5. nanovp diz:

    Sacrificam-se os urubus para que cresçam as galinhas…sejam elas quem forem …

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