Palimpsestos eidéticos #12

 

Chegado a A-dos-Cunhados, terra onde tinha combinado encontrar-se com o seu agente, da Org, ou da Orc, a idade emperrava-lhe o ouvido e as pessoas falavam-lhe sempre depressa de mais, fosse em português fosse em inglês, línguas que dominava mediocremente por igual, sentou-se no café Lincoln e pediu uma Água das Pedras.

Passados minutos, um grande carro, um Chrysler Voyager preto com vidros fumados, estacionou à frente do café e um homem decidido dirigiu-se à sua mesa:

– Joe, recebeu o relatório?
– Recebi, babe, mas é uma confusão total!

John Zarco ficou lívido. Tinha investido 11 dos melhores agentes a escrever aquele enorme relatório, 33 mil carateres de relatório, segundo estimava, e afinal o grande Joe não o valorizava. Decidiu arriscar:

Confusão como?

– Confusão, babe! Eu estava esperando uma coisa diferente, innovative. Não esta coisa em que ninguém se entende… Quer dizer, eu vim do meu jardim budista, ali no Bombarral, de propósito para te dizer que assim não vamos lá… porque é confuso, much confuso, maning!

Jardim Budista no Bombarral

Jardim Budista, Bombarral

– Pode dizer-me o que não entendeu?

– Bem, eu não entendi nada! Não entendi porque razão o Breton tinha de ir num avião com um quadro de Kees van Dongen, que eu nem sei se tenho na minha coleção; não entendi  por que motivo meteram o Breton, quando se vê logo que ele nada tem a ver com isto. A Soraia, por outro lado, talvez me interesse, caso seja aquela que entra nas novels da televisão, mas o senhor Jalabar e aquelas confusões da Turquia são-me indiferentes. Aliás, acho que alguém andou a beber de mais, porque estamos muito bem na Turkey e, de repente vamos para Austria, lá para Belvedere e assim ninguém se entende…

– Mas isto é cifra!

– Cifra! Que queres dizer com isso? Olha que eu sou  suspicious

– Quer dizer, é escrito de uma forma tal que é necessária uma chave para entender a verdadeira mensagem.

– Está a falar de um texto eidético? – perguntou da mesa ao lado um cavalheiro de barbas e óculos que até então passara despercebido.

– Como? – perguntou John Zarco – Eidético? O que é isso?

– Deixe-me apresentar-me. O meu nome é Umberto Eco, disse o homem de barbas num português perfeito, e até com um ligeiro sotaque do Oeste. Um texto eidético é aquele cuja essência não é captável pela sua leitura pura e simples, mas por sinais que são deixados no texto. É diferente do palimpsesto, um texto que num pergaminho está debaixo de outro que o esconde.

Texto eidético num palimpsesto

Palimpsesto com texto (porventura) eidético

– Não me referia a isso – disse John Zarco – referia-me a uma verdadeira chave, daquelas tipo Enigma que se usaram na II Guerra.

-Sim, entendo – respondeu Umberto Eco – não tenho tanto interesse por esse tipo de textos como tenho pelos textos eidéticos…

– Porra! Eu é que pago isto e não estou para conversas intelectualóides aí dos both. Quero saber como é que compreendo esta coisa, e quero it now! Dá-me a chave John Zarco, caso contrário estás kaput!

– Também fala alemão? – perguntou Eco – pensava que só se expressava em português e inglês, e simultaneamente.

– Cala-te!  Respondeu Joe Berardo desesperado – tu, Zarco, dá-me a chave!

– Ok – respondeu o outro – aponte aí: 40-48-19-776 vertical e 28-37-49-335 horizontal.

Joe começou a rebuscar nas folhas do relatório e a sua face iluminou-se. Sim, agora começava a fazer sentido.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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6 respostas a Palimpsestos eidéticos #12

  1. Só tenho a dizer uma coisa,cada um é mais maluco do que outro. Então agora trazes para aqui o Triste do Eco? Embora já me palpitasse que ele se desse com o museológico Joe. Agora os números do código não me parecem nada os da Soraia…

  2. Ivone Costa diz:

    Lindo. Ainda bem que o meu turno já passou.

  3. nanovp diz:

    O Eco mal sabe onde se meteu, até porque nem a Orc, a Org, a Soraia e o Jalabar terão estofo necessário para o grande comendador…que por sinal deveria achar muita graça, “very funny”, ser o tema de um texto na blogosfera….

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Um delírio! Olha se a minha vez era a seguinte…

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