A minha religião

Woman Looking at the Sky

O Hen­ri­que fez aqui uma série de belos círculos em volta do “religioso”. Não resisto a uma voltinha, também. Aviso já que sem ler o post dele não se perceberá patavina do que vou dizer e mesmo assim tenho dúvidas, sendo o hermetismo da minha exclusiva responsabilidade.

A incursão do Henrique pelo religioso está sustentada na etimologia.  E embora con­fesse uma bruta inveja pelo Dici­o­ná­rio Eti­mo­ló­gico que ele abarbatou em Braga, sigo, como no comentário que lhe fez o Panurgo, um caminho diferente. A etimologia não me alegra. Mesmo o re-ligare em que as aulas com o Padre Manuel Antu­nes me con­ti­nuam a fazer crer, parece-me pouco para o que entendo por reli­gião.

Para mim, reli­gião é tirar os olhos do chão e levantá-los para o alto. Os tipos que andam com a cabeça no ar, essa neces­si­dade de andar com a cabeça no ar, em vez de a dei­xar enta­lada entre os ombros, é a reli­gião ou o sen­ti­mento reli­gi­oso. Às vezes dá mau resul­tado: Tales espetou-se num buraco, Sócra­tes, de tanto levan­tar a cabeça para inves­ti­gar os céus, bebeu o que bebeu.

Já levamos uns séculos de desvalorização do religioso, tomado muitas vezes como puro obscurantismo, como uma atávica tentativa de protecção infantil, para não dizer infantilóide, contra os medos que a Natureza nos inspirou no passado. Esta leitura, tão politicamente correcta, não cola. Levantar a cabeça para o alto é, sim, um sinal claro de insatisfação, de falta de qualquer coisa, de um sopro inexplicável. Inspira-se, levanta-se a cabeça para o alto e é isso o sen­ti­mento reli­gi­oso. Em boa verdade, quando a humanidade começou a levantar a cabeça para o céu, nesse movimento concentrou curiosidade científica, aspiração estética e vontade de ética. Levanta-se a cabeça para o céu e está-se à pro­cura de ver­dade, de beleza e de sentido. Não é só uma re-ligação do homem com o cosmos, é também um movimento interior de busca de identidade.

O nosso antepassado que pela primeira vez levantou a cabeça para o céu não era um homem inferior, não era um animal amedrontado. Era um tipo que não sabia, mas tinha vontade de saber, era um tipo que matava, mas tinha vontade de não matar, era um tipo feio que tinha fome de beleza.

Não foi preciso muito, bastou levantar a cabeça para o céu.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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22 respostas a A minha religião

  1. Vasco (da) Gama diz:

    Ainda que me possa enganar redondamente o o assunto “religioso” parece inquietar o Henrique, que parece procurar uma aproximação um pouco provocatória a esse assunto através da (algo prosaica) etimologia (digo isto porque embora chegue a ter alguma curiosidade pela etimologia está longe de ser um fascínio, e não posso de considerar um pouco bizarro abordar a religião por esta via, e, para além disso, é para mim um pouco inquietante… ). E repito, pode ser que me engane (outra vez), mas creio que uma das primeiras (senão a primeira) contribuições do Henrique neste blog, provocatoriamente (como parece ser seu costume), afirmava, a alto e bom som para quem o ouvia, que tinha ido à missa, sem por os pés na igreja (ou algo do género).

  2. Vasco (da) Gama diz:

    A propósito do nosso antepassado, não sei se ele terá levantado os olhos para o céu, afinal, o que se vê quando se olha o céu…, talvez ele, afinal percebesse que conseguia ver muito mais coisas se olhasse para baixo, não para o céu, mas para si mesmo (e depois, se calhar olhou para o céu, mas…).

  3. Henrique Monteiro diz:

    Caro, concordo inteiramente. O primeiro a olhar para cima, foi o primeiro a ascender.

    José Gomes Ferreira, poeta razoável, comunista feroz, escreveu um poema que é o contrario da religião, que ele pretendia criticar, esquecendo-se de que comparava o ateu a um porco. Ei-lo:

    É vizinho porco,
    Sempre de borco
    A fossar na terra onde nasceu
    Ensine ao camponês a sua lição
    De olhar mais para a terra
    E menos para o céu

    Nb – foi citado de memória, pode ter erros…

    • curioso (zoro astro) diz:

      quem inventou a religião (e interessa entender a raiz), terá o direito de nos fazer saber o que queria dizer. se entendermos que isso para nós não é uma atitude que nos satisfaça… inventaremos a palavra (com a su etimologia própria.

      • Vasco (da) Gama diz:

        não creio que haja uma invenção da religião (ou que se possa falar disso nesses termos), mas parece-me que Deus, ou se preferir a religião, é uma necessidade que advém da quer da racionalidade do homem,e quer da sua natureza (como ser social). E, se se quiser considerar um propósito na religião, há um que é o óbvio, que é a felicidade do homem.

        • Curioso (i luminado) diz:

          É uma questão etimo lógica apenas.
          Quanto à felicidade, que pode ser só ‘na outra Vida’? , isso é mais fé, ‘Divina Justiça’, ‘Salvação dos Crentes’, coisas do ‘Reino do Pai’. Os Budistas são religiosos? Para onde olham? O que é a *religião* deles?

          • Vasco (da) Gama diz:

            A felicidade, que mencionei é desta vida, mas se o termo felicidade lhe parece excessivo também pode ser entendido como conforto (depois há a outra vida, mas …). Os budistas são religiosos, mas não têm Deus, mas parece-me que o problema deles é igual aos demais.

    • Henrique, já me arrancaste uma boa gargalhada. O poeta queria era trufas.

  4. Panurgo diz:

    O ateísmo é um croquete nos casamentos, ora está na moda, ora passa. E calma lá: é mais anticatolicismo do que outra coisa qualquer. Porque há algo de diferente na religião Católica: tornou-se Tradição.O resto não tem interesse nenhum, é vazio e estúpido.

    A minha experiência esteve sempre muito longe das Igrejas – sistemas só na também ela divina Matemática; tento viver de acordo com o Homem segundo São João, com as visões solitárias de Nietzsche, e com aquela de um pequeno livro que me marcou profundamente, Os Salvadores de Deus, do Kazantzakis, onde se apela para que nos façamos soldados e lutemos ao lado de Cristo.

  5. Rita V diz:

    querido Mestre
    de tanto olhar para cima … olhe no que deu!
    ah ah ah

  6. ~CC~ diz:

    Manuel, não podia sentir mais da mesma forma…
    È pena que “todas” as igrejas procurem domesticar o que é por natureza do mais livre que há.
    ~CC~

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