Viagens pela minha estante VI

Jupiter e Io. Corregio, ca. 1530

Já um dia confessei que gosto de gostos. Superlativos, dramáticos, absolutos. Acho que já vos disse que Mário Vargas Llosa é irritante de tão bom. É, a par de Roth, o maior entre os romancistas vivos. E o melhor Nobel desde Steinbeck. Pimba. E como se tudo isto não bastasse, vai-se afirmando como um pensador liberal de um sensatez luminosa (eu sei que hoje não está na moda falar em liberais sensatos mas não me peçam para cavalgar essa onda). A Civilização do Espectáculo é a prova disso mesmo. Há mais. Há muito mais, da corrupção da democracia ao fim do privado nos dias de hoje, passando pelo lugar do laicismo. Da “concepção altíssima, nobilíssima da arte de pintar como fonte  autossuficiente de prazer e como realização do espírito” (em Seurat) ao passado circular e omnipresente nas letras e nas artes. Da erosão da identificação entre lei e moral ao papel insubstituível de uma elite “formada não pela razão de nascimento nem pelo poder económico ou político, mas sim pelo esforço, pelo talento e pela obra realizada“.

Mas o meu Llosa sempre foi, em boa medida, o Llosa do erotismo incendiário, da transgressão sonhada, do estertor suave dos Cadernos de Dom Rigoberto e do Elogio da Madrasta que li há muitos, muitos anos, na província de Chiapas, com muito poucos pesos no bolso e com a alma não menos leve que a carteira. Mas essa é outra história. Deixem-se ficar, por agora, com este excerto: ” (o erotismo) com os seus rituais, fantasias, vocação de clandestinidade, amor às formas e à teatralidade, nasce como um produto da alta civilização, de um fenómeno inconcebível nas sociedades ou nas gentes primitivas e rudes, pois trata-se de uma actividade que exige sensibilidade refinada, cultura literária e artística e uma certa vocação transgressora. Transgressora é uma palavra que neste caso tem de ser usada com pinças, pois dentro do contexto erótico não significa a negação da regra moral ou religiosa dominante, mas sim as duas coisas ao mesmo tempo: o seu reconhecimento e a sua rejeição, misturados de forma indissolúvel. Violando a norma na intimidade, com discrição e de comum acordo, o casal ou o grupo levam a cabo uma representação, um jogo teatral que inflama o prazer com um toque de desafio e liberdade, ao mesmo tempo que preserva para o sexo o estatuto de actividade velada, confidencial e secreta.

Sem o cuidado das formas, desse ritual que, ao mesmo tempo que enriquece, prolonga e sublima o prazer, o acto sexual volta a ser um exercício puramente físico – uma pulsão da natureza no organismo humano da qual homem e mulher são meros instrumentos passivos -, desprovido de sensibilidade e emoção“. Como o próprio diz (mais à frente? mais atrás? que diferença faz?): “Talvez em nenhuma outra actividade se tenha vindo a estabelecer uma fronteira tão evidente entre o animal e o humano como no domínio do sexo. Esta diferença a princípio, na noite dos tempos, não existia e confundia ambos numa cópula carnal sem mistério, sem graça, sem subtileza e sem amor. A humanização da vida de homens e mulheres é um longo processo em que intervêm o avanço dos conhecimentos científicos, as ideias filosóficas e religiosas, o desenvolvimento das artes e das letras. Nessa trajectória nada muda tanto como a vida sexual“.

Um dia destes volto a Chiapas. Com a mesma companhia que é a companhia do mundo que é só meu. Mas prometo que na mala volto a levar, Rigoberto, Lucrecia e Fonchito.

PS: Se quiserem uma versão mais curta e com bonecos, fixem-se na imagem acima. Vêem como o enlevo roliço de Io contrasta com a imaterialidade evanescente dos lábios húmidos de Júpiter? Quando os visitei, numa manhã fria de chuva em Viena, ouvi, de mansinho, Antonio Allegri, dito Corregio, soprar-me ao ouvido: “l’ érotisme c’est moi“.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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13 respostas a Viagens pela minha estante VI

  1. fernando canhão diz:

    que a verdadeira beleza se torne numa coisa um pouco mais partilhada.

    Quem o diz, sem o saber, é Carl Philipp Emanuel Bach, na apresentação de um disco de Jocelyne Cuiller. 5,99 euros na Fnac, preço, verde dizem eles, justificado certamente pela recusa de alguém se ter recusado a receber a partilha. Irei ler o Llosa que defende, e em troca insisto, se não conhece está bem de ver, Perturbação de Thomas Bernhard. Estou quase certo que irá gostar. E do clavicórdio de Jocelyne também.

  2. Pedro Norton diz:

    Obrigado Fernando. Vou à procura da Jocelyne. E depois conte-me do Llosa.

  3. Pedro Norton diz:

    e claro, vou procurar o Thomas Bernhard.

    • fernando canhão diz:

      TB, se lhe entrar como imagino que irá suceder, é das coisas mais complexas que nos pode acontecer, a nós simples criaturas de Deus. Fui considerado tonto pela família, pois salvo o alemão que desconheço totalmente, sempre que descubro uma edição do homem, que desconheça compro-o sem hesitar. Lê-lo em espanhol é onde ainda me soa melhor, salvo as belíssimas traduções portuguesas. Sempre que compro um, levo-o para casa como o meu pai fazia com um bocado de queijo da serra curado, quando saia do eléctrico 28, ao vir de uma das coisas em que trabalhava. Só falta pedir ao livreiro para lhe pôr um cordel com um pauzinho para não o deixar cair.
      E agora uma coisa enquanto não encontra a Jocelyne
      http://www.youtube.com/watch?v=WULDLz-WUxM
      Acerca do Llosa vou arrancar com uns 500 gramas, ainda não escolhi é qual.

  4. curioso (audi ó filo) diz:

    a Jocelyne já aqui fica, com muito menos sofrimento (gozo?) que o Gould

  5. curioso (and ante) diz:

    aqui ela mexe-se e dá a cara (sem aqueles ex cessos todos… )

    • Pedro Norton diz:

      O vestidinho parece saído da Noviça Rebelde que é como no Brasil chamaram a Música no Coração. Fora isso, gostei muito. Obrigado curioso.

  6. curioso (his master's voice) diz:

    parece melhor parar de escrever (e de falar…)

    “Words ruin one’s thoughts, paper makes them ridiculous, and even while one is still glad to get something ruined and something ridiculous down on paper, one’s memory manages to lose hold of even this ruined and ridiculous something. Paper can turn an enormity into a triviality, an absurdity. If you look at it this way, then whatever appears in the world, by way of the spiritual world so to speak, is always a ruined thing, a ridiculous thing, which means that everything in this world is ridiculous and ruined. Words were made to demean thought, I would even go so far as to state that words exist in order to abolish thought, and one day they will succeed one hundred percent in so doing. In any case, words (are) bringing everything down. Depression derives from words, nothing else.”
    ― Thomas Bernhard

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    O seu Llosa tem semelhanças com o meu ou a subjetividade não fosse mandante nas leituras.

  8. Muito bem inflamado, Mr. Norton. Tenho ali a Civilização em cima da mesa para ler até Dezembro que o Natal é sempre para voltar a Dom Rigoberto, esse Santa Claus de maculados lençóis…

  9. Já tinha o título debaixo de olho (porque a mim do Llosa não me escapa nada) mas, depois da amostra que aqui trouxeste, não esperei nem mais um minuto. E, com umas dezenas de páginas de leitura do livro, posso confirmar que a Civilização é tudo aquilo que tu dizes.

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