A fábrica de bandeiras

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Seria considerado um mártir?
Ao olhos dos homens talvez. Aos olhos dos media de certeza. Mas aos olhos de Alá? Se Alá calha a existir, e a ter olhos, de certeza que não.
Abdel Salem* não era crente, nunca fora desde que tinha memória de si. Sempre O vira como uma grandiosa fantasia contada a crianças e adultos por gente séria e grave e que conseguia fazê-lo sem nunca se desmanchar.
Não! Abdel Salem não era crente. Não era crente mas tinha medo.
Desde que começara a contemplar a ideia do suicídio, as Suras, que recitara em pequeno, tinham voltado a fazer-se ouvir nos seus pensamentos. Abdel Salem tinha-se esquecido de viver como manda o Livro mas agora, perto do fim, o Livro lembrava-se dele.

” Quanto aos incrédulos, serão cobertos com vestimentas de fogo e ser-lhes-á derramada, sobre as cabeças, água fervente que derreterá tudo quanto há em suas entranhas, bem como a totalidade de suas peles. Em adição, haverá clavas de ferro para o castigo. E toda a vez que dele quiserem sair, por angústia, ali serão repostos e ser-lhes-á dito: Sofrei a pena da queima!”  Sura 22

Abdel Salem tinha presa ao pescoço, a cair pelos ombros até ao chão, uma bandeira americana. Uma Annin, feita pela Annin Flagmakers, a mais antiga casa de bandeiras americanas do mundo. Esta tinha-lhe sido oferecida pelo próprio CEO da Annin durante uma convenção de fabricantes de bandeiras. Tinha as “stars” bordadas em relevo prateado e as “stripes” cosidas à mão; igual à que ainda hoje esvoaça na lua. Enrolada ao corpo, a bandeira sobrava atrás de si como a capa de um super-herói e, enquanto caminhava, ia ensopando a gasolina que alastrava pelo chão da fábrica. Abdel Salem já tinha esvaziado dois jerricãs sobre as máquinas e os rolos de tecido e estava a acabar de derramar o terceiro. Estava pronto. Abdel Salem, mercador libanês, estava prestes a chegar-se fogo. A imolação era o seu último negócio. Um negócio que proponha a Alá.
De acordo com o Livro estaria condenado arder por toda a eternidade. A descrença, que é o maior e o mais pesado de todos os pecados, era o seu pecado. Para ser perdoado a expiação exigia igual peso. A água não bastaria para lavar a nódoa da descrença. Só o fogo.
Pois pegaria fogo. Era essa a decisão.
Podia ser que o gesto fosse entendido como arrependimento, como uma predisposição para acartar, ainda em vida, o sofrimento eterno que, seguramente, lhe estava reservado. Não seria preciso acender o fogo para a sua chegada. Abdel Salem levá-lo-ia consigo. Seria ele próprio a chama que atearia o inferno a que chamaria, eternamente, a sua casa.
A não ser, claro está, que Alá o perdoasse. Afinal o seu suicídio, carregado de simbolismo, seria o de um guerreiro e a sua vida de pecador tinha, apesar de tudo, sido uma vida dedicada a combater o infiel. Podia ser que o negócio se fizesse. Não tinha grandes esperanças, mas podia ser.
De qualquer modo tinha de se matar, não havia outra solução. Os credores não tardariam a chegar para tomar conta de tudo. Era altura de acender o fósforo e acabar com aquilo.

