A propósito de brincos, anéis e outros fait-divers

Corria a temporada 1977/78 e o Benfica precisava de ganhar ao Sporting na Luz para se manter na corrida pelo título. E ganhou com um grande golo de Vítor Baptista. Mas, mais do que o golo, o que ficou para a história foi o que aconteceu logo a seguir aos festejos do dito: o jogo interrompido durante dez minutos com a equipa toda do Benfica e alguns dos adversários de cócoras junto à grande área do Sporting à procura do brinco que tinha caído da orelha de Vítor Baptista (que fique registado, para os mais jovens leitores, que, naquela época, um brinco na orelha de um homem era uma absoluta raridade). O brinco – de ouro e diamantes, e que valia para cima de doze contos, uma fortuna para a época – nunca apareceu e o “Maior” (era assim que o genial Vítor se auto-intitulava) saiu do campo desolado, apesar da importante vitória.

Onze anos depois, em Abril de 1989, repetiu-se a rábula noutro palco, o Coliseu dos Recreios em Lisboa, e com outro protagonista, Shane McGowan, vocalista dos irlandeses The Pogues. Desta vez, no lugar do brinco, foi um anel que justificou uma paragem no espectáculo de largos minutos. Em comum com Vítor Baptista, tinha a excentricidade, a tendência para o abismo (no Shane, o álcool que o remeteu ao quase silêncio nos últimos 20 anos, no Vítor as drogas pesadas que lhe ditaram o triste fim) e um talento de fazer inveja a todos os bem e mal comportados da vida. O anel, esse, também nunca mais foi visto, pelo menos pelo seu legítimo titular, que, de tão afectado, bebeu mais do que nunca nessa noite.

Mas, ao contrário destes insólitos  fait-divers que iam estragando o espectáculo (e, no caso do concerto dos The Pogues, estragaram mesmo), pelo menos um caso há em que a um par de brincos se deve quase tudo na excelência do espectáculo . Ou melhor, dever-se-ia quase tudo ao par de brincos não fosse a obra em causa – o filme “Madame De…” – realizada por Max Ophuls, cineasta que nos habituou em transformar o mais insignificante fait-divers no pretexto para uma obra-prima. Aqui, pela magistral câmara de Ophuls, o par de brincos é, além de elemento de ligação entre as personagens, o fio condutor de toda a trama, o símbolo do amor de Louise (Danielle Darrieux) por Donati (Vittorio De Sica) e a representação do poder com que André (Charles Boyer) procura subjugar o destino dos demais.

O filme de Ophuls não foi feito para regenerar espíritos conturbados como os de Vítor Baptista e de Shane McGowan, disso não parece haver dúvidas. E talvez não seja a via mais rápida para alimentar o desejo de alienação e transcendência de muitas mentes inquietas. Mas para quem se contente, por enquanto, em descobrir em si próprio um outro olhar sobre o mundo, é capaz de ser um bom começo.

P.S. Para os maníacos das listagens, o filme é uma fonte inesgotável. Na categoria “cenas com valsas”, a minha ignorância cinéfila diz-me que só O Leopardo de Luchino Visconti lhe leva a palma. 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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11 respostas a A propósito de brincos, anéis e outros fait-divers

  1. curioso (ris cado) diz:

    a fechar este santo domingo (ou abrindo esta dez embral semana) saiam (ou entrem) os Pogues (aparece lá no meio uma camisola ás riscas verdes…)

  2. Diogo, isto pede uma semana Ophuls, em Filmar é Triste. Este, a Carta, a Lola. O homem era um génio. Well done

  3. Caro curioso, os Pogues são muito bem vindos a esta casa. Que fiquem o tempo que quiserem. Estamos é proibidos de servir whisky ao Sr. McGowan.

  4. Manuel, só pela mais bela carta de amor que o cinema jamais escreveu, o homem já tem aqui uma estátua, em local bem visível das traseiras do EéT.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Porque será que os seus escritos me transportam a viagens nunca feitas? Paupérrima como sou, ‘malgré’ a persistência, vi em certo tempo os «veres» imprescindíveis. Depois, escasseei. Começou a ignorância.

    • Diogo Leote diz:

      Espero que essas viagens a façam ter vontade de viajar cada vez mais. Mas com outro guia fica bem melhor servida, ai isso fica.

  6. Rita V diz:

    achei a associação muuuuuuito feliz: Brincos, anéis e valsas
    quem quer casar com a carochinha?

  7. nanovp diz:

    Grande cena, quem disse que a vida não era uma festa…

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, se é uma festa ou não, não sei. Mas que a vida tem outro encanto depois de ver um filme do Ophuls, lá isso tem.

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