“Aquilo” era a Fábrica de Bandeiras Abdel Salem, a segunda maior fábrica de bandeiras americanas do mundo e a maior fora dos Estados Unidos – a primeira é a famosa Annin Flagmakers. O negócio de Abdel Salem não era, no entanto, o de produzir bandeiras americanas para serem hasteadas ao vento, como as dos seus concorrentes. Era sim o de produzir bandeiras americanas mas para serem mostradas a arder na praça pública.
Tudo começou no fim dos anos setenta, numa pequena fábrica em Beirute Ocidental onde as mulheres da família tingiam, teciam e faziam tapetes. Foi aí que Abdel produziu as primeiras bandeiras americanas e israelitas para queimar.
A ideia veio-lhe durante a revolução Iraniana de 1979. Ao ver tanta bandeira americana a ser queimada em frente às televisões, Abdel Salem pensou que talvez ficasse mais em conta produzi-las em vez de as importar dos Estados Unidos ou da Europa. Afinal era dinheiro que ia parar ao bolso do grande satã, dinheiro que saia da causa directo para o inimigo da autodeterminação, ou do socialismo, ou do povo, ou do Islão ou de qualquer que fosse a causa dos dias.
Quando começaram as revoltas em Beirute, com a invasão israelita, Abdel começou a produzir bandeiras americanas e israelitas para queimar. A aposta resultou e o negócio tomou conta da fábrica que deixou de produzir tapetes para passar a produzir bandeiras a tempo inteiro. Tal era a revolta, tal era a procura.
Com o bombardeamento a Beirute, em meados dos anos oitenta, ordenado pelo presidente Reagan e que se seguiu aos atentados à embaixada e à universidade americana, o negócio explodiu. Beirute ocidental ficou praticamente destruída, e Abdel Salem mudou a fábrica para Safra, a norte, uma zona apesar de tudo mais segura. Especializou-se então, e definitivamente, em Stars n’ Stripes e as vendas não pararam mais. Mais encomendas, mais trabalhadores, mais máquinas, mais bandeiras.
A partir daí o negócio não deixou de crescer, como não deixaram de crescer as revoltas e os conflitos. Com o tempo Abdel Salem sofisticou o produto. O processo de fabrico foi modernizado, com investimentos em novas fábricas, novas máquinas e impressoras de alta definição. Materiais mais leves e inflamáveis foram descobertos, de modo a possibilitar uma combustão intensa e mais imediata, e por isso as bandeiras Abdel Salem mostraram-se sempre muito mais adequadas à queima que as dos seus concorrentes mais convencionais. As bandeiras Abdel Salem, como faziam uma chama maior e mais rápida eram mais adequadas às televisões e ao media bite: “Uma bandeira que não faça clarão, não serve para a televisão.” costumava dizer Abdel Salem. E eram também mais baratas uma vez que as “stars” não tinham que ser bordadas, como é norma numa bandeira de qualidade superior, e o material tradicional pôde ser substituído por fibras sintéticas, baratas e inflamáveis.
Ao conflitos de Beirute seguiram-se as guerras do Golfo, a ocupação do Afeganistão, a ascensão do Hezbollah, a Alquaeda, o Amas, as revoluções árabes, as revoltas na faixa de Gaza e os atentados e manifestações antiamericanas por todo o mundo. O mercado cresceu e com ele as exportações de Abdel Salem para todo o mundo. “Damos bandeira aos sentimentos antiamericanos” lia-se nas brochuras da Abdel Salem Flags distribuídas pelos mercados da revolta. Até na Europa, com os motins do fim da União, as bandeiras queimadas (uma edição especial de bandeiras alemãs) vieram das suas fábricas. Por todo o mundo as bandeiras Abdel Salem arderam nos ventos da revolta. Os mesmo ventos que empurraram a prosperidade de Abdel Salem.
Até que um dia, de repente e sem aviso, rebentou a paz.

Abdel Salem fora um homem moderno e cosmopolita, um homem da globalização. Tinha tido uma primeira mulher, que abandonara mas a quem pagava o devido, e filhos que estudavam nas melhores universidades europeias. Tinha casas no sul de França, em Bali e viajava por todo o mundo.
Numa viagem à China, para fechar uma parceria, conheceu Maria num bar de strip em Macau onde celebrava com os sócios chineses. Maria era uma bonita filipina de cabelos negros, pele branca e sorriso feliz. Maria era também devota de Cristo tanto quanto do varão. Abdel apaixonou-se e trouxe-a consigo para Beirute com promessas de casamento e prosperidade. Consegui convencê-la a renunciar ao varão mas nunca a Cristo e por isso casaram em Creta, segundo os ritos católicos, depois de conseguido o divórcio de Fátima a sua primeira mulher. Até rebentar a paz viveram confortáveis em Ras Beirute.
Ao longo da sua vida Abdel fizera tudo pelo seu negócio e pelo bem estar das suas famílias. Tinha instigado e patrocinado atentados, raptos e revoltas. Tinha investido em todos os grupos e organizações de modo a para manter em alta o mercado das bandeiras para queimar. Mas a paz era um território desconhecido para Abdel Salem. Quando rebentou, rebentaram também os seus problemas.
A dívidas da Abdel Salem Flags, começaram a avolumar-se. Os novos investimentos em impressoras digitais por sublimação mostraram-se inadequados aos tempos. Não houve retorno nos investimentos e as quebras na procura acentuaram-se. Ainda tentou diversificar os mercados mas a paz alastrou-se como uma doença a todos os cantos do mundo. Ninguém mais quis queimar bandeiras e os bancos vieram bater à porta. Para obter liquidez, e tentar manter-se à tona, Abdel não teve outro remédio que não recorrer aos seus antigos amigos. Estava convencido que a paz não duraria. Mas os juros que os antigos amigos cobravam eram difíceis de pagar e a última prestação, em caso de falharem todas as anteriores, era o sangue. O seu sangue de mercador herdado dos fenícios. Só restava pois uma saída.
Abdel Salem pegaria fogo levando consigo a fábrica. Seria um atentado, um acto terrorista e ele um mártir. Os seguros pagariam porque as apólices que tinha ainda  cobriam actos terroristas e porque os antigos amigos de Abdel eram especialistas em exigir ser pagos; pagariam o suficiente para saldar as dívidas e, sobretudo, salvar Maria da humilhação de ter que voltar para o varão.

Abdel Salem tirou um fósforo da caixa acendeu-o e pensou, sorrindo, que tudo se resolveria em menos de um. Pelo menos por cá. Lá, no Além, logo se veria.

* Criado da Paz

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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12 respostas a A fábrica de bandeiras

  1. Vasco (da) Gama diz:

    gostei (e vou partilhar com quem calhar)

  2. Rita V diz:

    5 * * * * * ou serão bandeiras?

  3. Joaquim Pena diz:

    Muito Bom!

  4. curioso (vai lá vai) diz:

    o ataque continua… deixei aqui comentário que desapareceu…

  5. Diria, Pedro, que é um belo golo de bandeira

  6. Curioso (sher lock) diz:

    Então? O ataque continua? Ou é crise intestina? Voltaram a desaparecer comentários… Os discos devem estar gastos 🙁

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